Configurações atuais de protestos urbanos: entre o consumo e a política

Configurações atuais de protestos urbanos: entre o consumo e a política

REDAÇÃO

07 de agosto de 2015 | 11h53

Isleide Arruda Fontenelle, Psicóloga com doutorado em Sociologia pela Universidade de São Paulo e Pós-doutorado em Psicologia Social pela PUC-SP. É professora Titular do Departamento de Fundamentos Sociais e Jurídicos da Administração da Fundação Getúlio Vargas – SP.

Em 2003, foi lançado originalmente o livro Millenium People, do escritor britânico J.G. Ballard. No Brasil, o romance foi publicado em 2005 com o título “Terroristas do Milênio”. A tradução brasileira quis ir direto ao ponto: o livro narra a história de uma rebelião de classe média, modesta e bem-comportada, que só passou a ser realmente percebida e ganhar impulso quando eventos terroristas, aparentemente não relacionados ao motim de luxo, começaram a ocorrer.  Com isso, o estopim do conflito – o aumento da taxa de condomínio – passa a se desdobrar em uma série infinita de queixas e reivindicações, dando início a um processo de desmanche desse mundo classe-média através de uma sanha incendiária de tudo o que constituía seu estilo de vida: carros de luxo, brinquedos educativos, sofás, quadros, assim como, agências de viagens, cinemas, galerias e museus.

Ballard quis fazer uma sátira da classe média e de sua rebelião movida pelo tédio. Quis também fazer uma crítica a um modo de vida totalmente mercantilizado, incluindo a cidade marcada por especulações imobiliárias e por uma vida cultural presa pela ilusão do entretenimento. Mas, de tantos aspectos interessantes do livro, o que gostaria de destacar é a maneira como o autor vai mostrando os caminhos e descaminhos de um movimento de protestos que, no seu desenrolar, vai perdendo suas características originais, vai saindo do controle dos seus idealizadores, vai ganhando novas formas, algumas das quais, inclusive, opostas àquelas que o originou.

No mundo real, um claro exemplo disso foram as manifestações brasileiras ocorridas em junho de 2013. Conforme já amplamente discutido pela mídia e por acadêmicos, as chamadas “jornadas de junho” podem ser divididas em dois momentos precisos: o primeiro, que teve como ponto de partida a reivindicação da revogação do aumento da tarifa de ônibus, comandado pelo Movimento Passe Livre (MPL); e o segundo, quando transformarem-se em protestos de massa e milhares foram às ruas das cidades brasileiras, com uma pauta ampla e difusa de reclamações. Nesse segundo momento, surgiram slogans publicitários que, a partir de então, tornaram-se as marcas registradas do movimento: o “vem prá rua”, um slogan de uma marca de automóveis; e “o gigante não está mais adormecido”, slogan de uma marca de uísque.

“Vem prá rua” acabou se tornando o chamado “oficial” dos manifestantes nas redes sociais, assim como o grito de guerra durante os protestos de rua. Insurgindo-se, em especial, contra a maneira violenta como a polícia reagiu às primeiras manifestações, a população foi para a rua, assumindo que a rua era um espaço público e que, portanto, era o público quem deveria definir a agenda sobre o que celebrar ou reivindicar nesse espaço. “O gigante acordou” subverteu o sentido do anúncio, que apontava como o Brasil havia finalmente despertado como potência econômica. Os manifestantes indicavam que os brasileiros haviam acordado para a luta, a fim de questionarem aquela imagem fácil de progresso econômico e apontar o que não era possível celebrar.

A primeira interpretação a que o uso dos slogans poderia remeter era de serem essas marcas alvo dos protestos. E não deixa de ser uma ironia os protestos se apropriarem de uma marca de automóveis para fazer uma chamada às ruas, justamente contrapondo o cidadão ao consumidor de carros. Mas o que se viu, na sequencia, não foi um movimento contra carros, bebidas, marcas ou corporações. Não se estava questionando se e até que ponto o mercado poderia ser responsabilizado pela privatização do espaço ou pela mercantilização de serviços públicos como transporte, educação, saúde. A motivação principal também não foi questionar a publicidade como força dominante de nossa época. As marcas e seus slogans serviram apenas de inspiração, com o sentido invertido, por aquilo que veicularam em seus anúncios.

