Competitividade internacional das empresas brasileiras:  olhando a outra metade do copo

Competitividade internacional das empresas brasileiras: olhando a outra metade do copo

REDAÇÃO

13 Abril 2015 | 12h20

Autora: Maria Tereza Leme Fleury

No inicio de março, a capa da revista The Economist (“Brazil’s quagmire”) com a imagem da passista da escola de samba afundando num pântano contrastou fortemente com aquela famosa de 2009, do Cristo Redentor disparando como um foguete, quando o otimismo com o país estava no auge. Não é uma mudança fácil de digerir, mas as análises do periódico inglês são bastante acuradas.

Em um dos artigos desta revista, “Brazil´s business Belindia”, questiona-se por que o Brasil produz tão menos empresas de classe mundial do que poderia. É citado o estudo feito por um grupo de economistas da London School of Economics sobre as práticas de gestão empresarial no mundo todo, que produz um ranking no qual a média das empresas brasileiras é de 2.7, semelhante à situação da China, mas atrás do Chile. A The Economist ainda comenta que as melhores empresas brasileiras têm scores tão bons quanto o das empresas americanas, que apresentam os melhores resultados mundiais, mas o tamanho das empresas mal geridas do Brasil é grande.

Os nossos estudos revelam  que a inserção em cadeias globais de valor e a exposição à competitividade internacional podem contribuir muito para melhorar a gestão e desempenho das empresas de um país, fazendo-as a sair da zona de conforto.

No Brasil, entretanto, não apenas as empresas locais nacionais, mas também as subsidiárias de empresas multinacionais produzem para o mercado doméstico e se expõem menos a esta competição internacional.

As empresas multinacionais geram empregos e contribuição significativa ao PIB brasileiro, mas exportam muito menos do que em outros países. Gustavo Franco, num artigo publicado em 2014, mostrou que estas empresas multinacionais exportam em torno de 17% do seu faturamento, superior ao das empresas brasileiras meramente locais, que exportam 10,5%. O melhor desempenho das multinacionais ocorre, porém, a taxas muito inferiores às filiais de outros lugares do mundo, cuja propensão a exportar deve ser superior a 45%, segundo dados da OCDE.

Por que isto ocorre? As explicações ligadas ao custo Brasil são importantes, mas é preciso ir além delas. Um fator fundamental é que a motivação principal das multinacionais é o mercado interno, e estas empresas não fazem uma interligação de suas operações em território brasileiro com as cadeias internacionais de valor.

Mas o nosso copo não está completamente vazio. Desde meados da década de 1990, um número crescente de empresas tem se dedicado a operações internacionais, no inicio com exportações e depois estabelecendo operações em outros países. Um caminho clássico, explorado pelas multinacionais brasileiras, foi iniciar com operações nos países vizinhos, impulsionadas pelos acordos do Mercosul e depois se expandindo para os Estados Unidos, Europa, Ásia e o continente africano. Se no início se contava o seu número com os dedos das mãos, hoje são mais de 300 empresas – o que é um grande avanço. Estas empresas se expõem de forma mais significativa aos parâmetros da competição internacional, nas suas práticas de gestão, modelos de negócio e inserção nas cadeias globais de valor.

Duas empresas bem conhecidas exemplificam esta trajetória: Embraer e WEG. A Embraer tem no seu portfolio de produtos aviões comerciais, jatos executivos e para defesa. Emprega cerca de 19 000 pessoas e tem operações em nove países: Estados Unidos, França, Portugal, China, Reino Unido, Irlanda, Singapura e Emirados Árabes. A WEG tornou-se a principal produtora mundial de motores elétricos e emprega 28 000 pessoas, com presença em 9 países: Argentina, México, EUA, Índia, África do Sul, Portugal, Áustria, Alemanha e China.

As duas empresas começaram como exportadoras e na década de 1990 se inseriram mais fortemente em cadeias globais. A Embraer criando o seu modelo de negócios com parceiros internacionais e a Weg como uma fornecedora de baixo custo. Ao longo da última década não só se consolidaram no cenário internacional, mas ascenderam nas cadeias com escala global.

Repensar o modelo de competitividade das empresas brasileiras implica não apenas pensar nos fatores macroeconômicos e externos às unidades empresariais. É também necessário olhar para o jogo interno das empresas, que devem mudar seu posicionamento estratégico para competir globalmente. O copo não esta vazio, mas precisamos enchê-lo rapidamente, pois a competição, entre países e empresas, só tende a aumentar.

 

MARIA TEREZA LEME FLEURY – Socióloga e Professora Titular da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (Eaesp) da FGVSP e da FEA/USP.