Comunicação humana e humanos sem comunicação

Comunicação humana e humanos sem comunicação

REDAÇÃO

03 de junho de 2021 | 07h19

Guadalupe Marcondes de Moura, Fonoaudióloga, Mestre em Ciências da Reabilitação: Comunicação Humana, pela Faculdade de Medicina da USP. Doutora em Educação Especial (ênfase na pessoa surda) pela Faculdade de Educação da USP. Docente e Coordenadora da disciplina de Audiologia Educacional da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Coordenadora do Laboratório de Estudos Fonoaudiológicos em Atipias da Língua de Sinais – LEFALS

A linguagem – faculdade mental que possuímos e que nos possibilita a comunicação – nos distingue como seres humanos pela variedade complexa de possibilidades para expressarmos o que sentimos e pensamos e, até mesmo, para comunicarmos a confusão de sentimentos e ideias tão comuns à nossa espécie. Podemos ter um acesso verborrágico, não dizer uma única palavra, sinalizar em uma língua de modalidade visuoespacial (como a Língua Brasileira de Sinais), sustentar um olhar, abaixar a cabeça para evitar um olhar, registrar uma foto ou criar um meme, dançar, produzir um texto, cantar… Tudo isso, e muito mais, são formas de nos comunicarmos.

Os seres humanos se distinguem pela variedade nas formas de comunicação e também por seu conteúdo. Podemos falar ou sinalizar gentilezas, usar palavras ríspidas, de baixo calão, podemos manipular, mentir, fazer sorrir, chorar, acalmar, estarrecer, enojar, amparar, salvar, julgar, expressar amor ou sugar a esperança em uma única frase, fazendo com que o mundo se encha de luz ou de horror. A comunicação humana (não violenta ou violenta) é capaz de tudo isso.

Apesar de possuirmos o potencial para usarmos esta habilidade incrível da melhor forma, somos marcados pelos desentendimentos. Nos últimos anos e, em especial, em tempos de pandemia as dificuldades na comunicação se acirraram. Provavelmente já aconteceu com você, que atônita, atônito, atônite por algum acontecimento, se viu perguntando: “Mas, o que está acontecendo com as pessoas?”. Quase sempre a pergunta permanece em suspenso, com um monte de gente confusa e inconformada. Criam-se suposições simplistas ou mirabolantes. Os especialistas, que observam e estudam o fenômeno, se esforçam para responder seguindo critérios científicos. Há os pseudoespecialistas, que sempre sabem, exatamente, o que está acontecendo, baseados nas últimas “notícias” do grupo do Whatsapp. À luz da religião alguns também tentam explicar por que as pessoas têm tanta dificuldade de dizer ou fazer às outras o que gostariam que fosse dito ou feito a si mesmas.

Já que a maioria de nós aprecia ser tratada com respeito, franqueza e acolhimento parece incrível que uma comunicação respeitosa, franca e inclusiva esteja tão difícil de ser estabelecida, inclusive, ou principalmente a depender do caso, entre pessoas que convivem umas com as outras. No decurso da pandemia, não apenas os desentendimentos de cunho político-partidário aumentaram. O número de separações cresceu em quase todo o mundo, estamos diante de casos constantes de feminicídios, violência doméstica e sexual que também pioraram com o isolamento, entre outras violências que estão sempre vinculadas à falta de comunicação ou a uma dinâmica comunicativa doente. É como se nossa capacidade mental de linguagem estivesse sofrendo um bloqueio e a comunicação fluida, conciliadora, que faz vicejar boas ideias e possibilita atitudes elevadas não pudesse se estabelecer por nenhum canal. É como se a escalada da intolerância nos últimos tempos tivesse piorado um quadro crônico e arrancado de nós uma habilidade considerada inata por alguns teóricos da linguagem.

Recentemente, a Língua Brasileira de Sinais – Libras (que é uma língua com gramática própria e independente da língua oral) foi tema de discussões, suposições e, certamente, achismos, quando perceberam que, como um idioma, poderia comunicar “o ódio”, traduzido por intérpretes que nada mais fizeram do que seu trabalho de traduzir exatamente o que foi dito (mesmo que o conteúdo seja antiético a ética exige que assim o façam). A Libras, assim como qualquer língua, pode, evidentemente, ser o veículo para que seres humanos comuniquem o que sentem e pensam de bom e de ruim. O tema da discussão foi a Libras no contexto do discurso presidencial, mas há outros muito importantes para a comunidade surda brasileira que demanda visibilidade em relação à falta de uma política linguística e à falta de acessibilidade pela não observância, por exemplo, do que dispõe a Lei Federal nº 10.436/02 e o Decreto nº 5.626/05 que reconhecem o direito da pessoa surda sinalizadora de se comunicar e receber informações em Libras.

A discussão que também gostaríamos de ver em pauta tem relação com a diversidade na surdez: há surdos oralizados; surdos que se comunicam escrevendo português; surdos que são bilíngues; surdos que, infelizmente, não têm língua alguma, entre outras tantas realidades – e todos seguem sem a acessibilidade a que deveriam ter direito para exercerem a plena comunicação. Muitas destas pessoas estão alijadas das discussões políticas sobre saúde. Se há confusão entre pessoas ouvintes que, em teoria, têm mais acesso às orientações sobre a pandemia, por exemplo, imagine entre os brasileiros que não ouvem, não leem e/ou não recebem as informações por meio da língua de sinais do seu país (caso sejam sinalizadores).

Deparamos-nos, então, com um aspecto primordial na questão da comunicação que é o direito a mesma. Estamos discutindo sobre a forma e o conteúdo, se estamos bloqueados para exercitarmos uma comunicação efetiva, respeitosa, tolerante. Se nos inflamamos sobre um ou mais assuntos sem aplicarmos a lógica, se estamos zangados ou confusos demais para aceitarmos as opiniões dos outros. Mas, para além de tudo isto, estamos também diante da acachapante realidade de que, por falta de base linguística, há pessoas sem acesso ao conhecimento produzido pela humanidade, sem acesso às orientações em saúde diante da maior crise sanitária do século. Pessoas que não têm acesso, sequer, ao tema tratado aqui, sobre um assunto que lhes diz respeito diretamente.

Do ponto de vista da comunicação humana temos muito que fazer. Precisamos nos conectar a nós mesmos (melhorar a conversa interna, às vezes, tão violenta), nos reconectarmos às outras pessoas ou aprendermos a estabelecer um diálogo coletivo sadio. Também precisamos reaprender a nos comunicarmos com o planeta (que sofre por toda a falta de diálogo amoroso interno e externo dos seres humanos). Precisamos “resgatar” nossa saúde e capacidade mentais para a linguagem colocando-as a serviço das relações humanas e com os outros seres vivos que também dispõem desta habilidade – cada um à sua maneira. Precisamos buscar um estado de equilíbrio comunicativo que nos una, que nos permita empatizar, que nos fortaleça ao invés de nos dividir.

Hesitei em finalizar este artigo falando do amor – algo que poderia soar, inadvertidamente, como um clichê, um desejo de que o essencial seja simples. Acredito, contudo, que só o amor pode restituir nossa capacidade de nos comunicarmos efetivamente. Em tempos de ódio, quer seja em língua oral ou em língua de sinais, a vacina que pode curar o mal do desentendimento humano é o amor por nós mesmos, pelos outros e pelo mundo.

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