Como será a tentativa de golpe?

Como será a tentativa de golpe?

REDAÇÃO

29 de julho de 2022 | 18h03

José Antonio G. de Pinho, Professor Titular Aposentado – Escola de Administração – UFBA, Pesquisador FGV-EAESP

A palavra golpe assumiu uma visibilidade ímpar nas últimas semanas na cena brasileira. Também não é para menos. O Presidente Bolsonaro a invoca praticamente desde que assumiu. Na verdade, desde antes, pois ao se definir como um candidato antissistema, indicava que não iria governar dentro dos parâmetros legais da Constituição Federal.

A chegada de Bolsonaro à presidência com a vitória nas eleições de outubro de 2018 acabou sendo uma grande surpresa. Em sua vida parlamentar sempre pontificou pela baixa performance, sem qualquer destaque, localizando-se nas gavetas mais baixas do chamado baixo clero. Na verdade, nem nesse segmento conseguiu se alojar, fazendo sempre uma carreira solo, focando em seus interesses pessoais e de suas famílias, além de interesses paroquiais dos segmentos que o elegiam, membros das Forças Armadas e Polícias do Estado do Rio. Apenas na sua última postulação à Câmara Federal, nas eleições de 2014, é que conseguiu ter uma votação expressiva (cerca de 400 mil votos), após passar a se exibir em programas de auditório com certo caráter apelativo. Quando decidiu concorrer à Presidência da Câmara por duas oportunidades, teve votações pífias, revelando que não gerava nenhuma confiança em seus pares.

No período 2014/18 começou a ser mordido pela mosca azul do poder aspirando ambições maiores, a Presidência. Confirmado seu nome como candidato do PSL, não menos obscuro partido, as primeiras pesquisas eleitorais o situavam em 2° lugar no platô de 20% dos votos; esse era o tamanho do candidato. Até então ainda havia a indefinição do candidato do PT. Com a decisão da Justiça pela inelegibilidade de Lula e sua prisão, assume a candidatura Fernando Haddad. É quando, então, acontece o imponderável e Bolsonaro torna-se vítima de uma facada, há um mês do pleito. Nas semanas seguintes começou a subir de 2% a 5% nas pesquisas e na primeira semana de outubro (a eleição foi em 07/10) deu um salto se distanciando na liderança. Volto a reiterar que esses 20% constituem seu eleitorado raiz. Interessante notar que a imprensa, até antes da facada e pelo seu desempenho nas pesquisas de opinião, mal o considerava capaz de se sair vitorioso.  A engorda se deu através da pregação do antipetismo, feita ao longo da campanha e mesmo antes. Com a exploração da vitimização e a recusa a participar dos debates nas TVs se isola e se elege. 

Longe de querer fazer uma análise e avaliação de seu governo, anota-se que o balanço desse tempo é o pior possível, com um rastro de destruição em várias ou todas as áreas do seu governo. De forma simplificada, pode-se dizer que a pandemia do COVID 19 salvou Bolsonaro do impeachment. Mas, para isso, contou com salvaguardas institucionais, com pessoas certas na Procuradoria-Geral do Presidente, onde a dupla Aras-Lindôra segue aquela tática de jogos de futebol, quando a defesa faz um rodízio para bater no atacante perigoso. Quando Aras está muito na vitrine, é chamada a vice, Lindôra, para fazer o trabalho e, assim, diluir o papel de Aras. Também tem se valido Bolsonaro dos préstimos do Presidente da Câmara, Arthur Lira, sentado em uma pilha de pedidos de impeachment, o que ficou descaradamente claro no lançamento da candidatura Bolsonaro/Braga Neto, quando o líder do Centrão literalmente vestiu a camisa do candidato, jogando Montesquieu no lixo. 

Vamos nos deter, agora, no pedigree do candidato, destacando o seu viés golpista e antidemocrático. Na sua curta e tumultuada vida de caserna, chegou a desafiar patentes mais altas e tentou conspirar contra os próprios colegas de farda. Mas, então, qual seria o modelo de golpe que se ajusta ao figurino bolsonarista, no contexto presente? Podemos descartar um general Olympio Mourão, que desafiou a hierarquia e apressou o 31/ março. Não deve haver nenhum fardado para passar à frente de Bolsonaro. No modelo do atentado ao Rio Centro, em 30 de abril de 1981, quando as proto viúvas do General Sylvio Frota, do General Newton Cruz e do torturador Brilhante Ustra e outros tentavam frear a marcha da redemocratização, o capitão presidente pôde buscar inspiração. O objetivo da explosão das bombas seria causar caos, desespero, uma mortandade de pessoas e responsabilizar a esquerda para justificar a continuidade do regime, àquela altura já um tanto distensionada.

O Rio Centro de hoje seria o TSE, STF e as urnas eletrônicas, mas isso pressupõe que os ataques aconteceriam por ocasião da eleição, 02 de outubro próximo, sendo os riscos de Bolsonaro de duas espécies: o candidato Lula vencer já no 1° turno ou ele próprio não chegar ao 2° turno. Essa especulação pode parecer distante de ocorrer, mas as baixas expectativas com os aportes bilionários, alguns secretos, e a recente e robusta reação da sociedade brasileira, com a Carta Pró Democracia, pode ocasionar um abalo sísmico na somatória dos votos bolsonaristas. O modus operandi seria através da contestação dos resultados, senão por ataques físicos e/ou digitais às seções eleitorais criando um caos, medo de ir votar e insegurança na população em geral. No entanto, a sociedade brasileira parece mostrar-se vacinada contra os impulsos golpistas de Messias Bolsonaro.

Face a esse risco, caberia a Bolsonaro e aos que o circundam antecipar o cronograma do golpe, para o próximo dia 07 de setembro. Com o Presidente em Brasília, tropas desfilando, militantes e milicianos nas ruas com posse das armas liberadas por atos do Presidente e sem controle do Exército, seria um caldo perfeito para o golpe. O Rio Centro no caso seriam o STF, o TSE e mesmo o Congresso. O rumo sendo esse, exclui-se também a alternativa “Capitólio”, ou seja, deixar para depois de consumada uma suposta derrota no momento da ratificação do resultado pelo TSE.

Ainda merece ser comentado o histórico recente de formação de autocracias dispensarem atos embalados em violência, adotando o caminho de corroer as instituições democráticas por dentro. Vale dizer que o governo do ex-capitão já cumpriu essa agenda, indo até demasiadamente longe, levando-nos a uma situação de destruição estrutural. Aqui cabe adicionar um aspecto do perfil de Jair Bolsonaro facilmente perceptível em sua trajetória, o de gostar de se mostrar, exibir, “causar”. Para um “mito”, deve haver um evento grandiloquente, digno de uma sociedade do espetáculo, sendo o Sete de Setembro a data escolhida, com uma grande plateia. Esse contexto se encaixa como uma luva, tendo já Bolsonaro, com ares proféticos, chamado o povo a participar, pois seria o último ato da sua “emancipação”. 

Mas essa data escolhida também vai gerar efeitos contrários aos planos do aprendiz de ditador. Novamente, parece difícil essas forças retrógradas alcançarem êxito, ainda mais estando a Nação, suas instituições, a sociedade em geral, direcionada para os movimentos das tropas bolsonaristas. A depender da ousadia do ex-capitão e da equivalência da resposta, o candidato pode perder seu registro e realizar sua última motociata. 

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