Como lembrar de uma pandemia

Como lembrar de uma pandemia

REDAÇÃO

30 de dezembro de 2020 | 12h48

Pedro Vianna Godinho Peria, é mestrando em Administração Pública e Governo na EAESP-FGV, Graduando em Letras na FFLCH-USP

 

Nas vésperas do fim de 2020, podemos nos questionar: como irão lembrar deste ano? Ou ainda, como as crianças que nasceram neste ano, e portanto não puderam assimilar nada do que vivemos, serão ensinadas sobre a pandemia? Podem parecer questões que concernem ao futuro, mas na verdade as respostas estão em gestação, de forma mais ou menos consciente, por maneiras mais ou menos organizadas.

Se considerarmos a Gripe Espanhola, ocorrida em fins da segunda década do século XX, como o último evento epidemiológico marcante, percebemos que as gerações hoje presentes não têm uma memória afetiva desse fato. Poucos de nós conviveram com pessoas que sofreram os impactos da primeira pandemia do vírus H1N1: se hoje alguém tem 100 anos, essa pessoa tinha acabado de nascer quando a referida gripe já estava sendo controlada. Assim, para a grande maioria da população atual, a Gripe Espanhola chegou por livros de História. Com a falta de relatos diretos, torna-se simples apontar a nossa falta de consciência historiográfica sobre os primeiros eventos temerosos de um século marcado por guerras civis e mundiais. No entanto, sobre a pandemia que hoje nos assola temos muitas narrativas em mãos e por isso devemos nos perguntar como lembraremos, ou melhor, como faremos com que a pandemia do COVID-19 seja lembrada.

Como baliza, tomemos duas ações promovidas no Município de São Paulo nos últimos anos que concernem à memória de eventos horríveis. Em primeiro lugar, o Memorial da Praça 17 de julho, no bairro do Campo Belo (Zona Sul), inaugurado em 2012 para homenagear as vítimas do acidente do voo TAM JJ3054, ocorrido cinco anos antes. A queda do voo causou grande comoção: todos os passageiros e tripulantes, além de doze pessoas que estavam no local, morreram e, pela força do impacto, a identificação dos corpos foi tarefa árdua. No local da colisão, decidiu-se pela abertura de uma grande área aberta de 8 mil m² com 119 postes de luz – um para cada vítima -, de forma a marcar permanentemente a paisagem ao lado do Aeroporto de Congonhas. Como segundo evento, podemos evocar a inauguração, em 2014, do Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos do Regime Militar, colocado na entrada do Parque Ibirapuera. Esse é constituído de chapas de metal em sequência totalizando 12 metros e, nas de cor branca, estão inscritos os nomes de 436 pessoas: todos que foram mortos ou desaparecidos durante a Ditadura. A inauguração foi feita no dia que marcou os 50 anos do golpe, contou com familiares de desaparecidos políticos e foi promovida pela coordenação de Políticas de Direito à Verdade. Ambos os eventos, o Memorial 17 de Julho e o Monumento no Ibirapuera, são formas de inscrever no tecido urbano uma memória difícil. Não estão lá à toa, mas para que, quando passarmos pela rua, lembremos dos mortos e da razão de sua morte transformando uma memória pessoal ou familiar numa lembrança coletiva.

São muitos os exemplos dessas intervenções nas nossas cidades; haverá alguma sobre a pandemia? Tomando as dimensões do Memorial da Praça 17 de Julho em Congonhas como exemplo e usando os dados atualizados até 29 de dezembro para o Município de São Paulo, teríamos que içar 15.520 postes de luz dentro de uma “praça” com mais de 1 milhão de metros quadrados. Indo além e usando como parâmetro o Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos do Regime Militar para a criação de um outro monumento para todos os mortos pelo COVID-19 no Brasil até dia 29 de dezembro, teríamos que inscrever permanentemente em metal o nome de 191.570 pessoas. Nesse caso, seria uma sequência de placas com mais de 5 quilômetros; um muro tão longo quanto uma hipotética ligação entre a Avenida Paulista e a Avenida Ibirapuera.

No entanto, esses exemplos não devem passar de um exercício para pensar o impacto paisagístico de um monumento em memória das vítimas da pandemia e o quanto a nossa vivência urbana seria alterada caso algo dessas proporções fosse construído. Servem apenas para a criação de imagens mentais porque a pandemia em nada se assemelha com um acidente aéreo nem com as violações de uma ditadura: o que experienciamos em 2020 é algo diferente. Na pandemia, enfrentamos desafios microscópicos, macroscópicos e, também, simbólicos. Em relação a esses últimos, foco deste texto, devemos nos preocupar sobre como os efeitos da pandemia serão lembrados e, para isso, é preciso compreender que a memória social é indissociável da noção de trabalho: nós empreendemos esforço quando lembramos e trabalhamos para fazer com que algo seja lembrado. Lembraremos do covid como uma gripezinha? Lembraremos de 2020 pela difusão do teletrabalho? Lembraremos das vítimas como perdas familiares ou sociais?

