Buscando a reeleição em tempos de pandemia: o caso dos vereadores curitibanos em 2020*

Buscando a reeleição em tempos de pandemia: o caso dos vereadores curitibanos em 2020*

REDAÇÃO

23 de julho de 2021 | 17h04

Breno Pacheco Leandro, Doutorando em Ciência Política (PPGCP/UFPR). Coordenador discente do CIdaPOL e do LPLegis/UFPR. E-mail: bpachecoleandro@gmail.com

Nilton Sainz, Doutorando em Ciência Política (PPGCP/UFPR). E-mail: sainznilton@gmail.com

Patrícia Sene de Almeida, Mestra em Gestão Urbana (PUCPR). Pesquisadora e coordenadora de ensino e pesquisa vinculada ao CIdaPOL/UDESC. E-mail: patriciasenealmeida@gmail.com

Rangel Ramos, Doutorando em Ciência Política (UFPR). E-mail: rangel.ramiro.ramos@gmail.com

Renan Arnon de Souza, Mestrando em Ciência Política (UFPR). Pesquisador vinculado ao CIdaPOL e bolsista do IPEA. E-mail: renan.arnon12@gmail.com

Se o mantra do mundo dos esportes é “chegar ao topo é fácil, difícil é permanecer lá”, no cenário político-eleitoral, a lógica é inversa: é mais fácil manter-se em um cargo eletivo do que furar a bolha da elite política e vencer a primeira eleição.

As eleições municipais de 2020, realizadas em plena pandemia de Covid-19, desafiaram os políticos profissionais a adotar diferentes estratégias de aproximação com o eleitorado.  Prevendo cenários de incertezas e com elevadas taxas de abstenção, a conjuntura política de 2020 reconfigurou as formas de atuação política em todo o país.

Para além das pautas tradicionais das campanhas eleitorais, como saúde, educação, segurança e o cotidiano das cidades, candidatos às prefeituras e câmaras municipais precisaram adaptar sua atuação legislativa e campanha eleitoral, assim, adequando seus discursos e promessas ao cenário pandêmico.

Dentre os aspectos mais observados quando o assunto é reeleição estão a produção legislativa, isto é, a atuação de parlamentares na proposição de políticas públicas e legislação; além do carreirismo político, que nada mais é que a trajetória de parlamentares que acumulam experiências na profissão política, e utilizam do capital político como estratégia eleitoral. Mais recentemente, e sobretudo devido ao contexto pandêmico, outro aspecto ganhou destaque: a comunicação política online.

A comunicação política online, permite com que governos e cidadãos utilizem as mídias digitais como meios de fortalecer as instituições representativas e aproximar sociedade civil e Estado – tendo em vista que os indivíduos não são mais consumidores passivos de notícias políticas, mas desempenham cada vez mais um papel ativo na produção e circulação desses conteúdos.

Tal prática amplia a participação política e valida a rede social enquanto uma estratégia de campanhas eleitorais. Por outro lado, também viabiliza processos de desinformação generalizada, disseminando informações com teor partidário e ideológico com finalidade eleitoreira.

Considerando que os três aspectos tendem a influir, em maior ou menor medida, sobre a reeleição de candidatos, diante do contexto atípico de 2020, nota-se que estratégias eleitorais tidas como mais recorrentes, tais como a produção legislativa, a carreira política e até mesmo o diálogo frente a frente entre eleitor e candidato, precisaram incorporar a dimensão da comunicação online.

Assim, coube a nossa investigação questionar: como variáveis de carreira política, produção legislativa e comunicação em rede social aumentaram ou diminuíram as chances eleitorais dos vereadores curitibanos em 2020?

Para responder a essa questão, analisamos:

  • Dados eleitorais contidos nas bases do Tribunal Superior Eleitoral (TSE);
  • Dados de seguidores e quantidade de postagens de candidatos no Twitter;
  • Dados relativos à carreira política na Câmara de Curitiba (número de mandatos e anos no legislativo);
  • E dados da produção legislativa dos vereadores – tendo como base o repositório da Câmara Municipal de Curitiba.

A Câmara Municipal de Curitiba é composta por 38 vereadores. Destes, em 2020, 34 buscaram a reeleição, demonstrando uma taxa superior aos 89% de reapresentação por parte dos legisladores municipais – considerando aqueles que vieram a assumir o mandato como suplentes.

Mas, afinal, o que dá resultado para ser reeleito?

