Covid-19: o apetite e a percepção

Covid-19: o apetite e a percepção

REDAÇÃO

30 de março de 2020 | 15h43

Marcus Vinicius de Azevedo Braga, doutor em Políticas Públicas (UFRJ) e autor de diversos livros na área de controle governamental

 

O presente texto busca, de forma singela, trazer reflexões relacionadas a dois conceitos não tão populares nas discussões de gestão de riscos: o apetite ao risco e o risco percebido, buscando vincular estes a alguns fenômenos que tem sido observado no mundo, na recente crise da Covid-19, ajudando a enriquecer a análise desse fenômeno.

O primeiro conceito, o apetite ao risco, é o quanto uma organização está disposta a aceitar exposição ao risco, no processo de perseguição de seus objetivos, sendo uma questão estratégica, uma declaração do seu posicionamento para um grupo de atores, antecipando decisões, e que está diretamente relacionado a resiliência dessa organização no suporte dos impactos, quando da materialização dos riscos aceitos.
No caso da Covid-19, o conceito se aplica ao evento recente de mudança de um paradigma de atuação do governo inglês, de “mitigação” para o de “supressão”, após a apresentação de um modelo matemático pelo Imperial College de Londres, que indicou que o modelo menos restritivo poderia ocasionar um impacto maior do que o previsto anteriormente, demonstrando que o apetite ao risco tem um caráter de dinamismo, em especial em momentos de grandes crises.

Apesar do traço Top Down dessa ideia de apetite ao risco, esse posicionamento precisa ter um suporte de legitimidade pelos atores da organização e suas redes, dado que estes também pagarão os preços dos impactos da materialização dos riscos, o que demanda um alinhamento pactuado, para que quando os sacrifícios ou omissões cobrarem seus preços, isso seja claro para os envolvidos.
Esse traço Bottom Up do apetite ao risco, além de fonte de coesão, é alimentado pelo risco percebido pelos atores que tem relações com a organização, e o descasamento entre o apetite, estratégico, que sustenta decisões nesse nível, com a percepção do risco oriundo dessas decisões pelo conjunto da organização, é fonte de conflitos, em especial em um momento histórico de globalização, profusão de redes sociais, e de múltiplos emissores e receptores, com lógicas específicas do que é problema e do que é solução.

Um autor que se detém a questão do risco percebido é o inglês John Adams, no seu livro “Risco” (Ed. Senac, 2009), que indica que o risco objetivo é o domínio dos especialistas, dos estatísticos e atuários, e que o risco percebido é o que a população acredita, demonstrando que esses conceitos se misturam e se realimentam, dado que a crença e a imaginação suprem as lacunas de dados, e que os dados são sempre objeto de interpretação, em uma visão de lidar com esses aspectos culturais, ao invés de se caçar o unicórnio do pragmatismo dos atores.

Afinal, o risco é uma abstração que existe apenas na mente humana, pois lida com o futuro, com cenários, abstrações, influenciado e limitado pela nossa mente. O impacto é que é real. O isolamento social imposto pela Covid-19, como uma das estratégias utilizada em diversos países, traz restrições as famílias, e o fato de ser uma ideia abstrata de se reduzir uma curva de contaminação frente as limitações de um dado sistema de saúde, e de não se ver resultados imediatos e perceptíveis, afeta diretamente a percepção de risco e a adesão da população a esta prática.
São fatores que afetam a percepção dos riscos: exemplos de situações similares, narrativas pessoais, imagens fortes e humanizadas, explicações simplistas, técnicas utilizados na publicidade, na imprensa e até na política, e no caso da Covid-19, imagens de caminhões com corpos na cidade de Bergamo, na Itália; a narrativa da morte do médico chinês Li Wenliang, um dos primeiros a identificar a existência do vírus; a imagem do comércio todo fechado em grandes centros do mundo; são exemplos recentes de como a percepção de risco da doença é influenciada por esses fatores, o que se acentua nesse novo mundo de comunicação em profusão.

O “apetite ao risco” e o “risco percebido” são conceitos da gestão de riscos que podem ilustrar a discussão de eventos dessa monta, como uma pandemia, e em tempos de debates nas redes sociais sobre curvas e probabilidades, na qual o mundo se pauta no combate e nos efeitos desse evento, é possível se prever uma valorização bem grande desse tema da gestão de riscos quando tudo isso acabar. Não é uma panaceia, mas tem o potencial de oferecer grandes contribuições ainda para a humanidade.

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