Bolsonaro e o ethos da violência e morte

Bolsonaro e o ethos da violência e morte

REDAÇÃO

31 de março de 2020 | 16h32

José Antonio Gomes de Pinho, é professor Titular Aposentado pela UFBA – Escola de Administração e pesquisador da FGV-EAESP

Desde a campanha e o desenvolvimento de seu governo, Bolsonaro exibe um comportamento sistemático de violência e agressividade. O elenco de manifestações carregadas destes valores é imenso e este artigo terminaria sem ter dado conta de todas. Assim, vamos selecionar apenas algumas para comentar. Para começar, vale lembrar aquela foto do então deputado federal pescando em uma área proibida. Certamente, ele tinha conhecimento que era proibido, verificando-se uma opção pela transgressão. Ainda em seu tempo de deputado, o clímax foi atingido quando, por ocasião da votação do impeachment da presidente Dilma, se manifestou fazendo apologia a um notório torturador da época da ditadura.
Já empossado presidente, a tônica de seu governo tem sido o incentivo à violência, à destruição e à morte. Os exemplos são vários. Pinçando alguns, temos a questão das cadeirinhas para crianças nos carros, os radares nas estradas, a liberação de agrotóxicos proibidos, a “implosão” do Inmetro, a polêmica do DPVAT, a liberação de mineração em terras indígenas. A morte pode assumir proporções dantescas quando se trata de suas posições em relação à Amazônia, impactando regiões inteiras do país e prejudicando milhões de vidas. O desmantelamento de instituições que monitoram esse espaço implicou em redução do número de multas, outro incentivo aos transgressores e à morte.
O governo Messias Bolsonaro também se especializou em atacar instituições ligadas ao ensino e à educação, em especial, as universidades e centros de pesquisa, revelando não só sua visão anticientífica como uma tentativa de desmontar centros de inteligência no País, outra expressão do seu ethos de morte.
Mais recentemente, reiterou seus ataques à imprensa, à mídia em geral, focando mais ainda em jornalistas mulheres, o mesmo em relação às escritoras e atrizes, evidenciando tanto sua incapacidade de suportar críticas quanto um lado misógino, presente em várias manifestações.
E agora, nessas últimas semanas, com o País e o mundo mergulhado na pandemia do coronavírus, Messias Bolsonaro superou todas as tristes marcas anteriores, assumindo uma total irresponsabilidade colocando em risco a população do País ao circular junto às pessoas. Verifica-se neste episódio uma revelação plena de seu ethos de morte.
Na contramão do seu ministro da saúde, bem como da OMS e de líderes de praticamente todos os países e variadas posições ideológicas, ele continua defendendo a volta às atividades normais para a maioria da população, minimizando jocosamente a pandemia, o que tem contribuído para sua desmoralização aqui e no exterior.
Com isso, Messias Bolsonaro cada vez se isola mais, o que nos faz lembrar da frase do presidente Collor, já agonizante: “não me deixem só”. Bolsonaro não iria acionar este expediente, pois se sente um “atleta” imune ao vírus. Ademais sua crença em uma teleologia messiânica, o presidente se imagina como alguém que veio para salvar o Brasil das forças da esquerda, que em seus delírios persecutórios vê por toda parte.
Vale comentar que, enquanto oficial do Exército, Jair Bolsonaro era um dentre milhares, como deputado federal era um entre 513, só que como presidente é um em um. Agora, o estrago soa muito maior. Aliás, é oportuno refletir sobre o fato da sua instituição de origem não ter feito esforços para mantê-lo, preferindo transferi-lo para a reserva precoce, com 34 anos de idade, ou seja, aposentadoria com esta idade. Esse ethos de violência ainda mostra-se presente em todas as vinculações com as milícias no Rio de Janeiro.
Dado o cenário apresentado acima, convém pensar sobre este isolamento de Messias Bolsonaro. Afinal de contas, quem (ainda) está com o presidente? Bolsonaro, de forma esperta, cercou-se de generais, mas cabe perguntar se a instituição militar embarcaria com ele nesta aventura transgressora ou, pensando em algo maior, em alguma ação rompedora da ordem instituída. Na classe política, cada vez mais ocorrem defecções, inclusive entre apoiadores dos primeiros momentos, que são tratados também com a marca de violência do chefe.
Convém ainda perguntar: e as classes empresariais vendo todas expectativas da recuperação econômica se frustrarem, não só pelos efeitos do coronavírus, mas da própria incapacidade endógena nesses primeiros 14 meses de governo, perfilarão ao lado do ex-capitão ou debandarão? Por fim, e os devotos, religiosos ou não? Como estão, continuam fiéis ao “mito”? Se em um ato de desespero, em um arroubo populista, gritar para não deixarem-no só, quem irá socorrê-lo? A História brasileira não é pródiga, nada pródiga, em exemplos.

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