COP 26 – haja caneta para tantas assinaturas

COP 26 – haja caneta para tantas assinaturas

REDAÇÃO

18 de novembro de 2021 | 11h16

Emiliano Lobo de Godoi, Professor da Universidade Federal de Goiás

No último dia 13 de novembro, encerrou-se a 26ª Conferência das Partes sobre Mudança Climática – COP 26, com quase 200 países assinando mais um acordo para tentar limitar o aquecimento global a 1,5° C. No ano que vem, na COP 27 a ser realizada no Egito, novos compromissos devem ser assinados para a redução de emissão de gases de efeito estufa.

Desde abril de 1995, quando se realizou a primeira Conferência do Clima em Berlim, ficou estabelecido que todos os países deveriam tomar ações mais enérgicas para diminuir a emissão de gases de efeito estufa. Em outras palavras, faz 26 anos que acordos com esses propósitos são assinados e, em nosso mundo real, a situação só piora.

Isso nos remete ao nosso memorável Mané Garrincha. Reza a lenda que na Copa do Mundo de 1958, na Suécia, o técnico Vicente Feola, explicou na prancheta a tática para derrotar a seleção da antiga União Soviética: Nilton Santos lançaria a bola da esquerda do meio de campo para a direita do ataque nos pés de Garrincha, que driblaria três adversários e cruzaria para Mazola cabecear na grande área e fazer o gol. Com ingenuidade, Mané Garrincha perguntou: “Seu Feola, o senhor já combinou isso com os russos?”.

Inspirados em Mané Garrincha, devemos perguntar: a redução na emissão de gases de efeito estufa já foi combinada com os países e indústrias cujas economias são baseadas em combustíveis fósseis? O consumo de carvão será eliminado ou apenas reduzido? O desmatamento será controlado? Haverá incentivos para o fomento para energias renováveis? Os países mais ricos irão apoiar financeiramente e tecnologicamente os países mais vulneráveis para enfrentarem as mudanças climáticas, conforme prometido em Paris em 2015?

O fato é que os 151 novos compromissos climáticos nacionais apresentados antes e durante a COP 26 não conseguem colocar o mundo no caminho certo para limitar o aquecimento a 1,5° C. Os negociadores concordaram em fortalecer ainda mais as metas para 2030, intensificar o apoio financeiro aos países em desenvolvimento e finalizar as regras para implementar o Acordo de Paris. Mas como fazer isso, ainda não se sabe. Serão necessárias mais conferências.

Um dos acordos firmados defende a necessidade de “acelerar” a transição energética para fontes limpas. Utilizar o termo “fontes limpas” no lugar de “fontes renováveis” esconde um bom truque. Fontes renováveis são obtidas de recursos naturais que nunca se esgotam, uma vez que são repostos pela própria natureza. Já “fontes limpas” podem incluir até mesmo o uso do carvão para a geração de energia, desde que seja utilizado de “maneira limpa”. A questão é saber quem define o que é utilizar de “maneira limpa”.

Além disso, falar em “acelerar” essa transição após 26 anos da realização da COP 1, quando essa questão já era urgente, parece uma certa ironia. Se tirássemos o freio de mão dessa transição já seria um grande avanço.

O tempo da degradação é diferente do tempo das conferências. As mudanças climáticas já causam perdas de vidas, de terras e de meios de subsistência nos dias de hoje. Não são mais preocupações do futuro. Tempestades tropicais, inundações, ondas de calor, seca, tornados são cada vez mais frequentes e com graves consequências para populações humanas e ecossistemas naturais.

Já passou da hora de, ao invés de gastar tinta assinando acordos, assinarem planos de ação. Ao invés de assinarem protocolos, assinarem a liberação de recursos. Ao invés de assinarem declarações, assinarem a transferência de tecnologias. Precisamos fazer com que os discursos feitos nas aberturas das conferências sejam compatíveis com os resultados finais alcançados. Quantos anos e quantas COP´s serão necessárias para isso ficar evidente?

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.