Bolsonaro e o sentimento lúgubre da verdade

REDAÇÃO

31 de julho de 2019 | 15h18

Daniel Pereira de Andrade, professor de Sociologia da FGVSP.

“É assim que eu sinto”. Essa foi a resposta dada por Bolsonaro ao questionamento de jornalistas quanto às fontes em que ele se baseava nas afirmações polêmicas dadas nos últimos dias. A relação entre verdade e sentimento parece constituir uma importante dimensão do bolsonarismo e merece ser analisada com mais cuidado. A simples alegação de que se trata de mentiras e manipulação grosseira é parte, mas não dá conta inteiramente do problema.

Vejamos inicialmente alguns exemplos de tal procedimento por parte de Bolsonaro. O mais recente é o caso do comentário sobre a “verdade” concernente à morte do pai do presidente da OAB, quando afirmou que ele teria sido eliminado por seus companheiros da esquerda, e não pela Ditadura Militar. Confrontado por repórteres com documentos das Forças Armadas e com depoimentos de ex-agentes que atestam a prisão e assassinato pela repressão do Estado, Bolsonaro chamou as provas de “balelas” e esclareceu de onde tirou sua versão: da maneira como sentia. Outro episódio foi o que envolveu a publicação dos dados científicos do Inpe sobre o desmatamento da Amazônia, em que a crítica de Bolsonaro veio no mesmo registro: “nosso sentimento é que isso não condiz com a verdade”. E, para ficar apenas em mais um exemplo, dessa vez protagonizado pelo porta-voz da presidência, quando questionado pela imprensa sobre a qual crime do jornalista Glenn Greenwald o presidente se referia e com base em quê, Rêgo Barros se limitou a afirmar “que não haveria dúvidas sobre o crime”. Diante da insistência do jornalista na pergunta, a resposta foi: “Essa é a percepção pessoal do presidente”.

A relação entre verdade e sentimento proposta pelo bolsonarismo não se reduz à simples mentira porque ela remete a outro regime de veridicção. O critério da verdade não se define pela adequação à realidade. Ao remeter a verdade ao sentimento, o critério passa a ser o do pressentimento, o da inspiração ou o da revelação. Trata-se de uma verdade baseada em invidências, não em evidências. Uma verdade criada por uma profusão emocional, e não constatada pela observação empírica. Por isso mesmo, trata-se de uma verdade baseada em convicções, não em provas, para lembrar a acusação de um promotor a um réu bastante conhecido.

Esse critério de verdade está muito mais próximo da religião do que da ciência ou mesmo do direito moderno. Ela remete, e não por acaso, a cultos que promovem o êxtase como forma de conversão, nos quais a presença de Deus é propriamente sentida e não (ou não apenas) praticada eticamente. Pode se perceber aqui uma afinidade eletiva entre as proposições de Bolsonaro e parte de sua base eleitoral evangélica ou cristã. Essa revelação emocional explica em larga medida a cisão entre verdade religiosa e preceitos éticos cristãos, substituindo o amor ao próximo pelo ódio na guerra contra aquilo que é sentido e visto como sendo o mal.

Outro ponto importante é que essa verdade só poder ser comunicada a e compreendida por aqueles que sentem da mesma forma. Trata-se de uma espécie de contágio ou empatia lúgubres. Para quem sente como Bolsonaro, para quem tem a mesma convicção antipetista, o mesmo pressentimento paranoico contra as forças ocultas do globalismo, o mesmo ódio contra o diferente, pouco importa se cientistas apresentam dados, se advogados oferecem provas, se a imprensa publica documentos, se historiadores reconstituem fatos. Nada disso é capaz de alterar a convicção assentada em um forte e persistente sentimento. Sentimento de ódio que inclusive se volta contra aqueles que veem e sentem de outro modo.

Há, no entanto, uma base real, factual mesmo, no mundo social que produz esse tipo de experiência afetiva que distorce a própria realidade. Há em primeiro lugar a experiência daqueles marcados pela violência, seja por terem sido vítimas, seja pelo seu exercício cotidiano. Não por acaso o bolsonarismo deita raízes nas regiões onde o conflito entre criminosos saiu de controle e igualmente nas forças policiais e militares. O desejo de destruição também encontra lugar no peito daqueles que, participando e acreditando na concorrência de mercado, se viram derrotados e mesmo sem perspectivas em um contexto de crise permanente e sem solução. Precarizados, desempregados, sem reconhecimento dos pares, vendo suas condições de vida se deteriorar e não possuindo recursos para alterar individualmente a situação, procuram estender as ruínas de seu futuro para o conjunto da sociedade. Na impossibilidade de levar uma vida com valor nesse mundo, seu (res)sentimento se volta para a aceleração da destruição desse mesmo mundo. Destruição não por uma saída revolucionária para outro projeto de sociedade, mas pela radicalização das violências contidas na própria ordem atual em vias de decadência. Apoiam assim a aceleração sem freios das mesmas medidas que conduziram à crise política e econômica e que só a agravam: a destruição de direitos trabalhistas e sociais, o fim de qualquer regulação ambiental e dos mercados, a eliminação das garantias de direitos humanos e o desmoronamento das instituições democráticas. Para esses, argumentos esclarecidos, baseados em evidências científicas, bem como a acusação moral dos progressistas que procuram preservar a democracia e as liberdades só ressoam como mais humilhação. Só reforçam, portanto, o mesmo sentimento de ódio, o mesmo desejo de violência e destruição que alimenta a visão de mundo do bolsonarismo.

Dado o tipo de sentimento que revela a verdade a Bolsonaro, parece ser o anjo da morte a se manifestar para o capitão do apocalipse.

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