Bolsonaro, o anti-globalismo, e a América de Trump

REDAÇÃO

07 de outubro de 2017 | 17h09

Guilherme Casarões, é internacionalista formado pela PUC-Minas e Doutor em Ciência Política pela USP. Leciona Política Externa Brasileira na Fundação Getulio Vargas de São Paulo, onde também é vice-coordenador do curso de graduação em Administração Pública.

 

O deputado federal e candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro (PSC-RJ), embarca hoje para os Estados Unidos. Em seu roteiro estão visitas a instituições financeiras e comerciais, conversa com a comunidade evangélica brasileira no país, palestra com o filósofo Olavo de Carvalho e encontros com personalidades esportivas, como Ana Paula do vôlei e Renzo Gracie, do clã fundador do jiu-jitsu brasileiro. Por que Bolsonaro quer dedicar parte de sua pré-campanha no exterior, e com qual finalidade?

 

Viagens internacionais de presidenciáveis são expediente comum na política brasileira. Buscando amenizar o conservadorismo de seu principal aliado, a UDN, o candidato Jânio Quadros foi recebido com honrarias de estadista em Cuba, no primeiro aniversário da revolução castrista. Em 1989, os três principais contendores – Fernando Collor, Luiz Inácio Lula da Silva e Leonel Brizola – dedicaram parte importante da campanha a turnês no exterior.

 

No caso de Bolsonaro, a imprensa repercutiu sua decisão de visitar os EUA como parte de um plano de reconstrução de sua imagem política. Por um lado, o deputado quer mostrar a investidores internacionais sua “evolução liberal”, estabelecendo uma relação de confiança junto aos mercados que poderá ser decisiva no segundo turno. Por outro lado, deseja construir uma aura de responsabilidade econômica e moderação ideológica que o tornará mais palatável entre eleitores identificados com o PSDB.

 

A experiência histórica, contudo, sugere que exista algo além da dimensão puramente imagética nas campanhas além-mar. Se há um elemento comum que une os pleitos de 1960, 1989 e 2018, o que talvez até sugira um padrão histórico, é o esgotamento das identidades políticas domésticas. Frequentemente tratado como uma simples rejeição à “política”, esse movimento, na realidade, convida a novas maneiras de aglutinação de preferências e expectativas por parte dos eleitores – dentro, é claro, do próprio jogo político.

 

O triunfo de Jânio rompeu com a polarização plebiscitária entre varguistas e anti-varguistas. O segundo turno entre Collor e Lula revelou posições políticas que transcendiam a dicotomia entre situação e oposição ao regime militar. O pleito do próximo ano muito provavelmente ocorrerá fora do espaço comum de disputa entre PT e PSDB.

 

A busca de uma nova síntese política diante da exaustão do modelo anterior apresenta algumas características. A primeira delas é o discurso populista. Antes de ser propriedade de esquerda ou direita, o populismo é uma maneira de se abrirem novos espaços de poder pela negação das dinâmicas político-institucionais de outrora, geralmente pela via do carisma. Esse método pode ser anabolizado pela engenhosidade do marketing político, seja na televisão ou nas redes sociais.

 

A segunda característica, que nos interessa mais diretamente, é a importação das identidades políticas. Na ausência de referências imediatas no imaginário nacional, ideias vindas de fora conferem legitimidade pelo ineditismo. Nas ideias diplomáticas e até mesmo no figurino, Jânio mimetizava o neutralismo afro-asiático que ganhara força nos anos anteriores por meio de figuras como o egípcio Gamal Abdel Nasser ou o cubano Fidel Castro, antes de sua guinada pró-soviética.

 

Em 1989, em meio à turbulência que marcou o fim da Guerra Fria, as três grandes “novidades” da política nacional buscavam abandonar quaisquer referências do passado e projetar sua ideia de Brasil nas experiências globais. Lula quis moldar sua identidade a partir do novo sindicalismo norte-americano e do movimento Solidarność de Lech Wałęsa, na Polônia, marcado pela forte relação com a Igreja Católica. Collor oscilou entre a social-democracia de Felipe González e o neoliberalismo de Margaret Thatcher. Brizola elegeu-se vice-presidente da Internacional Socialista de Willy Brandt e Mário Soares.

