Bolsonaro já foi longe demais!

Bolsonaro já foi longe demais!

REDAÇÃO

26 de novembro de 2021 | 15h10

José Antonio G. de Pinho,  Professor Titular Aposentado – Escola de Administração – UFBA. Pesquisador na FGV-EAESP

O título deste breve texto comporta duas linhas de análise. Por um lado, expressa uma visão crítica do que tem sido esse chamado governo Bolsonaro. Por outro lado, representa uma tentativa de entender o próprio Jair Bolsonaro, enquanto homo políticus. Uma síntese ao final prescruta por onde Bolsonaro ainda pode ir, aonde pode chegar.

Pegando o primeiro ramo, Bolsonaro desafiou e desafia todos os cânones, padrões que existem para balizar um governante. Certamente, outros governantes podem ir, ou ter ido, tão ou mais longe do que ele próprio, certamente alguns foram. Mas, na era da informação e da comunicação, ainda mais digital, onde tudo se vê, tudo se ouve, tudo se sabe, fica difícil encontrar outro igual a ele, salvo a “honrosa” exceção de Donald Trump. Com uma obtusidade explícita se colocou contra a vacinação frente a uma pandemia, defendeu tratamentos precoces comprovadamente ineficazes, do que resultou mais de 613 mil mortes, sendo que grande parte poderia ter sido evitada. Desta pecha de partícipe nestas mortes não pode fugir e nem se isentar.

Na questão ambiental, sua atuação tem sido o tempo todo no sentido de destruir ao invés de preservar, levando a um “liberou geral” para o desmatamento, para as queimadas, para a mineração ilegal em áreas de preservação e em reservas indígenas, colocando em risco explícito a sobrevivência desses povos. A questão ambiental merece olhar atento. O presidente fugiu da COP-26 em Glasgow, refugiando-se na Itália, mostrando-se uma figura patética, andando pelas ruas de Roma, fazendo turismo enquanto os líderes do G-20 discutiam temas estratégicos para a sobrevivência do Planeta e da humanidade. Já na Assembleia da ONU, deu mostras desse comportamento estranho, vagando pelo ambiente, olhar vago e distante, como um inimputável, claramente desconfortável naquele ambiente que lhe é estranho.  Vergonha cívica.

Vindo das fileiras do Exército, poderíamos lhe aplicar a analogia da marcha: dos 20 marchando, 19 vão, em um sentido (em que pese divergências e dissensos), enquanto ele marchava em outro, sozinho. Para o evento da COP-26 mandou seu ministro do Meio Ambiente que mentiu deslavadamente, omitiu informações já conhecidas e que só reiteravam o que se sabia sobre o comportamento criminoso desse governo. Assumiu compromissos que sabe não são para serem cumpridos. Ainda reclamou da falta de contrapartida financeira por parte dos países ricos, quando é notório internacionalmente que o Brasil só tem a apresentar aumentos de taxas de desmatamento. A mentira é praticada sem constrangimentos, Pinóquio ficaria envergonhado. Mais uma vergonha cívica. Agora, o episódio das balsas de mineradores no Rio Madeira, visível à luz do dia para conhecimento do Brasil e do mundo, revela como esses agentes se sentem acobertados por este governo anticivilizatório.

Nessa questão ambiental, aliás, estamos mal servidos. O vice-presidente, General Mourão, abertamente desafeto do Presidente, não mostrou ao que veio no comando do Conselho da Amazônia, as florestas ardem debaixo do seu quepe e ele tergiversa, busca explicações vagas para a derrubada geral.  Os resultados não são nem pífios, pois de positivo não tem nada. Estranhamento maior é o fato das FFAA que, em outras épocas se diziam preocupadas e defensoras da Amazônia, identificando como inimigas as potencias mundiais, quando se vê claramente que o inimigo é o próprio governo atual, com o desmonte dos órgãos de controle e fiscalização. Outra vergonha cívica.

Vamos ficar nesses dois aspectos de uma longa lista de arroubos destrutivos desse insólito governo. Esta pequena amostra e tudo que se sabe sobre o presidente nos leva a afirmar que Bolsonaro já foi longe demais, do ponto de vista de quem percebe suas intenções golpistas, ditatoriais e seus impulsos antidemocráticos.

