Como as medidas contra a Rússia afetarão a economia brasileira?

Como as medidas contra a Rússia afetarão a economia brasileira?

REDAÇÃO

14 de março de 2022 | 15h45

Gustavo de Souza, Mestre em economia pela FGV-RJ, Mestre e Doutor em economia pela Universidade de Chicago, Pós-doutor em economia pela Universidade de Estocolmo (Twitter: @GusMicrotoMacro)

O Brasil está em uma posição privilegiada. Longe o suficiente da Rússia para não temer o expansionismo militar de Putin, mas perto o suficiente para manter fortes elos comerciais com o antigo país dos “czares”. Enquanto o mundo impõe sanções contra a Rússia pelas atrocidades cometidas na Ucrânia, vale a pena perguntar – como essas sanções afetarão parceiros comerciais da Rússia, como o Brasil?

Especialmente importante para o Brasil é a importação de adubo, que ficará mais cara com as medidas implementadas contra a Rússia. Em consequência, o setor agrícola brasileiro terá que comprar adubo a preços mais altos de outros países. Como os custos de produção são maiores, o setor agrícola passará esse custo para o preço e acabará vendendo menos, produzindo menos, e empregando menos. Mas quanto exatamente o trabalhador brasileiro vai pagar pelo expansionismo ditatorial do outro lado do mundo?

Pesquisa recente de minha autoria nos ajuda a entender como as medidas contra a Rússia afetarão o brasileiro comum. Em artigo acadêmico, utilizo microdados do Ministério do Trabalho e um modelo teórico para estudar como o aumento do preço de produtos importados afetam o mercado de trabalho brasileiro. Existem três importantes efeitos – no produtor nacional, no importador de insumo, e no consumidor final.

Primeiro, o aumento de preço afeta o produtor nacional do produto importado. Quando um produto importado tem um aumento no preço, o produtor nacional enfrenta menos competição. O que o permite aumentar produção, emprego e salário. No caso das sanções contra a Rússia, o aumento do preço do adubo incentivará a produção nacional de adubo! Em minha pesquisa, descobri que se o preço de um produto importado dobrar, o emprego nesse setor aumenta 2% em média.

Porém, nem tudo são flores. Outras empresas também serão afetadas. É o caso das empresas que usam o produto importado como insumo na produção. Esse custo de produção maior fará com que essas empresas reduzam emprego e aumentem preços. Minhas estimativas revelam que, se o preço de um insumo dobrar, o emprego nesse setor diminui em até 4%, dependendo de quão importante esse insumo é na produção daquele setor.

Portanto, as sanções contra a Rússia, devido ao aumento do preço do adubo, levarão a um aumento no custo de produção do setor agrícola. Em consequência, esse terá preços mais altos e emprego menor.

Mas, o efeito não para no setor agrícola. Ele se propaga por toda a economia! Outros setores que usam produtos da agricultura na produção, como agropecuária ou de vestuário, terão também custos de produção maior, já que preços agrícolas aumentaram, o que reduz produção, emprego e aumenta os preços nesses setores igualmente. Assim, as medidas contra a Rússia se espalham por todo o setor produtivo da economia brasileira. Como consequência, o trabalhador brasileiro terá preços mais altos, salários mais baixos, e mais desemprego.

De acordo com os resultados que encontrei, a importação de adubo é tão importante para a economia brasileira que ele é um dos poucos setores em que impor barreiras comerciais diminuiria emprego. Ou seja, ele é o único setor em que o efeito positivo no produtor nacional é menor que o efeito negativo nos outros agentes da economia. Com um modelo teórico, estimo no artigo que, se o preço do adubo aumentar em 200%, o emprego no Brasil cai 0.005%. Não é o fim do mundo, mas, em um mundo conectado, o trabalhador brasileiro acaba sofrendo até pelo expansionismo de ditadores do outro lado do mundo.

O efeito final dessa propagação chega até o consumidor. Como o custo mais alto do adubo se espalhou por toda a economia, aumentando o preço em quase todos os setores, o consumidor brasileiro enfrentará preços mais altos.

O que o governo pode fazer para evitar ou amenizar os impactos da invasão russa da Ucrânia? Não muito. Ou melhor, não tem nada que o governo possa fazer sem que piore a economia em algum outro lugar. A melhor recomendação é evitar ao máximo medidas que dificultem o comércio internacional. Isso tanto para a importação de produtos, quanto para a exportação. Se o governo brasileiro também adotasse medidas contra a Rússia, o efeito negativo em emprego e consumo no Brasil seriam muito maiores. Talvez, essa seja a medida moralmente correta contra um agressor expansionista, porém, certamente não é a melhor medida econômica.

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