Cadê o mapa do COVID-19?

Cadê o mapa do COVID-19?

REDAÇÃO

19 de março de 2020 | 13h35

Rubens de Almeida é Engenheiro e Jornalista e hoje trabalha com dados e informações geolocalizadas para orientar estratégicas de empresas e instituições sociais.

Eduardo de Rezende Francisco é professor de Data Science, GeoAnalytics e Big Data da FGV EAESP.

 

Jornais e telejornais começam a usar mapas globais para mostrar a difusão da doença em todo o mundo e Estados brasileiros. Não seria adequado usar mapas mais focados para montar estratégias locais de prevenção para orientar a população?

A maré da gripe do Novo Coronavirus, causadora da gripe COVID-19, já está subindo em todo o mundo há pelo menos quatro meses. Desde o início é do conhecimento médico-científico que o seu espalhamento se dá por contato humano direto, pela saliva em forma de perdigotos (quem se lembrava desta palavra horrível?), por espalhamento de gotículas em tosses ou espirros casuais. Ou, ainda, por levarmos a mão à boca, nariz e olhos após tocarmos superfícies e corrimãos contaminados no transporte ou locais públicos ou mesmo em casa, escola e trabalho – o vírus sobrevive mais do que o desejado em superfícies em geral.

Acompanhamos angustiados pela mídia a fase da transmissão estrangeira, por meio de viajantes que entraram em contato com o vírus em outro país e o trouxeram de avião para cá. E, alcançamos a etapa da transmissão comunitária, quando o encontro e o carinho casual entre vizinhos, amigos, colegas de trabalho e parentes bastavam para transmiti-la. Capítulos anteriores e atuais dessa triste novela se passaram em China, Itália, Coreia, Irã, Estados Unidos e mais recentemente na Europa inteira e resto do mundo.

E a mensagem tornou-se clara: agora a contaminação é nossa responsabilidade. Não tossir ou espirrar em público, não tocar em ninguém, não cumprimentar, não manipular pessoas ou pegar em superfícies públicas sem fazer a higienização posterior das mãos e deixar de se auto contaminar. Pior: embora o presidente do Brasil ache que não é possível, todos somos potenciais contaminadores dos outros. A palavra de ordem é quarentena para todos. Isolamento social já.

Mas o que não se sabe é se no meu bairro, no meu quarteirão, minha rua, minha vizinhança, ou se no meu supermercado e farmácia (locais autorizados para circulação de pessoas nessa situação) ele, o vírus, já está presente no organismo das pessoas ou passeando pelas superfícies.

O fato é que, entre os contaminados, cada um tem uma história para lembrar: eventos, viagens, escola, ambientes, salas de espera, reuniões de negócios etc. Bem ou mal, todos sabem a provável origem de sua contaminação. E sabem o que fizeram depois desse possível fato gerador e os locais em que estiveram, cujos endereços são absolutamente fáceis de serem identificados pela própria pessoa, ainda que possa haver pequenas diferenças e enganos. Seria muito fácil obter, pelo menos, o endereço do trabalho ou estudo e o endereço de moradia de cada pessoa que se comprova contaminada pelo Coronavirus. A ficha de cadastro dos pacientes, que deve ser utilizada pelos locais de atendimento já tem muitas dessas informações (faltariam apenas local de estudo ou trabalho).

Por isso, uma pergunta crucial: alguém está anotando tudo isso? Sim. O acompanhamento internacional da Pandemia exige esse preenchimento e é assim que são feitas as estatísticas internacionais. Ainda que possa haver falhas nesse preenchimento, como a que foi constatada em uma das instituições com muitos casos de Coronavirus em idosos e até mesmo entre seus funcionários, em São Paulo.
O vírus é transmitido pelo contato direto e não sobrevive mais do que 2 minutos em suspensão no ar. Por isso o locus pode ser fundamental. Se informações como essas estivessem disponíveis, a quarentena e o isolamento familiar compulsório ou autodeterminado poderiam ser muito mais tranquilos se anotássemos os locais por onde o vírus, com certeza, já está passeando e atingindo suas vítimas.

