Bolsonaro e o bolsonarismo.

Bolsonaro e o bolsonarismo.

REDAÇÃO

18 de dezembro de 2020 | 17h22

José Antonio Gomes de Pinho, professor titular aposentado – Escola de Administração – UFBA; Pesquisador FGV-EAESP.

Certamente ainda é cedo para falar em bolsonarismo, enquanto uma corrente estabelecida, se é que se falará.  Fazendo um paralelo com o lulismo, este aconteceu quando o líder superou o partido, quase ganhando vida própria. Bolsonaro não se enquadra neste caso, pois nem partido tem, o que lhe caracteriza bem, à margem das instituições. Um suposto bolsonarismo parece difícil de ser enquadrado em qualquer paradigma conhecido, embora sua ação contenha traços da alt-right internacional, mas as particularidades locais e dele próprio assumem um papel preponderante, conformando talvez uma infausta alt-right tropical. A questão é complexa, apresentando o ex-capitão presidente, traços autocráticos, populistas, permeado por um forte conteúdo de obscurantismo e negacionismo, incrementados pela presença ativa de militantes destas cepas nas redes sociais.  A emergência de um possível bolsonarismo passa, necessariamente, no mínimo por sua vitória na próxima eleição presidencial de 22, à qual já se declarou candidato precocemente com meros seis meses de governo. Nunca se assistiu um presidente mal tendo esquentado a cadeira presidencial se declarar candidato em uma longínqua disputa. Mas é isso, o poder cria ambições maiores, já nos dizia Hobbes, ainda que com Bolsonaro muito seja fora da hora e do contexto.

Mesmo sendo essas questões profundas e pertinentes, vamos nos restringir aqui em examinar as possibilidades de vitória de Jair Bolsonaro em outubro de 2022, a partir da análise das eleições municipais recentes, conscientes das diferenças expressivas entre o espírito dessas duas disputas. Entendemos que podem servir de sinalização e tendência para um futuro, não tão perto assim, mas também não muito distante. Não vamos nos valer de resultados de pesquisas, ainda que de importância vital para a democracia, mas que são expressões de um dado momento, um flash da realidade naquele momento, expressão da conjuntura.

Mais especificamente vamos nos valer dos municípios onde o presidente emprestou seu apoio a candidatos ao cargo de prefeito. Dos 16 candidatos a prefeito que Jair Bolsonaro apoiou apenas cinco foram eleitos, nos seguintes municípios: Anápolis (GO), São Gonçalo (RJ), Ipatinga (MG), Parnaíba (PI) e Rio Branco (AC). Chama atenção o fato de Bolsonaro só ter logrado êxito com os candidatos que apoiou em uma capital (Rio Branco) e apenas em três municípios do conjunto de 95 dos que tem 2.o turno. E neste conjunto que compreende quase 40% do eleitorado nacional e com um elevado potencial de reverberação do jogo político, o presidente teve sucesso, ainda que sem apoiar diretamente, apenas em outros três municípios (Vitória, Campinas e Sorocaba), através do Republicanos, partido mais afinado com sua ideologia. Como se verifica, é um resultado muito pífio, mas isso não quer dizer que ficará sem palanque em 2022, dada sua aproximação com o Centrão, que, como se sabe, avaliará permanentemente onde está colocando suas fichas.

Outro componente ainda merece ser trazido à cena para analisar a viabilidade de um suposto bolsonarismo. Quando o presidente deixou o PSL e partiu para a carreira solo de construir o seu partido, havia uma sensação que isso seria alcançado com relativa facilidade, dada a votação que tivera poucos meses atrás, mas tal não sucedeu, o que pode ser avaliado como a escassez de as adesões ao seu projeto partidário, que não atingem nem os estimados 15% de bolsonaristas raiz.

Porém, mais importante que olhar essas poucas vitórias, vale a pena focar nas muitas derrotas, algumas emblemáticas pelo que representam, chamando atenção para três casos: São Paulo, Rio e Fortaleza. Neste último, o candidato, Capitão Wagner, que liderou a revolta dos policiais militares no começo do ano, até tentou esconder o apoio presidencial, mas a afinidade ideológica entre os dois é inquestionável. Nos casos de São Paulo e Rio, foram derrotas retumbantes por (i) serem as duas principais capitais, (ii) pelo fato do presidente ter se dedicado à campanha (embora minimize o fato) e (iii) por serem candidatos com forte identificação com o apoiador. O caso de São Paulo com Russomano é bem ilustrativo. Ainda que seja um contumaz perdedor, na eleição de 2016 teve 790 mil votos, e agora, com o apoio explícito de Bolsonaro, alcançou apenas 560 mil votos, uma queda apreciável. No Rio de Janeiro, deu-se o mesmo. Crivella concorria à reeleição, havia tido 842 mil votos (referentes ao 1° turno) em 2016 e amealhou somente 576 mil votos (1° turno) em 2020, uma encolhida estrondosa, apesar do apoio do presidente. Assim, o ex-capitão como cabo eleitoral mostra-se pouco convincente e efetivo, afastando eleitores e votos.

No entanto, sempre pode ser argumentado, e com razão, que esses dois ou três casos não seriam bolsonaristas raiz. Então, vamos a um caso, e mais raiz não poderia ser: seu filho Carlos. Vereador desde os 17 anos, teve sempre uma votação relativamente pequena, até explodir em 2016, com 106 mil votos, quando o nome do pai já se tornava nacional, ocupando o primeiro lugar no ranking dos eleitos. Agora, porém, viu sua cesta de votos cair para 70 mil, uma queda de um terço do que havia alcançado quatro anos atrás, quando seria razoável se esperar um crescimento nos votos conseguidos, dada a posição de seu pai. Pode parecer prosaico, mas é assim que as coisas funcionam em um clã.  A primeira ex-mulher do presidente, também não decolou, alcançando pouco mais de dois mil votos. Destino mais ingrato teve a “funcionária” Wal do Açaí, com duas centenas de seguidores. Assim, parece claro que a grife Bolsonaro não está nada bem no mercado de votos.

Evidentemente extrapolar esse cenário para 2022 seria leviano, temeroso, mas parece difícil o presidente reverter este quadro. O fim do auxilio emergencial, a difícil recuperação econômica, a fila de desempregados, a persistência da pandemia. Por ora, a estratégia política é se entregar ao Centrão, para viabilizar os seus efetivos projetos: a salvação da pele dos filhos e sua própria, e tentar a reeleição. Daí a importância da eleição do presidente da Câmara para o próximo mandato. Componente desta estratégia também se encontra a colocação de pessoas de confiança em instituições de controle, até onde conseguir.

E até a próxima eleição presidencial ainda há muito espaço (ou tentativas, pelo menos) para destruição, para criação do caos, agora com a reativação do excludente de ilicitude e a irresponsabilidade doentia no tratamento da questão das vacinas, agora sendo parcialmente mitigada, por pressão da sociedade e da opinião pública.  Por outro lado, a devastação da Amazônia continua em curso, apesar de discursos oficiais em contrário, mais uma expressão do negacionismo. Como se vê, ainda há espaço para a boiada continuar passando, o que só reforça a necessidade de vigilância por parte dos segmentos sérios da Nação.

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