Carnaval e violência policial: o combate às subculturas policiais violentas

Carnaval e violência policial: o combate às subculturas policiais violentas

REDAÇÃO

11 de março de 2019 | 11h44

Rafael Alcadipani é professor da FGV-EAESP, mestre em administração pela mesma instituição e PhD em Business Administration pela Manchester Business School. É, ainda, pesquisador visitante na University of Manchester, e Professor Visitante no Gothemburg Research Institute, um dos principais centros de Análise das Organizações na Europa. Foi Professor Visitante na Istambul Bigli University.

 

São Paulo teve um dos maiores carnavais de rua de sua história. A grande presença de pessoas nas ruas – muitas delas consumindo quantidade excessiva de álcool e outras substâncias alucinógenas – faz do reinado de Momo um evento de grande complexidade para as forças de segurança. Policiar tantos blocos, em tantos horários diferentes, faz com que as polícias do Estado estejam usando seus recursos a exaustão.  Vale frisar que os policiais estão trabalhando sob stress devido ao grande número de operações policiais decorrente da transferência dos líderes do PCC para presídios federais e há vários anos não recebem aumento real e nem ao menos a reposição da inflação em seus salários. É evidente que salário defasado, excesso de trabalho e stress não é justificativa para agredir ninguém.

Se na maioria dos casos a relação entre PMs e foliões foi marcada por urbanidade e civilidade, houve casos que ganharam a mídia que mostram policiais agredindo foliões sem a menor justificativa e de maneira completamente desproporcional. Em um dos casos mais marcantes, uma mulher, às vésperas do dia internacional da mulher, foi ameaçada de agressão física dentro de um Quartel da polícia. Em outro, vários policiais aparecem agredindo um único homem que não oferecia qualquer resistência. Até mesmo o Governador do Estado teve que voltar atrás de declarações anteriores e deixar claro que não aceitava que pessoas fossem agredidas daquela maneira.

Os casos de abuso receberam o tratamento padrão que a PM fornece quando há desvios de conduta: foi-se dito que eram exceções, que a corporação não compactua com coisas deste tipo, que os policiais foram afastados e que haveria uma apuração rigorosa para gerar uma eventual punição.  Quem conhece a formação dos PMs em São Paulo, que é uma das melhores da América Latina,  sabe que em nenhuma academia de formação de PM é ensinado que policiais agridam as pessoas de maneira banal ou que eles desrespeitem direitos. Além disso, nenhum comandante quer ver a sua tropa envolvida em eventos que maculem reputação da PM, algo que é extremamente grave dentro da corporação que gasta muitos recursos para construir uma imagem da polícia que “você pode confiar”.

Se a formação e o treinamento são sérios e não há ordens diretas para que pessoas sejam agredidas de forma banal, qual o motivo deste tipo de situação acontecer? No meu entendimento, o problema é a persistência de subculturas policiais que valorizam o “esculacho”.  Toda organização possui uma cultura que em palavras simples são as regras explícitas e sutis a respeito de como as pessoas devem se comportar. Além das culturas, há subculturas que podem se contrapor aos valores oficiais da organização. Tais subculturas são reproduzidas e ensinadas nas conversas e nas ações informais e são oriundas de mentalidades reinantes na sociedade e na organização.

Há subculturas policias que defendem e valorizam o policial violento e truculento. Tais subcultura se reproduzem de maneira não oficial e também criam suas próprias lógicas de desenvolvimento. Elas encontram, ainda, eco em setores da sociedade que defendem e apregoam  que o bom policial é aquele que “bate e arrebenta” e que sob o menor sinal de desafio deve responder com força desproporcional. Tais subculturas estão presentes dentro das polícias e hoje são facilmente visíveis em mídias sociais. Para piorar o quadro, o Brasil elegeu ainda uma ideologia política que defende a violência e a truculência policial. Com isso, os operadores da ponta da linha se sentem ainda mais encorajados a agir com mais força e fora dos procedimentos e protocolos oficiais.

Neste momento de questionamento diante de casos de agressão banal durante o carnaval, é comum que alguns dos comandantes das polícias vejam qualquer reflexão como um ataque a sua instituição. Esta resposta corporativistas pode ser boa para defender a organização policial na opinião pública, mas de pouco ou nada serve para combater o problema. A resposta corporativista aprofunda o hiato entre polícia e sociedade. Para se mudar a subcultura policial,  é preciso que a formação de praças e oficiais seja menos endógena. A endogenia  no ensino e no treinamento é avessa a reflexão e tende a reproduzir os vícios e problema de organizações. É preciso criar ainda mais símbolos que reforcem os valores desejados e alijem os valores que não se desejam. E isso se faz quando as ações concretas dos líderes são coerentes com o seu discurso. Vale destacar que líder é todo aquele que comande outras pessoas. A mudança da subcultura policial é um trabalho lento, diário e constante que precisa de foco. A polícia realizou um grande e custoso trabalho durante o carnaval de São Paulo. Infelizmente, as ações de algumas de suas historicamente persistentes subculturas mais uma vez gerou questionamentos a imagem da instituição e abusos que afastam a polícia da sociedade.