A nossa primeira dimensão de análise trata da utilização da rede social Twitter na campanha eleitoral de 2020. Na Figura 1, apresentamos o gráfico boxplot com esses resultados.

Figura 1: Desfecho nas urnas versus número de tweets durante a campanha

Fonte: Elaboração própria.

Conforme a Figura 1, os reeleitos para CMC apresentaram maior atividade na rede social Twitter. A probabilidade de sucesso eleitoral foi 9,73 para aqueles que se utilizaram do twitter como ferramenta de campanha. Os reeleitos tiveram uma mediana aproximada a 10 tweets durante a campanha, enquanto aqueles que fracassaram não fizeram uso dessa rede social. O segundo preditor relacionado a comunicação se deu na forma do número de seguidores no Twitter. Revelando uma diminuição da probabilidade de eleição conforme aumenta o número de seguidores do candidato.

Ao passo que observamos uma probabilidade maior de sucesso eleitoral pelos candidatos ativos no Twitter, notamos que a popularidade, medida pelos seguidores não esteve atrelada ao mesmo desfecho, o que torna impreciso assumir que as redes sociais foram um termômetro seguro nas eleições municipais de 2020 em Curitiba, algo já evidenciado em outras pesquisas da área (Braga, 2013).

A segunda dimensão de análise tratou dos efeitos da carreira política sobre a reeleição. Na Figura 2, exibimos o boxplot com os resultados do efeito da idade em relação ao desempenho eleitoral.

Figura 2: Desfecho nas urnas versus idade do vereador

Fonte: Elaboração própria.

É possível perceber na figura acima, que a idade se mostra um fator impactante no resultado eleitoral em Curitiba. A probabilidade de um vereador mais velho ser eleito é elevada. Em termos gerais, os reeleitos possuem uma mediana de aproximadamente 57 anos, enquanto aqueles que fracassaram 47 anos. Outro dado que complementa essa análise se dá através do ingresso na política destes atores. O cálculo de razão de chance demonstrou que aqueles que iniciam suas carreiras mais novos apresentaram 5% de chance de reeleição em relação aqueles mais tardios na atividade política.

Esses dados revelam algo semelhante aquilo demonstrado por Maluf (2006) sobre a CMSP. Assim como no caso citado, os reeleitos para CMC apresentam uma média acima dos 54 anos de idade, sendo essa uma característica importante em termos de representação social. Observando a significância dessas duas variáveis de carreira, na Figura 3 trouxemos um boxplot com os resultados dos anos de carreira política entre os reeleitos e fracassados em 2020.

Figura 3: Desfecho nas urnas versus anos de carreira política

Fonte: Elaboração própria.

A explicação para a relevância da idade no modelo de predição está aplicada a associação com os anos de carreira política dos analisados. Ao observar esses resultados, identificamos que a mediana dos anos de carreira daqueles que foram reeleitos é de 15 anos, enquanto dos vereadores derrotados é de 8 anos.

Este dado ajuda ao elucidar que o processo de profissionalização política desses vereadores se converte em sucesso eleitoral na CMC, o que também serve pra caracterizar um possível processo de envelhecimento da instituição (Maluf, 2006). Esse resultado vai ao encontro do que está registrado na literatura sobre políticos profissionais em nível municipal, onde os anos de carreira política e profissionalismo, geram maiores chances de reeleição e continuidade (Codato et al., 2013).

Por último, a terceira dimensão examinou os efeitos da produção legislativa na CMC. Na Tabela 2, temos que as proposições individuais correspondem à 97% das proposições totais da Câmara Municipal de Curitiba, o que aponta para uma forte atuação individualizada de parlamentares – ao encontro da discussão sobre conexão eleitoral. Outro fato que vale destaque é o volume de produção de proposições totais: aproximadamente 1700 por mês. Ao todo das proposições individuais, 10946 de iniciativa dos 13 vereadores que tentaram reeleição não atingiram o sucesso eleitoral (54%).

Tabela 1 – Percentual de proposições legislativas individuais de vereadores(as) da Câmara Municipal de Curitiba, Paraná, para o ano de 2020

Fonte: elaboração própria com base no Sistema de Proposições Legislativas da Câmara Municipal de Curitiba, Paraná.