Essas articulações fazem parte de uma disputa de narrativas acerca da pandemia. Do que sofremos neste ano, apenas o vírus e seus efeitos biológicos são realidades objetivas; a forma como percebemos categorias como “pandemia”, “isolamento social”, “grupos de risco”, “uso de máscaras”, “quarentena” são construções e reconstruções de sentidos e, por isso, há tanta ambiguidade no debate público – temos o Brasil como exemplo paradigmático nesse caso. Em maior ou menor grau, estamos ainda debatendo consensos sobre o que é a pandemia, ou seja, o que ela significa. Ela – a palavra – pode remeter ao esforço sobre-humano da comunidade médica, ao constante avanço das descobertas de pesquisadoras e pesquisadores, aos diferentes níveis de isolamento social, às adaptações tecnológicas, às respostas governamentais e da sociedade civil, e, enfim, às mortes. Trata-se então de procurar entender quais narrativas (determinada interpretação sobre o objeto do discurso) se sobressaem, afirmando-se como hegemônicas, e quais são escanteadas. A vacina pode nos imunizar contra o vírus, mas não há escape para a disputa de sentidos: esta não se limita aos marcos temporais atribuídos ao início e ao fim das contaminações. Nessa profusão de interpretações, poderíamos reduzir as perguntas feitas acima na forma de: qual sentido da pandemia será lembrado?

No caso das vítimas da Ditadura Civil-Militar, só conseguimos trazer seus nomes para o espaço público – à luz do dia – depois de cinco décadas. A memória é um campo simbólico altamente politizado: lembrar e esquecer são atos políticos e, nessa dinâmica, o esquecimento acerca de acontecimentos terríveis sempre foi a regra. Por esse motivo, Walter Benjamin nos alerta que “apenas tem o dom de atiçar o passado com aquelas centelhas de esperança o historiógrafo atravessado por esta certeza: nem os mortos estão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer” (BENJAMIN, 2020, p. 116). Devemos ser capazes de fazer valer uma luta sobre os sentidos da pandemia entendendo que suas vítimas não são, apenas, perdas pessoais, mas sobretudo perdas coletivas. A tragédia dos milhares de óbitos todos os dias não é individual, é um espetáculo público no qual todos fazemos parte da performance. No decorrer desses meses, o fator mais preocupante talvez seja a tentativa constante de despublicização do problema: se não é de todos, cada um que se responsabilize; este é o cerne da polêmica envolvendo o uso ou não uso das máscaras, por exemplo.

A disputa por uma narrativa que focaliza o caráter público da pandemia passa por tentativas de trabalhar esse trauma também de forma pública. São esforços de impedir que os seus efeitos perversos sejam esquecidos ou negados. Encontramos uma louvável iniciativa no INUMERÁVEIS: Memorial dedicado à história de cada uma das vítimas do coronavírus no Brasil. Criado coletivamente de forma voluntária, a plataforma se organiza como um inventário de histórias de vida. O seu conjunto acaba por criar uma história da morte na pandemia brasileira; feita de retalhos familiares e fraternos, temos uma construção contínua de uma narrativa coletiva difícil, mas importante.

É uma celebração de cada vida que existiu e que existe, e de como podemos entrelaçá-las para construir memória, afeto, respeito e futuro.

Em 2020, o mundo vem sendo duramente atingido pelo coronavírus. Como em todas as pandemias, pessoas tornaram-se números. Estatísticas são necessárias. Mas palavras também. Se nem todas as vítimas tiveram a chance de ter um velório ou de se despedir de seus entes queridos, queremos que tenham ao menos a chance de terem a sua história contada. De ganharem identidade e alma para seguir vivendo para sempre na nossa memória.

Todo o relato postado nas redes sociais termina com o mote: “Não é um número”. Fica clara a contraposição a uma forma de falar da e na pandemia que reduz vidas a estatísticas para criar uma outra narrativa baseada no impacto simbólico das perdas. Frise-se: “vivendo para sempre na nossa memória”. Não sabemos se haverá um monumento público, que não nos permita esquecer, mas a possibilidade de ler a história dos mortos cria uma identificação fundamental: são nossos mortos. Da mesma forma que os postes de luz e os nomes em metal, histórias escritas são mais difíceis de se apagar do que números.

Referências
BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. São Paulo: Alameda, 2020.

G1. Congonhas ganha memorial 5 anos após acidente que matou 199. Por Natália Duarte em 17 de jul. de 2012. Disponível em: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2012/07/congonhas-ganha-memorial-5-anos-apos-acidente-que-matou-199.html

MUNICÍPIO DE SÃO PAULO. Boletim Diário COVID-19. Edição 278 – 29 de dez. 2020. Disponível em: https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/saude/vigilancia_em_saude/doencas_e_agravos/coronavirus/index.php?p=306743.

MUNICÍPIO DE SÃO PAULO. Cidade ganha monumento em homenagem aos mortos e desaparecidos do regime militar. 08 de dez. 2014. Disponível em: http://www.capital.sp.gov.br/noticia/cidade-ganha-monumento-em-homenagem-aos-mortos-e

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