Já pensou um mapa com essas anotações? Pelo menos com o endereço de moradia e trabalho/estudo dos contaminados para servir de referência? Por que não? Aliás, essa era uma providência que deveria acompanhar todos as ocorrências e estudos de saúde pública. Para identificar com alguma precisão o espalhamento e as regiões mais ou menos suscetíveis àquela contaminação. Já pensou comparar a ocorrência de dengue versus o coronavirus, cujos veículos de atingimento das pessoas são absolutamente diferentes? Será que neste bairro rico (ou pobre) com um córrego bem cuidado (ou a céu aberto), com serviços públicos mais ou menos eficientes, os fenômenos são mais ou menos intensos num e noutro caso?

A questão do sigilo da informação, desde sempre e repaginada com a conversa recente da Lei Geral de Proteção de Dados, traz cuidados nessa publicação. Mas a informação publicada na escala necessária não precisaria ser o endereço preciso do indivíduo impactado, e sim no máximo seu trecho de logradouro, ou CEP. Locais de serviços, sim, podem e deveriam ser publicados, para a prevenção da população.

Mais ainda, com poucas perguntas aos pacientes, e respostas simples de sim e não, essa pesquisa no momento da identificação da doença poderia auxiliar-nos a compreender melhor o fenômeno e seus perigos. Tratados coletivamente, teríamos o mapeamento dos casos, sem identificação que ofendesse a privacidade de qualquer indivíduo. E, mesmo que as informações fossem limitadas ou imprecisas, as respostas com identificadores geográficos poderiam sugerir locais, regiões, aspectos e rotas com mais probabilidade de haver agentes causadores – cheios de artimanhas – dessa gripe forte.

A estrutura de mapas colaborativos, coordenada por uma entidade de gestão pública reconhecida, foi fundamental para orquestrar os esforços de recuperação do terremoto do Haiti, do tsunami do Japão, e mesmo iniciativas pontuais louváveis nas épocas de incidência de dengue em verões passados, dentre muitos outros.

Cadê o mapa do COVID-19, autoridades? Por que não construir e deixar preparada uma interface para introduzir essas informações em um sistema (pelo próprio smartphone dos atendentes de saúde, por exemplo), pelo menos nas grandes cidades? Teríamos a informação do espalhamento em tempo real.

Até agora os jornais e a televisão só mostram mapas genéricos, por país ou no máximo por Estado. Soluções feitas por fornecedores de geotecnologias, como a ESRI, são muito bem-vindos para uma visão mundial geotemporal do assunto. No entanto, nesses casos, a cidade é, no máximo, uma informação textual mal posicionada. E em interfaces ruins, que não auxiliam a visão do fenômeno e nem mesmo orientam a estratégia de combate à doença.

Qual foi o hospital que anotou o paciente? Em que clínica ou setor de emergência foi feito o diagnóstico? Onde estão os doentes e por onde estiveram? Todas essas informações poderiam ser públicas, obviamente anonimizando-se os dados das vítimas e trazendo alguma imprecisão geográfica que não permita a individualização. Por que não fazer? A partir dessas informações simples, utilizando-se os dados do SUS, a sociedade como um todo poderia reconhecer o eventual esgotamento de recursos de uma instalação hospitalar. Signos de ocupação poderiam induzir rotas para pessoas com sintomas, identificariam clínicas mais próximas disponíveis, hospitais com leitos vagos, a ocorrência dos óbitos e eventuais liberações de espaços de atendimento. A tecnologia está disponível e é barata. Por que não?

Mapas na escala global são fáceis de serem produzidos, dada a estrutura de disponibilização de dados da Organização Mundial de Saúde e organismos semelhantes. Mas a escala do mapa para gestão do combate ao COVID-19, que deve ser bem menor do que cidade, e em estrutura colaborativa, não foi ainda realizada e deve, certamente, ser liderada pelos comitês de crise instaurados pelos poderes locais. Mapa certo, para o executivo público certo, ter melhor apoio à decisão mais acertada nesse momento único de combate a um inimigo invisível e comum a todos, e todos possamos nos beneficiar.

Cadê o mapa?

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