Catástrofes e crises: Modo de Usar

Catástrofes e crises: Modo de Usar

REDAÇÃO

23 de março de 2020 | 15h22

 

Antonio Gelis Filho, Professor da FGV-EAESP, é Doutor em Administração (FGV-SP), Especialista em Direito Sanitário (FSP-USP), Advogado (USP) e Médico (USP).

As palavras “crise” e “catástrofe” estão, por razões óbvias, circulando muito. Vivemos uma pandemia cujas consequências sociais, econômicas e políticas são de uma dimensão desconhecida talvez desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A arquitetura emocional global desaba. Referências psicológicas tidas por naturais são perdidas. O futuro parece não apenas incerto, mas impensável. Mas talvez esse comportamento errático e essa economia psíquica caótica não sejam tão inevitáveis quanto pensamos.

Crises e catástrofes são tão antigas quanto a humanidade. Cada geração que enfrenta guerras, epidemias, desastres naturais, colapsos financeiros e outras situações extremas, aprende a ressignificar essas palavras. E o significado que associamos às palavras muda quando vivemos, sentimos ou experimentamos aquilo que elas descrevem: percebemos nuances nunca antes notadas e limites nunca antes imaginados. Seus significados não fixos no tempo.

Talvez possamos encontrar na memória coletiva algumas orientações sobre como proceder nesses momentos onde nossos limites são testados. E a etimologia, a origem das palavras, talvez seja a memória mais valiosa de todas. Diferentemente da história escrita, largamente intencional, as palavras sobrevivem nos idiomas apenas enquanto permanecem úteis, enquanto conseguem se adaptar à mudança das necessidades sociais. Enquanto seus significados, evoluindo de forma coletiva e espontânea, conseguem transitar entre eras. Enquanto sua capacidade de ampliar seus significados não cessa.

E por incrível que possa parecer, a etimologia ensina que crise e catástrofe são duas palavras que descrevem não apenas coisas ruins, mas que também descortinam possibilidades positivas não percebidas.

Ambas as palavras têm sua origem no grego antigo. Como este não é um texto de especialista para especialistas, eu me prenderei a apenas uma característica comum a ambos os vocábulos: a ideia de mudança súbita, necessária, inescapável. “Catástrofe” traz a ideia de “virar de cabeça para baixo”, de “mudar tudo repentinamente”: o prefixo kata- em grego remete a “para baixo, embaixo”. Strephein, por sua vez, tem o significado de virar, de mudar de posição. Há outras interpretações possíveis, registre-se; essa nos é útil. Catástrofe era também o nome do desenlace do drama grego, quando acontecimentos inesperados mudavam tudo; esse momento não era necessariamente trágico, podendo ser até alegre, por exemplo com fatos surpreendentes que levavam ao casamento de personagens no final das peças.

Neste momento vivemos uma “catástrofe”. Tudo está sendo rapidamente virado de pernas para o ar. Vida em sociedade, confiança na tecnologia, vida privada. E nossa tendência não é apenas a de nos prepararmos racionalmente para as dificuldades. O pânico entra em ação, nos cega a racionalidade e tira a esperança, fazendo-nos crer que a situação está destinada ao pior final possível. Esse é um erro. Surpresas positivas também podem ocorrer. “Pânico”, aliás, é uma palavra que também deriva do grego antigo. Panikon era o nome do medo contagioso causado aos rebanhos por obra do deus pan, figura que vivia à margem da sociedade divina dos gregos, poderoso mas rústico por sua proximidade com os instintos primitivos e com a natureza mais crua. Ceder ao pânico nada mais é que ceder aos instintos primitivos de sobrevivência, sem o filtro da razão. Ou seja: ceder ao pânico é abrir mão daquilo que mais ajudou nossa espécie ao longo de sua difícil caminhada. Algo que devemos evitar a qualquer custo.

A outra palavra do momento é “crise”. Normalmente a utilizamos no sentido de “enorme dificuldade”. Em geral, talvez de novo cegados pelas traquinagens de pan, esquecemos de olhar para possibilidades positivas nas crises. A etimologia ajuda novamente. Uma das leituras de sua origem é a junção de krī́nō, (“eu decido”) com o sufixo -sis. Crise pressupõe necessidade de decidir. Uma das leituras possíveis remete à ideia de crise como o momento no qual um navegador, percebendo o início de uma tempestade, deve decidir qual porção de sua carga jogará ao mar. Ensina assim a etimologia que uma crise, para ser resolvida, pressupõe a capacidade de abandonar aquilo que não mais nos serve. Um juízo tão difícil quanto necessário.

Qualquer que seja o desenlace da atual catástrofe, nem todas as mudanças vindouras serão negativas. Muito aprenderemos e transformações para melhor em nossas sociedades virão. Qualquer que seja o desenlace de nossa atual crise, ilusões de poder absoluto, de segurança total, de viabilidade de políticas inviáveis deverão ser abandonadas. Parte de nossa carga cultural, social e econômica deverá ser abandonada para que possamos navegar em direção a sociedades mais sustentáveis e equilibradas.

Assim é que, desta catástrofe e desta crise, transformações adaptativas emergirão. Mudaremos para algo melhor, para algo mais resiliente, para algo mais equilibrado. E não será apenas o caso de adaptação, de criar o novo para sobreviver. Pois que descobriremos novas utilidades para estruturas e instituições antigas, utilidades que não perceberíamos sem a crise e sem a catástrofe. A biologia evolutiva chama de exaptação a esse fenômeno, a descoberta de novas funções para estruturas já existentes. Não pensemos tratar-se de algo novo entre seres humanos. Acredita-se que nossa anatomia já estava pronta para a linguagem muito antes, talvez milhares de anos antes, desta capacidade surgir em nossas mentes. E, embora não haja registros disso, talvez uma grande catástrofe global, talvez mesmo uma terrível epidemia cuja lembrança desapareceu nas brumas do tempo, tenha sido a responsável pela exaptação de uma nova função mental, a linguagem, à já existente anatomia capaz de produzir sons da fala humana. Da mesma forma, novas linguagens políticas, econômicas e sociais talvez emerjam em um futuro não muito distante, por meio de processos de adaptação e de exaptação decorrentes desta catástrofe e desta crise. A esperança é filha da razão e não do pânico.

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