Covid-19 e a minimização dos riscos para os policiais: a Experiência Internacional

Covid-19 e a minimização dos riscos para os policiais: a Experiência Internacional

REDAÇÃO

19 de maio de 2020 | 15h58

Rafael Alcadipani, professor da FGV EAESP e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

 

Recente pesquisa realizada em parceria entre o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e a Fundação Getulio Vargas analisou os efeitos da pandemia nos policiais brasileiros e constatou que menos da metade dos policiais do país recebeu Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para lidar com a pandemia e que um número considerável desses profissionais não recebeu nenhum treinamento para lidar com os desafios impostos pela doença. A pesquisa aponta que em São Paulo houve uma maior distribuição do que a média nacional de EPIs e de treinamento para as polícias. A COVID-19 afetou drasticamente o trabalho policial na maioria dos países do mundo, tanto por fazer com que as policiais tivessem de se adaptar rapidamente para lidar com uma nova realidade, quanto pela contaminação de policiais com o vírus, já que eles estão, como os profissionais da saúde, na linha de frente do combate aa vírus. Estudo recém aceito para publicação no periódico acadêmico Administrative, Theory & Praxis[1] revela que a forma como os policiais lidam com a pandemia é afetada por três dimensões: material, simbólica e política.

No que diz respeito à dimensão material, as polícias enfrentam dificuldades para conseguir os EPIs para seus integrantes na quantidade e no volume necessários. Tal fato aconteceu não apenas no Brasil, mas também em países como Estados Unidos, França e Itália. No que diz respeito à dimensão simbólica, a cultura organizacional das polícias é fundamentada na ideia de que policiais são indivíduos combatentes contra o crime e que, como tal, devem assumir riscos. Por outro lado, para lidar com a pandemia, é necessário o uso de cuidados, como usar máscaras, luvas e álcool em gel. Cuidar de si não é um valor das culturas organizacionais policiais, ou seja, os valores culturais das polícias fragilizam os policiais em um momento de pandemia. Por fim, há uma dimensão política que se agrava quando Presidente e governadores não defendem a mesma estratégia diante da COVID-19. Isso gera dúvidas e incertezas a respeito de como agir para os policiais que estão na ponta da linha.

A questão que fica, então, é como as polícias de outros países lidam com a pandemia? É importante lembrar que no início de abril a polícia de Nova Iorque teve quase 20% de seus policiais afastados do trabalho por conta da COVID-19. Se medidas rápidas não forem tomadas, a situação no Brasil será igual ou até mesmo pior. O primeiro aspecto que várias polícias de outros países têm feito é considerar que o trabalho policial precisa ser diferente durante a pandemia. É preciso que sejam alteradas as práticas de atendimento de ocorrências policiais e a interação entre polícia e o público.

Diversos departamentos de polícia criaram protocolos a respeito de como os policiais devem abordar suspeitos, interrogar testemunhas, transportar presos ou atender ao público. O College of Policing do Reino Unido, e a Interpol têm compartilhado guias e protocolos bastante específicos para o trabalho policial durante a pandemia, que abordam diferentes dimensões do trabalho policial. EPIs, como máscaras, são também, fornecidas a presos para evitar que eles contaminem os policiais. A realização de vídeos curtos mostrando os protocolos da prática tem sido a forma mais empregada para difundir a sua utilização.

Um segundo aspecto importante é a identificação de policiais que possam estar infectados para evitar que eles contaminem outros policiais e as pessoas de sua família. O ideal é a realização de testes rápidos durante um espaço curto de tempo. Porém, como estes testes muitas vezes não estão disponíveis, polícias como a de Nova Iorque checam a temperatura e o nível de oxigênio de todos os policiais que entram nos prédios da instituição. Assim que um caso é localizado, o policial é colocado em isolamento por 14 dias, inclusive, em algumas cidades, em hotéis com a devida assistência para que, caso a doença se agrave, o policial seja atendido prontamente.

Um terceiro conjunto de medidas que várias polícias têm adotado é aumentar o máximo possível o distanciamento social entre os policiais e o público.  Para tanto, elas têm focado a sua força policial apenas no atendimento de urgências e no patrulhamento com protocolos bem específicos a respeito de quando o policial deve realizar uma abordagem.  Além disso, os policiais vão para os seus locais de trabalho somente quando estritamente necessário. E há polícias que criaram forças tarefas de policiais que ficam isolados e prontos para serem empregados quando um colega é afastado pela COVID-19. No caso da Polícia de Nova Iorque, são 600 policiais. Todas as cerimônias presenciais das instituições foram suspensas. Houve a alteração do protocolo de limpeza dos prédios pois a higienização durante a pandemia não é igual ao que era feito antes. Há, ainda, polícias que estão alterando os turnos de trabalho para auxiliar no distanciamento social para que haja menos pessoas nos prédios. Outro ponto em comum é o aumento do apoio psicológico aos policiais, pois a pandemia tem aumentado fortemente o stress. É importante destacar que, durante a crise, as polícias de fora do Brasil que estão melhor respondendo ao desafio são aqueles em que a suas lideranças internas assumiram o papel de protagonismo ao, primeiro, reconhecer a gravidade da doença, seus severos efeitos nas forças policiais e a necessidade de trabalhar de forma diferente diante da COVID-19  e, segundo, dando o exemplo de seguir os protocolos de segurança, comunicando-se frequentemente com os policias indicando qual o caminho a ser seguido.

Muito embora em São Paulo a Polícia Civil tenha migrado o registro dos boletins de ocorrência para online e a Polícia Militar tenha desenvolvido protocolos e vídeos institucionais internos para mostrar para os policiais como atuar no novo cenário, diversas polícias brasileiras ainda estão fazendo pouco. Mesmo em São Paulo, é urgente a adoção de medidas mais extremas para proteger os policiais e o exemplo internacional descrito acima pode inspirar melhorias. No Brasil, houve já manifesto assinado por diferentes entidades da sociedade civil em prol do cuidado com os policiais na pandemia[2]. A pandemia está afetando nossos policiais tanto dentro quando fora do trabalho. Muitos estão ansiosos não apenas com os perigos que aumentaram durante o serviço, mas também com as mudanças do cenário extra policial, como o aumento da convivência em casa, os efeitos econômicos que podem afetar os seus “bicos” e também a saúde de seus entes queridos. A hora de agir é agora para impedirmos que a COVID-19 gere ainda mais dor em nossas forças policiais.

[1] Alcadipani, R; Cabral, S.; Fernandes, A. & Lotta, G. (2020) Street-Level Bureaucrats under COVID-19: Police officers’ responses in constrained settings. Administrative Theory & Praxis (no prelo)

[2] https://fontesegura.org.br/fotos/arquivos/x3qo6ayxnttjrinzesoet5rroithkd.pdf

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