Carne estragada, blockchain e (in)sustentabilidade

Carne estragada, blockchain e (in)sustentabilidade

REDAÇÃO

12 de abril de 2017 | 15h33

Eduardo H. Diniz, Doutor em Administração pela FGV EAESP, onde é professor de Tecnologia da Informação; Mario Aquino Alves, Doutor em Administração pela FGV EAESP, onde é professor do Departamento de Gestão Pública; Marcus Vinicius P. Gomes, Doutor em Administração Pública pela FGV EAESP e professor da Universidade Exeter, Reino Unido.

 

Os recentes acontecimentos relacionados à operação Carne Fraca da Polícia Federal levantam interessantes questões a respeito de como as empresas do setor frigorífico podem aperfeiçoar seus processos utilizando novas tecnologias de certificação da qualidade e garantia de alinhamento de seus processos de negócio com as respectivas políticas de responsabilidade social corporativa.

O Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo, com a cadeia de produção pecuária anual avaliada em US $ 167 bilhões, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC). Trata-se da atividade econômica que ocupa a maior porção de área agrícola dentro do Brasil, apoiando uma poderosa indústria transnacional de processamento de alimentos.

Entre 1900 e 1980, empresas multinacionais aqui instaladas – Wilson & Company, Armour, Swift, Continental e Anglo – dominaram o mercado de processamento de alimentos e imprimiram uma estratégia de orientação para a exportação com foco no mercado europeu de carne bovina. Esta orientação para a exportação ainda está presente, mas são as brasileiras JBS, BRF, Minerva e Marfrig que controlam o mercado internacional de carne e processamento de alimentos. Portanto, a pecuária é a materialização da inserção do Brasil no capitalismo global, já que a exportação de commodities representa uma importante conexão entre o Brasil e a economia mundial.

Tamanha exposição deste setor da economia gera uma imensa pressão da comunidade nacional e internacional por práticas ambientalmente sustentáveis e socialmente responsáveis. Esse cuidado não é apenas o resultado das pressões sanitárias dos reguladores nacionais e dos países importadores, mas também da exigência da sociedade civil internacional para que a carne brasileira seja produzida a partir de exigentes padrões de sustentabilidade social e ambiental. Como resultado das denúncias do Greenpeace e do Ministério Público Federal (MPF) em 2009 sobre práticas ilegais dos matadouros brasileiros na região amazônica, como desmatamento, invasão de terras indígenas e condições de trabalho desumanas, mais de quarenta estabelecimentos que envolvem a cadeia produtiva da carne (frigoríficos, matadouros, supermercados, dentre outros) firmaram o Pacto da Carne, com o compromisso de explorar somente a carne legal. Este pacto fez com que a indústria da carne desenvolvesse um sofisticado sistema de rastreamento por satélite e certificação eletrônica que garante a procedência da carne que chega ao consumo dos lares nacionais e que também é exportada. Embora o sistema não seja infalível, como todo e qualquer sistema de rastreamento e controle, ele representou um grande avanço na estruturação e competitividade internacional da industria da carne, pois apresenta uma garantia aos mercados internacionais e nacionais do não envolvimento indireto e direto destas grandes multinacionais com atividades de impacto social e ambiental negativos.

Não por acaso, as empresas JBS e BRF, ambas diretamente envolvidas nas revelações da Operação “Carne Fraca”, mantém ativas políticas de sustentabilidade. A JBS, em seu relatório anual de sustentabilidade, publicado em 2015 (http://relatorioanual.jbs.com.br/sustentabilidade/complementar.html), divulga amplamente o programa “confiança desde a origem”, em que destaca como clientes e consumidores podem identificar nome e localidade das fazendas que produzem a matéria do produto que comercializam. A BRF, em sua página de relações com investidores (http://ri.brf-global.com/conteudo_pt.asp?idioma=0&tipo=52100&conta=28&id=195600), apresenta seu programa para “alavancar a sustentabilidade na cadeia de valor”, em que anuncia sua responsabilidade perante a sociedade com ações de auditorias em fornecedores críticos com o objetivo de priorizar impactos ambientais e sociais negativos nos locais de produção, assim como garantir manejo responsável da matéria prima e das propriedades onde ocorrem os abates.

Em ambos os casos, as empresas demonstram grande preocupação e controle da cadeia produtiva antes que a carne chegue aos seus ambientes de produção. Mas, como foi evidenciado na operação “Carne Fraca”, pouco se percebe do mesmo cuidado de rastreamento na cadeia de distribuição do produto que sai de suas unidades produtivas. E é exatamente nesta etapa posterior da cadeia é que foram encontrados os problemas de corrupção e comercialização de carne contaminada identificados pela operação da Polícia Federal.

Nesta outra ponta da cadeia, novas tecnologias de rastreamento e certificação de qualidade de produtos estão emergindo. Baseadas em blockchain, mecanismo desenvolvido para garantir a segurança nas operações com a criptomoeda Bitcoin, essas tecnologias vêm sendo empregadas por empresas nos EUA para garantir o controle de qualidade de alimentos antes que sejam servidos aos clientes nos restaurantes e lanchonetes. Uma característica importante do blockchain é que ele dispensa a presença de uma autoridade certificadora, o fiscal sanitário, que foi elemento central na cadeia de corrupção descoberta pela Polícia Federal associada ao Ministério da Agricultura.

Para não jogarmos fora a água do balde com a criança, a questão não é crucificar as empresas e nem o Ministério da Agricultura, mas sim encontrarmos melhores mecanismos de controle e monitoramento que permitam rastrear o produto não apenas na parte superior da cadeia, mas também nas etapas de distribuição. A tecnologia do blockchain é promissora e as experiências já existentes demonstram que é uma solução possível, ainda que não a única, para melhorar os controles sanitários, combater a corrupção eleitoral e garantir que essas grandes empresas não fiquem marcadas pela pecha de irresponsáveis e insustentáveis.

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