Chaves explicativas para o segundo turno em São Luís (MA).

Chaves explicativas para o segundo turno em São Luís (MA).

REDAÇÃO

20 de novembro de 2020 | 15h47

Hesaú Rômulo – cientista político e professor; @hsrmlo

 

Um dos problemas centrais de qualquer projeto político vitorioso, em qualquer sistema democrático ocidental, é o da sucessão. Palavra de ordem para uma pretensa trama longeva, pesadelo de muitas glórias hegemônicas, a decisão sobre quem virá depois assombra as forças políticas desde muito tempo. Longe da hereditariedade monárquica, escolher quem assume é tarefa árdua.

Há praticamente dois anos escrevi um texto, logo após a vitória em primeiro turno de Flávio Dino (PCdoB) sobre Roseana Sarney (MDB), que dali em diante o maior desafio seria o de manter coeso um grupo político que tinha por característica marcante a sua heterogeneidade. Uma coalizão de governo composta por dezesseis partidos e uma gramática política de transição, Dino havia em 2016 entrado de cabeça na campanha de Edivaldo Holanda Júnior (PDT), derrotando justamente o candidato que hoje lidera as pesquisas. Àquela época já se suspeitava que o poder reputacional do governador seria decisivo no resultado das urnas.

O cenário que temos hoje, às vésperas de um novo segundo turno na capital ludovicense, é parecido. Flávio Dino de um lado, tentando juntar forças e mostrar protagonismo dentro do seu grupo, e do outro Eduardo Braide (PODE) que capitaliza forças conservadoras, reminiscências do sarneísmo na ilha, dissidências do bloco governista e um apelo popular oriundo do recall de 2016.  Braide tenta ser o antagonista ao “comunismo maranhense” sem nunca ter levantado explicitamente esta bandeira. Tenta capturar o eleitor conservador bolsonarista sem pronunciar o nome do presidente da república em voz alta, tenta emplacar a prefeitura sendo oposição ao governo estadual, mas com o apoio de membros da base do governo. A vida do cientista político no Brasil não é fácil, ainda mais por estas bandas.

Por outro lado temos Duarte Jr. (Republicanos) que até o ano passado era filiado ao partido do governador, e bancou a própria candidatura, costurando apoios sólidos e financiamento que o viabilizassem como um dos prefeituráveis com fôlego, fato que se demonstrou no primeiro turno. Carrega uma atmosfera personalista e narcísica, atributos completamente opostos ao atual prefeito. Duarte traz consigo uma proposta de que é possível fazer política sem militância partidária, com bons resultados e eficiência. Construiu uma imagem de que a gestão pública é desvinculada da articulação política e que sua origem fora do establishment o colocam como diferente da classe política vigente. Quer concordemos ou não, é uma estratégia que funcionou em diversos momentos e gera ressonância em um eleitorado insatisfeito com as instituições representativas.

Ainda assim, é possível ponderar que o primeiro turno das eleições em 2020 mostrou que o discurso mais extremista perdeu fôlego e o assim chamado “centrão” ganhou terreno na preferência dos eleitores. Opções mais sóbrias, candidatos com mandatos de outrora prevaleceram sobre os neófitos da política e também sobre os defensores da antipolítica.

Voltando para São Luís, o discurso do bloco governista que apoia Duarte Jr insiste em classificar Braide como candidato bolsonarista. O recente apoio de Silvio Antônio (PRTB), expressamente defensor de toda a cartilha de insanidades do presidente da república, ratifica este rótulo. Embora essa não seja a principal questão em voga, respinga em Braide o conglomerado do seu entorno. A vitória de Braide não é uma vitória do bolsonarismo, ainda que o Bolsonaro se utilize disso para enfraquecer Dino nos embates nacionais que travaram até aqui. Uma vitória de Duarte significa a capacidade de readaptação de Dino a um cenário adverso, retardando em alguns meses a recomposição de forças que orbitam sua sucessão em 2022.

Enxergar a semântica da disputa municipal para além do cenário local é fundamental para compreender que o resultado do segundo turno vai revelar de maneira incisiva quais serão os próximos passos de cada grupo para 2022. Nunca é demais lembrar que os três senadores do Maranhão se dividiram nestas eleições. Uma bancada que foi eleita dentro do mesmo guarda-chuva hoje tem divergências praticamente abissais. Por outro lado, uma análise estática sobre as siglas partidárias é insuficiente para entender as contradições que existem em uma corrida majoritária. O alinhamento pontual de partidos mais à esquerda ou mais à direita do espectro político precisa ser entendido a partir da composição das lideranças locais, dos interesses de articulação ou desarticulação que estes atores desejam provocar no tabuleiro.

São Luís é o termômetro e o grande teste para a coalizão proposta por Dino. Um sucesso ou um fracasso depende daquilo que define a sustentação de um projeto vigoroso: é a capacidade de acomodação de interesses em torno de um objetivo que, bem ou mal, contemple aqueles que estão vinculados.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.