Caso George Floyd escancara a crise do modelo de polícia

Caso George Floyd escancara a crise do modelo de polícia

REDAÇÃO

08 de junho de 2020 | 10h25

Rafael Alcadipani, é professor da FGV EAESP e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

O cruel assassinato de George Floyd por policiais na cidade de Minneapolis gerou uma onde de protestos em inúmeras cidades nos EUA e fora dele. Além da fundamental questão do racismo, tema que ainda precisamos muito evoluir, a morte de Floyd deixa explícita uma pergunta importante: até que ponto o modelo de polícia reinante hoje é adequado para o mundo em que vivemos?

A literatura acadêmica sobre organizações policiais discute que tais organizações mudaram muito pouco ao longo da história. Embora novas tecnologias tenham sido inseridas no trabalho policial, suas atividades de patrulhamento e investigação criminal permanecem praticamente as mesmas. E o mais importante: a essência da forma de operar e da cultura de organizações policiais nos EUA e no Brasil é composta pela ideia de “combate ao crime” e de “guerra contra o crime”. Nesta lógica, o policial se vê como um “guerreiro contra o mal em defesa do cidadão de bem”. Com isso, boa parte da lógica das instituições policiais gira entorno desta questão: buscam comprar os melhores armamentos, as melhores viaturas e toda sorte de material e equipamentos que façam a polícia desempenhar melhor tal guerra.

Porém, desde a década de 1970 os estudiosos de polícia argumentam que as polícias se colocam uma missão impossível: reduzir indicadores criminais. Isso porque o crime é um fenômeno multifacetado e a ação policial explica apenas parcialmente a redução do crime. Fatores sociais, econômicos, urbanísticos e até mesmo o clima podem gerar mais redução de crimes que o próprio trabalho policial. Em sua “guerra contra o crime”, boa parte das organizações policiais tendem a focar seus esforços de maneira desproporcional em grupos sociais mais vulneráveis e, com isso, atuar como um mecanismo de manutenção de desigualdades, de reforçar preconceitos e o racismo estrutural, além de manter e aprofundar estigmas sociais.

Além disso, a lógica de formar “guerreiros” faz com que policiais busquem no seu cotidiano inimigos para serem confrontados e não vidas humanas para serem protegidas. A lógica do guerreiro afeta, também, os próprios policiais que precisam se ver como pessoas que tomam risco, não têm medo, não têm sentimentos e, acima de tudo, não reconhecem o próprio sofrimento e nem o dos outros. Uma das consequências disso é que os próprios policiais estão entre as ocupações com os maiores números proporcionais de suicídios, doenças ocupacionais ligadas a stress e abuso de substâncias químicas. O modelo de polícia reinante em muitas instituições no mundo, ao fim e ao cabo, não reduz o crime, não protege os grupos sociais mais vulneráveis, catalisa o racismo estrutural de muitos países e termina por prejudicar a vida dos próprios policiais.

Por outro lado, apesar das inúmeras tentativas nos EUA, a reforma das polícias em geral é pouco efetiva, já que organizações policiais são bastante fechadas tanto à sociedade quanto aos controles sociais mais efetivos. Além disso, a mudança de cultura organizacional é sempre muito difícil, pois mexe com a essência de como as pessoas se percebem. A própria cidade de Minneapolis decidiu começar do zero uma nova polícia após tentar reformar sua força policial por décadas. Outras cidades dos EUA avisaram que irão reduzir os gastos com as polícias e direcionar estes recursos para áreas sociais. Além de escancararem o racismo de nossas sociedades, o caso de George Floyd explicitou a inadequação entre o modelo de polícia reinante e a necessidade de mudanças em nossa sociedade. Mais do que nunca, é urgente que as polícias repensem a sua lógica de atuar e de construir suas próprias culturas organizacionais sob pena de se transformarem em organizações completamente obsoletas.

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