Covid-19: Se ficar… Se correr… Xeque! Não mate.

Covid-19: Se ficar… Se correr… Xeque! Não mate.

REDAÇÃO

29 de maio de 2020 | 17h38

Valdemir  Pires (Economista, Professor do Departamento de Administração Pública da UNESP, Diretor Acadêmico-Científico da Escola de Governo do Município de Araraquara)

 

Dilacerante dilema nacional: retorno às atividades econômicas, com alto risco de elevar a contaminação e as mortes pela Covid-19 ou manutenção do isolamento social, nocauteando a atividade econômica e o emprego?

Antes de tudo, não esquecer que o retorno à “normalidade” pode não oferecer o que dele se espera. A contaminação e as mortes podem chegar a níveis que exijam nova recolhida, o custo se tornando maior do que segurar um pouco mais o isolamento atual, custo tanto em termos de vidas como de PIB. Além disso, o sistema de saúde pode ser despedaçado no seu coração: mortandade do já escasso número de pessoal (médicos e enfermeiros).

É hora do contrário do que tem sido feito e, de certo modo, encorajado: é hora de aumentar a percepção e a assunção de responsabilidades por parte dos três segmentos diretamente envolvidos: governos, consumidores e empresas.

Os governos têm que assumir a liderança num momento como este, em que o comportamento individual, visando à sobrevivência, pode resultar numa catástrofe. Cabe a eles disciplinar tanto a manutenção como a futura saída do isolamento, assegurando meios jurídicos e materiais para que o decidido seja implementado. E, além disso, organizando a oferta do necessário socorro às vítimas. Medidas preventivas (saúde pública) e de atendimentos individuais devem andar juntas, as primeiras visando a redução da pressão sobre a segunda. Nessa busca devem atuar juntos os três níveis da federação. Por que ainda não foi formado um órgão de crise nacional com participação de União, Estados e Municípios, com câmaras setoriais para tratar de saúde (prevenção e atendimento, monitoramento e recomendações), comunicação e mobilização, medidas econômicas, articulação internacional?

Os empresários precisam, por sua vez, fazer um esforço coletivo (individual não é possível) para não terem o fluxo de caixa como motivação exclusiva na decisão sobre obedecer ou boicotar o isolamento, até porque a imensa maioria deles (pequenos) também pode morrer se decidir errado. Será possível que as agremiações e entidades que congregam os empresários não sejam capazes de, após tanto tempo, mortes e prejuízos provocados pela pandemia, urdir propostas razoáveis (econômica e sanitariamente) para enfrentar as dificuldades? Ficarão eles simplesmente se juntando para esbravejar e pressionar para abrir as portas e ligar as máquinas? Onde estão as lideranças empresariais, industriais, comerciais de visão? Por que ainda não se formaram nas cidades comissões tripartites (governos locais, incluindo Executivo e Legislativo + representantes de empresários, trabalhadores/sindicatos e consumidores + especialistas e estudiosos da saúde) para pilotar tanto o isolamento como para planejar e urdir uma saída segura dele?

Quanto aos consumidores, ah, os consumidores! Quando compreenderão que a velha prática de compras como lazer está na raiz do convívio mais perigoso? Elas é que aglomeram. As compras podem ser rápidas (mais planejadas e menos impulsivas) e esporádicas; tudo que puder ser comprado sem ou reduzido contato humano dever ser feito dessa forma. Ou seja, sair de casa para comprar deve ser ato que se limite a isso, envolvendo o menor número possível de pessoas. Essa lógica deve se incorporar ao consumo consciente neste momento (e talvez daqui para a frente). Não seria o caso de PROCONs e assemelhados se envolverem nisso, dando sua contribuição para o enfrentamento da pandemia (cartilhas, campanhas etc.)?

Numa crise sanitária como esta trazida pelo coronavírus, duas vacinas de natureza social saltam aos olhos como fundamentais. São elas: a comunicação pública (governamental e de segmentos organizados da sociedade civil), necessária para gerar informação segura e mobilização eficaz; e a re-conexão Estado-sociedade civil, por meio do diálogo para construção de alternativas para o enfrentamento da pandemia e de seus resultados sobre a economia e a vida quotidiana. Somente elas podem levar governos, empresários e consumidores a se entenderem e agirem positivamente, superando o dilema nacional entre morrer sem socorro hospitalar ou morrer de fome.

No Brasil há “uma pedra no caminho” para que os passos sejam dados na direção de conter a morte em série das pessoas e em câmera lenta de economia. Há que se removê-la com absoluta urgência.

 

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