 

Por maior que fosse a concorrência eleitoral à época, os três candidatos colocaram o pé na estrada, sacrificando tempo e energia do corpo-a-corpo típico de campanha. Afinal, a construção das identidades políticas de fora para dentro exige contato direto com a fonte. A única parada comum foi um encontro com o Papa João Paulo II, no Vaticano. De resto, as estratégias – e as fotos – variaram significativamente.

 

Bolsonaro, nesse sentido, saiu na dianteira. A mais de dois anos da disputa presidencial, levou seus filhos numa alardeada visita a Israel, com o duplo propósito de fortalecer seus vínculos com as comunidades evangélicas, muitas das quais possuem fortes vínculos simbólicos com a Terra Santa, e de cortejar a turma de Benjamin Netanyahu, que já vinha acumulando desavenças com os governos do PT. Aproveitou para ser batizado no rio Jordão pelo Pastor Everaldo, da Assembleia de Deus.

 

A ida para os Estados Unidos é um passo ainda mais ambicioso e pouco tem a ver com o liberalismo. Ainda que ideias liberais estejam se tornando cada vez mais populares entre as classes médias urbanas e alguns setores empresariais, Bolsonaro tem consciência de que esse campo ideológico não será sua tábua de salvação eleitoral. Além disso, disputará espaço com candidatos muito mais afinados com a ortodoxia econômica, como João Dória, Geraldo Alckmin ou Henrique Meirelles.

 

Quando Bolsonaro desembarcar em Nova York, ele dará o primeiro passo de sua auto-promoção como o primeiro candidato anti-globalista do Brasil. Em linhas gerais, o globalismo é a ideia de que está se consolidando, em nível global, uma hegemonia cultural totalizante pautada por valores progressistas, seculares e cosmopolitas, que são usualmente identificados com a agenda sexual de minorias, pautas ambientalistas e discursos de igualdade racial e de gênero.

 

Essa agenda globalista, impulsionada por magnatas financeiros como George Soros e políticos de diversos matizes de esquerda ao redor do mundo, seria construída à custa das tradições e interesses culturais, sociais, religiosos e intelectuais do povo comum. A derrocada econômica, como vista na América pós-2008, seria a última etapa da devastação cultural imposta pela complexa rede político-econômica representada, no plano global, pelas Nações Unidas, pelos defensores dos direitos humanos e do meio ambiente e pelo estímulo desenfreado a fluxos migratórios e de refugiados.

 

Nos Estados Unidos, Donald Trump foi o único candidato a compreender que a clivagem política não ocorria mais entre as linhas partidárias, mas na trincheira entre globalistas e anti-globalistas. Venceu as eleições tocando, precisamente, nas preocupações deste povo comum, em particular os brancos de classe média baixa, perdedores extemporâneos da globalização econômica e cultural. Misturou xenofobia, islamofobia e pitadas de antissemitismo a promessas impraticáveis de recuperação da grandeza industrial do país.

 

No Brasil, as ameaças ao povo comum, ou ao “cidadão de bem”, são mais esparsas. São os haitianos, os sírios, os traficantes de drogas, os esquerdistas, as feministas. São, sobretudo, todos aqueles que supostamente atentam contra os elementos tradicionais da cultura brasileira: a fé em Deus, a crença na família e o amor à propriedade. Em larga medida, a popularidade de Bolsonaro se sustenta no ataque a tudo o que pareça pertencer ao projeto globalista. Isso já vem o posicionando como forte candidato ao segundo turno das eleições.

 

O que falta a Bolsonaro, até o momento, é uma estratégia consistente. Após desavenças com a própria base evangélica que o abrigou, a viagem aos EUA servirá para dar contornos mais claros ao seu projeto eleitoral. Mais do que vender um discurso liberal, interessa ao candidato conhecer melhor as engrenagens anti-globalistas que redefiniram a política norte-americana. A associação com Olavo de Carvalho, voz conservadora que vem ganhando projeção entre jovens, amplificará essa retórica. Se nada disso quer dizer que Bolsonaro chegará ao Planalto em 2018, ao menos significa que devemos dar a devida atenção aos passos dados pelo candidato, no Brasil e no mundo.

 

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