Brasil sairá da crise mais rápido se investir e apoiar mulheres empreendedoras

Brasil sairá da crise mais rápido se investir e apoiar mulheres empreendedoras

REDAÇÃO

07 de junho de 2021 | 15h15

Sabrina Fantoni, Analista de Desenvolvimento do Setor Privado e de Empreendedorismo Feminino no Banco Mundial em Washington DC. Mestre em estudos da América Latina pela Escola de Relações Internacionais da Universidade de Georgetown

Renata Malheiros Henriques, Coordenadora Nacional de Empreendedorismo Feminino do SEBRAE e Co-fundadora da Alumna Mentoria. Mestre em Development Studies pela Universidade de Cambridge, Reino Unido e Women’s Leadership Network Alumna, Universidade de Columbia, EUA.

A atividade empreendedora é um dos principais agentes para o crescimento econômico e a redução da pobreza. A boa notícia é que governos e instituições financeiras ao redor do mundo estão se dando conta de que um atalho para melhorar o cenário de empreendedorismo de um país é investindo em mulheres empreendedoras. Uma análise do Boston Consulting Group de 2019 mostrou que se mulheres e homens em todo o mundo participassem igualmente como empreendedores, até $5 trilhões de dólares poderiam ser adicionados ao PIB global.

No entanto, barreiras invisíveis e crenças culturais enraizadas ainda impedem as mulheres de participarem plenamente da economia. Vieses inconscientes sobre papeis de gênero aprendidos desde a infância contribuem para criar profecias autorrealizáveis entre homens e mulheres. É o que em parte explica o fato de mulheres se dedicarem 17% menos horas às suas empresas e o dobro de horas às tarefas domésticas do que homens, segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A pandemia da Covid-19 tem escancarado essas fragilidades estruturais galgadas na nossa cultura. Desde o ano passado, houve a perda de 1,3 milhão de mulheres à frente de um negócio segundo o Sebrae. Duas razões merecem destaque: mulheres tendem a trabalhar predominantemente em indústrias de baixos rendimentos que foram mais duramente atingidas pela crise (serviços e comércio), e elas são mais confrontadas com vulnerabilidades socioeconômicas e financeiras devido ao peso das múltiplas jornadas (trabalho, filhos e família). A situação é ainda pior para as empreendedoras negras: 79,4% operam sem reservas financeiras no atual cenário econômico. Esse quadro impacta a baixa competitividade média das empresas lideradas por mulheres que, consequentemente, puxa ainda mais para baixo a competitividade agregada da economia do país.

Em tempos de crise, mulheres encontram no empreendedorismo uma forma de driblar o desemprego. Em 2020, os empregos de carteira assinada fecharam no azul para homens, enquanto que para elas, mais de 87 mil postos foram perdidos. Não por acaso, mulheres que iniciam um negócio por necessidade é de 44% frente aos 32% dos homens, como indica estudo do Sebrae de 2019. Isso faz com que mulheres não possam se dedicar ao seu negócio com segurança diante de tantas incertezas e, por essa e outras razões, empresas lideradas por mulheres têm menor porte e faturam em média, 22% a menos que as lideradas pelos homens, segundo dados do Sebrae de 2019. Mulheres empreendedoras estão mais concentradas na situação de Microempreendedor Individual (MEI), que fatura até R$ 81,000 por ano.

Considerando que quatro em cada 10 lares brasileiros hoje são chefiados por mulheres de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e que, entre esses, 41% são sustentados por mulheres empreendedoras, pode-se dizer que o Brasil está perdendo uma grande oportunidade de melhorar a condição de vida não só de milhões de brasileiros bem como da economia como um todo. Os benefícios de se investir em mulheres empreendedoras são inúmeros: mulheres empregam mais mulheres, são menos inadimplentes que os homens apesar de pagarem taxas de juros maiores, e são mais escolarizadas. Um outro estudo do Boston Consulting Group e Mass Challenge, mostrou que, apesar de receberem menos financiamento, as startups fundadas e co-fundadas por mulheres são investimentos financeiros significativamente melhores. Para cada dólar de financiamento, essas startups geraram 78 centavos, enquanto startups fundadas por homens geraram menos da metade disso – apenas 31 centavos.

Para que todos possamos colher os frutos de se investir no empreendedorismo feminino, governos, instituições financeiras e o setor privado precisam adotar medidas que ajudem mulheres empreendedoras a sobreviverem e prosperarem durante e depois da pandemia. Dentre as principais práticas que podem ajudar a mitigar os efeitos dessas e de futuras crises nos negócios liderados por mulheres, estão:

– Acesso a dispositivos digitais como por exemplo, smartphones, tablets, laptops e, tão importante quanto, letramento digital:  Para as empreendedoras, esses dispositivos são peças chaves para que elas atravessem os desafios da pandemia com mais confiança. Uma parcela significativa dessas mulheres trabalha em seus domicílios, e prover alfabetização digital e melhor conectividade a elas é essencial para seus negócios continuarem e prosperarem. Além disso, o letramento digital permite maior participação em redes, uma vez que as soft skills são fundamentais para superar vieses inconscientes e promover fortalecimento empresarial.

– Coleta de dados desagregados por gênero: Esse é um fator crucial para compreender e aconselhar políticas e regulamentos para plataformas digitais. Medir e divulgar dados por gênero é um dos sete Princípios do Empoderamento Feminino (Women Empowerment Principles – WEPs), pacto global da ONU com empresas públicas e privadas para atingir mais equidade no mercado de trabalho. Sem dados desagregados por gênero sobre a inclusão digital e financeira das mulheres, será impossível dizer o quanto já avançamos e o quanto ainda precisamos avançar. As instituições financeiras também se beneficiariam com o rastreamento de dados desagregados por gênero, pois isso as incentivaria a buscarem o mercado feminino subvalorizado e a adaptarem seus produtos e serviços com base nas necessidades do público feminino.

– Acesso ao crédito e serviços não financeiros: O acesso ao crédito continua sendo um dos principais desafios para empreendedoras. Encontrar maneiras de desenvolver modelos alternativos de pontuação de crédito, como o uso de dados móveis, é crucial para que mulheres sem acesso a ativos tradicionais possam construir um histórico de crédito. Além disso, investir em serviços não financeiros como mentoria, redes e suporte para empreendedoras em situação de vulnerabilidade são caminhos não menos importantes para a mudança necessária. Bancos ao redor do mundo têm alcançado ótimos resultados ao investir nesses serviços, segundo os últimos estudos de casos publicados pela Corporação Financeira Internacional (International Finance Corporation – IFC).

Reduzir as lacunas digitais e financeiras e barreiras invisíveis culturais para as empresas lideradas por mulheres deve ser não apenas uma prioridade econômica na atual pandemia, mas também aquilo que definirá o caminho para que empreendedoras prosperem e se recuperem com mais rapidez e eficiência independente de futuros choques externos. Quando as mulheres têm maiores oportunidades para participar da economia por meio do empreendedorismo, os benefícios se estendem não só para suas crianças e famílias, como para suas comunidades e para competitividade agregada do Brasil. O país não sairá dessa crise sem elas.

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Disclaimer: Este artigo foi escrito a título pessoal e não reflete necessariamente posições oficiais do Banco Mundial ou do Sebrae.

 

Fonte

Sebrae. https://datasebrae.com.br/wp-content/uploads/2019/03/Empreendedorismo-Feminino-no-Brasil-2019_v5.pdf

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