Cabe olhar agora, de forma panorâmica, para a trajetória do cidadão Jair Messias Bolsonaro, enquanto homem político.  Em uma carreira atribulada de curta duração no Exército, é reformado (aposentado) aos 33 anos de idade. Percebe uma janela de oportunidade e candidata-se à vereador no Rio de Janeiro com pautas corporativistas para membros das Forças Armadas e Policiais. Cumpre apenas pequena parte desse mandato e postula um lugar na Câmara Federal para a qual é eleito, mantendo uma posição low profile abrigando-se no baixo clero da Casa. Só no último mandato, de um total de sete, consegue uma votação expressiva.

Durante esse longo tempo tece acordos e apoios com setores milicianos de seu Estado. Através de participação em programas de TV de cunho apelativo torna-se mais conhecido. Concorreu também para isso a declaração de admiração a um notório torturador do regime militar. Assumindo um comportamento antidemocrático, homofóbico e misógino, candidata-se ao cargo de Presidente, sendo até então visto por muitos como exótico.

Em sua campanha eleitoral, o fatídico episódio da maldita facada foi decisivo para sua vitória. Até esta ocorrência, o candidato Jair Bolsonaro ocupava a faixa de 20-25% das intenções de voto nas pesquisas eleitorais. Na semana seguinte ao ato sobe para a faixa de 25-30%, onde se mantém nas duas semanas seguintes. Na semana da eleição dá um salto para a faixa de 30-35% e às vésperas do pleito chega a 40%. A facada ensejou certa comoção popular em setores simpáticos ao ex-capitão, mas o fator decisivo foi a ausência do candidato aos debates das emissoras de TV.  Não indo aos debates, não foi possível perceber ou confirmar, para muitos eleitores, a estultice e despreparo, ou desqualificação, deste candidato para ocupar o mais alto cargo da Nação. Bolsonaro calado é um grande ativo.

Nem havia tomado posse e veio à tona o episódio das “rachadinhas” que envolvia seus filhos. A preocupação maior do presidente passa a ser a preservação destes além de sua própria. Esse ponto é decisivo para uma análise do futuro. As tentativas, mais ou menos explícitas de executar um golpe de Estado, foram frustradas pela ação solerte da parte mais forte da mídia, do STF, do TSE, PF, MP, apesar de alguns desmontes realizados, e setores da sociedade civil organizada.

Inviabilizadas as ações golpistas, Bolsonaro certamente tem consciência que o único caminho disponível reside na eleição. Para tanto, tem que chegar ao G2 (emulando o Campeonato Brasileiro). No momento atual (praticamente 10 meses do pleito), o cenário já lhe é bastante desfavorável, pois ocupa a 2.a posição. As medidas na área econômica, social, militar e política (filiação ao PL e associação ao centrão) não parecem ser suficientes para reverter a tendência de baixa da sua candidatura.

O elemento decisivo não serão acordos, acertos, emendas para seus sócios, mas votos dos setores populares em especial. Se na hora H, as pesquisas indicarem que corre sérios riscos com um terceiro candidato a acossá-lo, Bolsonaro irá pagar para ver? O mesmo pode deve acontecer caso vá para o 2.o turno em condições desfavoráveis. Acreditamos que não hesitará em desistir da candidatura à Presidência, trocando-a pelo Senado, o que lhe garantiria, a princípio, oito anos de segurança jurídica, caso eleito. Sem facada, o mundo volta a uma certa normalidade, 2022 não será 2018 revivido.

Bolsonaro já foi longe demais do ponto de vista de suas intenções e pretensões, assim entendemos. Algumas considerações finais para qualificar esta interpretação. Por várias manifestações suas e da sua organização familiar, Bolsonaro pensava que seria fácil dar um golpe e realizar seus instintos antidemocráticos. Isso não se realizou. Como não tem nenhum projeto para o país, nunca teve, a não ser o montado em elementos das sombras, qualquer suposta frustração será menos importante do que salvar a sua pele e da filharada.

Por tudo que causa de estrago e destruição, e ainda pode causar, Bolsonaro já foi longe demais! Explorando esse último ponto para encerrar, isso tudo que foi argumentado e especulado, não quer dizer que Bolsonaro é carta vencida, fora do baralho eleitoral. Por todo seu ethos destrutivo antidemocrático e sua personalidade de um ser degenerado, continuará tentando através de expedientes escusos, para manter-se vivo na corrida eleitoral. Quem imaginaria que existe um orçamento secreto? Bolsonaro não tem limites para realizar seus objetivos.

Vale ainda um voto de lamento pela não realização do seu impeachment, pois cada dia a mais de Bolsonaro no exercício do poder é o aumento da conta da destruição da nação em vários aspectos de sua vida. Nesse caso, a conta não vai apenas para o presidente, mas para todos que não se empenharam na sua retirada democrática do poder.

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