Vereadores(as) possuem pouco espaço para a atuação legislativa perante a Câmara; por isso, sendo as proposições individuais (especialmente requerimentos e indicações) as espécies menos burocratizadas e de maior proximidade ao eleitorado, esses parlamentares tendem a priorizá-las (Filho et al, 2014; Facundo, 2015). Todavia, no que diz respeito à reeleição, a atuação individual nem sempre gera retorno individualizado assegurando os votos necessários. Isto é, o volume de produção não garante sucesso eleitoral, pois a produção legislativa individualizada, ao concentrar proposições, pode fazer com que a visibilidade do candidato(a) se limite perante o eleitorado.

E nesse sentido, o resultado mostra uma diminuição na chance de reeleição conforme aumenta o número de proposições individuais na CMC. Esses dados corroboram com Santos e Ramos (2016) ao afirmarem que a produção legislativa, e em especial de requerimentos, “não é um recurso que ajude consideravelmente o candidato na tentativa de eleição, não obstante, o vereador que mais se utilizou desta prática, não conseguiu se reeleger, e o que menos a fez, obteve sucesso” (p. 172).

Juntando as peças, o que o estudo revelou?

A disputa eleitoral de 2020 realizada em meio à crise sanitária da Covid-19 desde já pode ser considerada um marco na reconfiguração das formas de atuação política no Brasil, isso pois os candidatos a prefeito e vereador precisaram adaptar suas estratégias de campanha, atuação legislativa e posicionamento ao presidente Jair Bolsonaro em seus discursos. Para além do agendamento de discussões referentes à saúde pública nas instituições políticas, a pandemia esteve presente durante as eleições como um objeto importante de políticas econômicas e de desenvolvimento, marcando o posicionamento dos candidatos.

O objetivo principal do artigo foi responder o questionamento de como variáveis de carreira política, atuação no legislativo e comunicação em rede social aumentaram ou diminuíram as chances eleitorais dos vereadores de Curitiba em 2020.

Com isso, concluiu-se que a produção legislativa possui uma influência negativa na probabilidade de ser reeleito e que os efeitos da utilização das redes sociais ainda são imprecisos. Sobre esse último aspecto, encontrou-se que não é a quantidade de seguidores que aumenta a probabilidade do vereador ser reeleito, mas sim a quantidade de postagens: a cada 10 postagens a mais, aumenta em quase 10 vezes as chances de reeleição de um vereador.

Já quanto à carreira política, as variáveis de idade e ingresso na política indicam que o maximizador das chances de reeleição consiste em adentrar a CMC o mais jovem possível e em 2020 ser mais velho, pois, garante maior experiência no legislativo municipal e capital político.

* Esse estudo foi originalmente apresentado no I Colóquio do Observatório de Elites: Políticos Profissionais em Análise, promovido pelo Observatório das Elites Políticas e Sociais do Brasil (Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Paraná). Essa e outras pesquisas estarão publicadas em um livro digital em breve. Acesso ao evento: http://www.cienciapolitica.ufpr.br/coloquioelites/

Referências

Braga, S. (2013). O Uso das Mídias Sociais é Um Bom Preditor do Sucesso Eleitoral dos Candidatos? Uma análise das campanhas on-line dos vereadores das capitais das regiões sul, sudeste, e nordeste do Brasil no pleito de outubro de 2012. Revista Política Hoje, 22(2), 125–148.

Codato, A., Cervi, E. U., & Perissinotto, R. M. (2013). Quem se elege prefeito no Brasil? Condicionantes do sucesso eleitoral em 2012. Cadernos ADENAUER, 14(2), 61–84. http://www.academia.edu/download/30351467/versao_final_submetida_Adriano_Emerson_Renato_Cadernos_Adenauer_4_dez_2012.pdf

Facundo, L. D. T. (2018) Conexão eleitoral e atuação parlamentar dos vereadores de Fortaleza. 2015. Tese de Doutorado. Disponível em: http://www.repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/12657/1/2015_dis_ldtfacundo.pdf. Acesso em: 11 de junho de 2018.

Filho, P. M. D., Lima, P. C. G. C. & Jorge, V. L.  (2014) Indicação e Intermediação de Interesses: uma análise da conexão eleitoral na cidade do Rio de Janeiro, 2001-2004. Revista de Sociologia e Política, 22(49), p. 39-60.

Maluf, R. T. (2006). A carreira política na Câmara Municipal de São Paulo (CMSP). 180 p. http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8131/tde-28052007-150534/pt-br.php

Santos, R. M. & Ramos, M. D. Da S. (2012) Produção Legislativa, Campanhas Eleitorais e Voto Distritalizado: Estudo de caso dos Vereadores Candidatos à Reeleição em Curitiba em 2012. Revista Faz Ciência, 18(27).

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