Criminalidade ultraviolenta e morte de policiais: um debate urgente

Criminalidade ultraviolenta e morte de policiais: um debate urgente

REDAÇÃO

15 de dezembro de 2019 | 19h49

Rafael Alcadipani é Professor Titular da FGV-EAESP e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

No último sábado, dia 14 de dezembro de 2019, o soldado da PM de São Paulo, Vinícius da Silva de Melo, foi morto por um tiro de fuzil como consequência de realizar uma abordagem de rotina. Outro policial ficou ferido e um dos criminosos também veio a óbito após o confronto. Foram encontrados 9 fuzis, 4 pistolas semiautomáticas, carregadores e coletes balísticos em posse dos membros da quadrilha. A morte de um policial em serviço, em diversos países, é tratada como um caso gravíssimo. Já estive em países como Espanha, Estados Unidos e Reino Unido quando um policial foi morto e o assunto tomava todas as manchetes e era um tema central na sociedade e na mídia. No Brasil, a naturalização do absurdo que vivemos faz com que uma morte de um agente da lei seja tratada de maneira estritamente protocolar por boa parte de nós, que não fazemos parte da polícia. É fundamental que a morte de um policial, de 28 anos, leve a reflexões importantes sobre os rumos que nossa sociedade está tomando.

Primeiro, o portal da transparência do Governo de São Paulo mostra que o PM Melo recebia de salário líquido o valor de R$ 3.475,15 no mês em que foi vitimado. Este salário deve nos fazer pensar quais são as reais condições de trabalho de policiais no Estado mais rico da federação Brasileira. O salário é apenas o sinal mais evidente. É preciso pensar na rede de apoio ao policial e a sua família que poderia incluir auxílio médico diferenciado, auxílio psicológico externo à instituição e outras medidas que ajudem a fazer com que o policial receba a atenção compatível com o risco da sua atividade. O elevado número de suicídios de policiais em São Paulo deve nos fazer perceber que algo de errado está acontecendo. Além disso, não se pode tratar a morte de um policial, ainda mais em serviço, como um crime normal e igual aos demais. A morte de um policial é uma afronta direta ao Estado que precisa ser punida de forma extremamente rigorosa.

Segundo, grupos com armas de guerra prontos para cometer crimes são tradados em inúmeras democracias do mundo como terroristas. É preciso diferenciar o crime comum do crime organizado quando assume a faceta de uma organização criminosa ultraviolenta. Quantas pessoas foram vítimas no Brasil de grupos fortemente armados? Quantos crimes deste tipo são praticados? É preciso deixar claro o tamanho do problema dos grupos criminosos ultraviolentos no país criando registros que consigam diferenciar este tipo de prática criminosa. Além disso, nenhuma polícia no Brasil, até o momento, possui equipamentos adequados para enfrentar de forma segura bandidos armados de fuzil. O fuzil é uma arma de guerra extremamente letal e que precisa ser mais controlada em nosso país. O Brasil não pode mais se furtar a discutir qual deve ser o procedimento do Estado quando se depara com bandidos com armamento de guerra. Quando não fazemos isso, deixamos este debate para figuras como o governador do Rio de Janeiro que defende posturas sem a devida fundamentação científica. Fuzil é um problema em muitos centros urbanos no país e precisamos discutir como lidar com eles. Falta às nossas forças de segurança uma integração dos serviços de inteligência e das polícias, às vezes, dentro de cada uma das instituições policiais. A falta de integração de informações a respeito do crime mata, literalmente.

Terceiro, não se pode deixar a agenda da melhoria da Segurança Pública nas mãos da ideologia barata e sem fundamento. Mortes em comunidades precisam, evidentemente, de debates e cobertura da imprensa. Da mesma forma precisa ser tratada a morte de policiais. Embora a morte de policiais esteja caindo em São Paulo, o Brasil é um dos países que mais mata policiais no mundo e esta precisa ser uma agenda de todos os lados do espectro ideológico. Não é mais possível sermos reféns de disputas ideológicas baratas que apenas favorecem políticos populistas e oportunistas de ocasião. Por fim, a mídia precisa parar de tratar as mortes de policiais de forma meramente protocolar. A morte de um policial com um tiro de fuzil precisa suscitar debates, discussões e manchetes. Não podemos naturalizar a morte de agentes da lei e também a criminalidade ultraviolenta como temos feito hoje. Que a morte do PM Melo nos sirva para mudarmos algo. Já passou da hora de mortes no Brasil nos levarem a fazer diferente do que sempre fazemos.

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