Covid-19: a terceira onda

Covid-19: a terceira onda

REDAÇÃO

09 de novembro de 2020 | 12h55

Carlos Lula , é presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e secretário de Estado da Saúde do Maranhão

 

O maior desafio da pandemia da nossa história recente está por vir. Nos encontramos numa fase na qual os profissionais de saúde aprenderam a lidar melhor com os pacientes acometidos pela Covid-19, a ciência avança nas pesquisas sobre uma vacina, o comportamento desacelerado do ritmo de contágio no Brasil e a segunda onda na Europa estão sendo observados. Contudo, diante de nós, cresce sorrateiramente a pandemia de transtornos mentais.

As notícias chegam com tristeza até nós. Com diferenças de poucos dias, dois homens recorreram ao suicídio em bairros diferentes da capital maranhense. Duas semanas antes, um pastor com histórico de esquizofrenia, em tratamento, recorreu ao mesmo sacrifício na cidade de Indaiatuba, no interior de São Paulo, após lutar contra a doença.

Na Alemanha, em julho, o ministro de Estado das Finanças, Thomas Schaefer, cometeu suicídio após profunda preocupação sobre as consequências econômicas do novo coronavírus. Ao receber diagnóstico positivo para Covid-19, pacientes no Brasil e no mundo atentaram contra a própria vida, na ânsia de findar com o sofrimento.

Segundo o Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro, houve um aumento de 700% de procura a psicólogos, entre abril e agosto. Isso aconteceu em todo o país. Nossos serviços de saúde mental nunca tiveram tamanha procura, mas isso era esperado. Costumo dizer que na vida temos dois grandes medos: a morte e a loucura. A Covid-19 nos deixou próximos de ambos. Medos agravados pelas inúmeras incertezas que o vírus proporciona.

Este mesmo vírus provocou um alucinado medo de perder a vida e a percepção de que, dia após dia, você perde a sanidade com preocupação sobre emprego, futuro, família. Encarar esses dois medos ao mesmo tempo traria um inevitável desequilíbrio ao nosso espírito. A preocupação é imensa quando pensamos em nós ou mesmo quando pensamos naqueles que amamos.

E em tempos de isolamento, ao termos de encarar a nós mesmos e aos nossos, nunca recusamos tanto o que somos. O número de casamentos em crise e de divórcios também aumentou bastante na pandemia. Na sociedade atual, há duas grandes contradições que habitam nossos corações. Se a pós-modernidade nos prometeu independência, liberdade, nosso maior desejo é ser livre. Mas esse desejo de ser livre é dividido com a vontade de pertencer a alguém.

Adultos costumam procurar terapia por não saberem lidar com a graça – e o terror – de estar apaixonado. É como se quisessem ser um pouco livres e um pouco comprometidos. Aí você se vê obrigado a conviver por muito tempo com seu parceiro e então se questiona: o que eu faço aqui se posso estar além? Se posso mais? Essa é a primeira grande contradição.

A segunda é o fato de que o amor atualmente é visto como uma forma de salvação. Se falham a religião, as ideologias, a sociedade, restam o trabalho e o amor para dar sentido às nossas vidas. Aí sobrecarregamos todas as expectativas da existência em um relacionamento. Isto é grave porque passamos a exigir da pessoa amada simplesmente tudo.

Parece que não amamos mais pessoas, com seus erros e pecados, mas ideias de pessoas. E não toleramos que a realidade não esteja a nível dos nossos delírios e desejos. Se eu continuamente sou confrontado, na convivência com a pessoa que idealizei, há uma enorme chance de a frustração ser tremenda, uma vez que a expectativa era muito alta. Perceber o outro como de carne e osso e passível de erros trata-se de um esforço constante.

Há saídas? Bem, não sei dizer. Eu acredito no amor, e aqui vai a minha dica para os mais jovens: não casem achando que conviver é algo simples. Não é. Que o diga minha esposa e meus filhos. A rotina pode ser a fortaleza como também a fraqueza de um relacionamento.

Mas entre casamentos arruinados, ansiedade e depressão aumentando assustadoramente, o Sistema Único de Saúde precisa desde já discutir os impactos da pandemia da Covid-19 na saúde mental dos brasileiros. Antes do colapso, antes de tragédias em larga escala, precisamos de estratégias de prevenção do suicídio.

O suicídio é o sacrifício cometido pelo ser humano quando este já não suporta o sofrimento mental, por isso, como bem disse o médico sanitarista Gonzalo Vecina, “o importante não é curar, mas cuidar”. Precisamos dar ouvido uns aos outros, escutar mais e sermos escutados por profissionais de saúde e por nossos pares – cônjuges, pais, filhos, amigos. Que consigamos falar sobre o que sentimos para aqueles com que dividimos a vida e ouvir deles também o que pensam e o que sentem sobre nós. O silêncio pode matar.

 

 

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