Como evitar o morticínio de policiais pela COVID-19?

Como evitar o morticínio de policiais pela COVID-19?

REDAÇÃO

23 de março de 2021 | 20h41

Rafael Alcadipani, Doutor em Management Sciences pela Manchester Business School (MBS, Grã-Bretanha). Professor Titular da FGV-EAESP e Membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

A COVID-19 tem gerado um elevadíssimo número de mortos em nosso país. O Brasil hoje é o país onde mais se morre da doença no mundo, tanto em números relativos quanto em números absolutos. Diante desta tragédia, há um grupo profissional que está bastante exposta a ameaça do vírus e que é pouco comentado: os policiais. Os números de morte de policiais causados pela doença são assustadores.  Desde o começo da pandemia em São Paulo, na Polícia Militar, cerca de 42 policiais da ativa e 350 da reserva faleceram devido a complicações causadas pelo vírus. Na Polícia Civil, são cerca de 32 óbitos de policiais da ativa. Estes números são espantosos, pois a COVID-19 hoje mata mais policiais do que o confronto com criminosos. O plano de vacinação do Governo Federal coloca que presos devem ser vacinados antes de policiais. Ou seja, apesar de todo o falatório do Presidente a respeito da importância dos policiais, na ação prática cotidiana a realidade é outra.

Os Governos dos Estados também possuem responsabilidade na maneira com que o vírus tem acometido os policiais. A evidência científica mostra que o vírus se espalha pelo ar e que as máscaras de tipo N95 são as que melhor protegem as pessoas. Porém, os governos não estão fornecendo este tipo de equipamento aos seus policiais. Além disso, houve poucas mudanças de atuação no trabalho policial cotidiano durante a pandemia. Não faz o menor sentido que a polícia trabalhe como se tudo estivesse normal. Ou seja, qual é o sentido de fazer operações policiais que colocam em risco os membros das forças de segurança para um benefício social baixo? Na saúde, todo tipo de tratamento eletivo está suspenso para que haja concentração de esforços no que importa. A polícia deveria seguir a mesma lógica: operações policiais só deveriam existir em caso de crimes gravíssimos e contra quadrilhas importantes. O patrulhamento deveria estar focado em lidar com as urgências e emergências e as abordagens deveriam acontecer apenas quando há informação prévia. Todo o pessoal de apoio deveria estar trabalhando em home office. O que está acontecendo é que parece que os governantes e os secretários se segurança não perceberam que manter a polícia atuando como ela fazia antes da pandemia está expondo os policiais à riscos desnecessários.

Há ainda os próprios policiais que deixam o seu cuidado de lado. Em alguns círculos policiais usar máscara é visto como sinal de fragilidade. A lógica de ser “durão” está fazendo com que os policiais não se protejam como deveriam. Isso sem falar em toda a ideologia negacionista da pandemia que encontra muita ressonância em alguns círculos de policiais da ativa, da reserva e aposentados que faz com que eles não se protejam como deveriam.  Além disso, as disputas entre Governo Federal e Governadores de Estado faz com que os policiais não recebam um direcionamento estratégico único. Com isso, ficam perdidos. As operações para combater festas clandestinas e aglomerações são fundamentais neste momento. Mas, precisam ser conduzidas de forma a preservar a vida dos policiais. O ideal é que a polícia saiba onde as festas vão acontecer e cheguem no começo para impedir que as festas ocorram e não atuem levando centenas de pessoas a unidades policiais que colocam em risco todos os envolvidos na operação.

Por fim, é preciso garantir a vacinação rápida dos policiais, pois eles estão diariamente expostos aos riscos da COVID-19 em função da sua natureza ocupacional. Mas, a vacina em si não é a única solução, pois novas cepas do vírus podem surgir e tornar a imunização mais fraca ou sem efeito. É urgente que os policiais mudem a sua forma de trabalhar, focando no que verdadeiramente importa, recebam o equipamento de proteção adequado, o que inclui as máscaras N95, e que os próprios policiais mudem a mentalidade de descuido com a própria proteção. Além disso, todo o pessoal de apoio deve trabalhar em casa e não ficar expostos em prédios mal ventilados. Sem isso, seguiremos assistindo esta matança de policiais.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.