Esses slogans foram tomados de empréstimo no processo de construção do movimento de crítica a um estado de coisas que, em certa ordem temporal, se deu com a reivindicação do direito de protestar e de assumir o espaço público, a crítica à truculência da polícia, à falta de atendimento aos serviços públicos e à corrupção estatal. Assim, o grande alvo foi o governo, desde a reivindicação inicial, de revogação do aumento da tarifa de ônibus, até as manifestações em massa, nas quais se sobressaiu uma pauta estendida de protestos e reivindicações. Tal perfil de críticas e reivindicações também compõe grande parte das interpretações acadêmicas sobre as manifestações de junho, mesmo se observadas de diferentes espectros ideológicos. Destacam-se a questão urbana e a afirmação do direito à cidade; a má qualidade dos serviços públicos; e a desilusão com a democracia representativa. Mas essa desilusão pode ganhar formas completamente diferentes. Por um lado, pode se reduzir a uma “política do consumo”, no sentido definido pelo sociólogo alemão Wolfgang Streeck; por outro, pode apontar para novas aberturas democráticas, novas formas de fazer política que resgatem a ideia de cidadania em sentido pleno, já que a democracia, de fato, não se reduz às suas instituições políticas – mas também não pode se reduzir ao mercado. A essa nova forma Streeck sugere o termo “política do Político”. Discutiremos os dois termos, abaixo.

Segundo Wolfgang Streeck, em artigo publicado originalmente na New Left Review e, em 2013, na Revista Piauí, há em curso uma política do consumo, resultante das transformações nos padrões de consumo que ocorreram em função da reestruturação produtiva, a partir da década de 1970. Com os novos desenvolvimentos tecnológicos daí oriundos, o mercado pôde oferecer produtos e serviços cada vez mais diferenciados e tal diferenciação acabou estimulando o desejo crescente por mais diferenciação que atendesse as preferências de cada consumidor. O autor argumenta que isso gerou um tipo novo de socialização, no qual as pessoas passaram a ver no consumo o caminho mais viável para se distanciar de certos grupos sociais e se identificar com outros, numa lógica também já definida como “camarotização da sociedade”. Isso faz com que o serviço público, oferecido pelo Estado, seja visto como algo de categoria inferior. Exemplos? De direito de cidadania, a escola e o hospital passaram a ser vistos como luxo que quem pode, paga. É a partir dessa perspectiva que o autor propõe que o termo “política do consumo” signifique um novo tipo de política baseada no mercado, na qual a negociação coletiva, que envolve o uso da esfera pública, passa a ser substituída pela relação mercadológica, baseada no que o dinheiro pode comprar. Ainda segundo Streeck, essa é uma das causas da crise da democracia representativa, pois leva a um contínuo descrédito da esfera pública, favorecendo, também, uma perspectiva social positiva para os processos de privatização. Pode-se acrescentar que isso também alimenta manifestações cada vez mais voltadas a tomar o governo como o principal alvo de críticas, na medida em que ele é visto como desnecessário para aqueles que já circulam na lógica privada da economia.

É possível afirmar que esse tipo de política do consumo ganhou predominância em certo momento das manifestações brasileiras, de junho de 2013, dando um novo sentido aos acontecimentos.  A partir de um determinado ponto – e na maneira como começaram a ser narrados midiaticamente – os protestos foram se metamorfoseando em um movimento que parecia típico dos consumidores entediados de classe média do livro de J.G.Ballard. O uso dos slogans publicitários já indicava um imaginário formatado pela lógica do consumo. Mas, em sua ficção, Ballard também viu, nos caminhos e descaminhos da rebelião do condomínio de classe média, um anteprojeto para os protestos sociais futuros, que envolveriam desde levantes insensatos e revoluções condenadas a novas formas de fazer política.

Novas formas de fazer política foi o caminho que apontei, acima, como outra resposta possível à desilusão social com a democracia representativa. No contexto desses novos movimentos de protestos que emergiram no início desse novo século e milênio, o que ocorreu em Barcelona pode ser um exemplo ilustrativo disso. A “Plataforma dos Afetados pela Hipoteca” (PAH), organização fundada em 2009 por ativistas contra os despejos de mutuários inadimplentes, poderia ser considerada uma organização que age de acordo com uma política do consumo, na medida em que o imóvel tornou-se uma mercadoria valiosa e um dos principais “sonhos de consumo” contemporâneos. Mas o movimento considera que faz uma reivindicação de cidadania e não de consumo: o acesso à moradia. Esse poderia ser um mero jogo de palavras não fosse o fato de que, recentemente, Ada Colau, ativista e porta-voz do movimento, venceu as eleições municipais em Barcelona através do uso de um novo formato de política que alterou o modelo tradicional de partidos políticos e propôs candidatos via assembleia aberta. O forte da plataforma política da candidata era, justamente, a desprivatização de serviços tais como o uso da moradia, da água e do transporte. Em outras palavras, a ideia é tirar esses serviços da esfera da mercadoria e resgatá-los para a esfera pública da cidadania. Trata-se do que Streeck chamou de “política do Político”.

Os recentes protestos urbanos – brasileiros, espanhóis, assim como vários outros que têm emergido nesta primeira década do século XXI -, apontam para a questão central dos novos rumos do rumos do fazer político. Apontam, também, para a incerteza do ponto de chegada desses movimentos que têm a capacidade de se metamorfosearem no curso dos acontecimentos, indicando, como na ficção de Ballard, que no espaço vazio que a desilusão com o mundo existente acarreta, nem tudo que se propõe a preenchê-lo é promissor.

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