Blitz contra a vida.

Blitz contra a vida.

REDAÇÃO

13 de outubro de 2020 | 13h20

José Antonio G. de Pinho – Professor Titular Aposentado – Escola de Administração – UFBA; Pesquisador FGV-EAESP.

 

Na sua profunda ignorância da realidade, o Presidente Jair Bolsonaro deve ter pensado, ao que tudo indica, que governar seria mais fácil do que se imagina. O modelo para se eleger combinava, por um lado, uma dose de críticas irascíveis ao PT e a um suposto socialismo e comunismo, alimentada pela vida em caserna, ainda que breve (15 anos) e críticas contundentes aos costumes que teriam se desenvolvido em 13 anos de governos petistas e que estariam corrompendo a sociedade. A isso se juntavam dois outros carros chefe: 1) combate à corrupção, o que era risível aos olhos mais perspicazes, por conta do telhado de vidro da casa política do seu clã, exibindo várias rachaduras. Depois de cevar o Ministro da Justiça e Segurança Pública, durante alguns meses, acabou descartando-o, por motivos bem conhecidos, expondo que, verdadeiramente, o combate à corrupção não compõe sua agenda; 2) a condução da Economia, entregue ao super Ministro Paulo “Ipiranga” Guedes. O Presidente parecia genuinamente acreditar que a Economia iria deslanchar e, então, não daria para ninguém segurar o seu projeto de reeleição, tornado público com meros seis meses de mandato. Não precisa ter muito faro econômico para perceber que o pífio resultado do primeiro ano da gestão guediana indicava que a recuperação da Economia, o take-off, seria muito mais dificultoso do que se supunha.

Mas como sempre pode ficar pior, veio a pandemia, tornando-se cada vez mais explícito o comportamento de negação da realidade do presidente, provocando a demissão de ministros da saúde afeitos à realidade e aos protocolos para o combate do vírus. Por sua vez, a questão ambiental, que vinha sendo conduzida de acordo com as ideias bolsonaristas e do ministro do contra ambiente (liberação tácita do garimpo e de ações de madeireiros e grileiros, desmatamentos,queimadas, invasão de terras indígenas, etc), ganha um impulso com a janela de oportunidade aberta com crise do Covid, com a aceleração da boiada, como tão à vontade exprimiu o ministro. O desmonte das instituições que lidam com a questão tem sido prática ativa de consecução desses objetivos nefastos.

O que se tem observado nesses últimos meses não surpreende, pois já estava presente no portfólio do ainda deputado federal e do candidato Bolsonaro, um absoluto desdém pela vida dentro da moldura de um profundo negacionismo, colocando-se sempre ao lado das forças obscurantistas da existência. Com a pandemia, nega a realidade até onde pode, fazendo vistas grossas e ouvidos moucos ao sofrimento e riscos de morte da população, tratando a questão sempre em tom de blague e chacota. Não fosse o compromisso e espírito dos governadores, prefeitos e profissionais da saúde, teria acontecido uma crise de proporções muito maiores. As atitudes levianas chocaram muitos brasileiros/as e a opinião pública mundial. Em poucas vezes, manifestou solidariedade e empatia com as vítimas e suas famílias. E quando o fez, foi de modo protocolar.

Na questão das queimadas na Amazônia e no Pantanal, adota postura semelhante, negando a vida e sua valorização em outros segmentos, como a vegetal e a animal. Quando vem a público para se manifestar sobre a destruição que acontece tergiversa, imputando a responsabilidade em inimigos imaginários, outro traço de sua personalidade. Aliás, não seria de se esperar outro comportamento, dada sua posição conhecida na área, aliás, reiterada no patético discurso na ONU.  E agora, sem mostrar qualquer constrangimento, parte para a vida incrustada nos manguezais e restingas, na ordem biológica, desconhecendo completamente sua importância para o equilíbrio da natureza. Parece que sua divisa é: onde existe vida que se faça a morte.  Como dito acima, isso não é o Bolsonaro Presidente, mas o Bolsonaro de longa tradição, que louva torturador, que propõe a liberação de armamento e munição para a população civil, e daí para milícias, sem qualquer empatia ou comiseração com o sofrimento alheio e com a natureza. Uma primeira manifestação oficial deste posicionamento encontra-se na exoneração do cargo do fiscal que o multou por pesca ilegal em janeiro de 2012. Esta exoneração se deu em março de 2019, ou seja, nem completados três meses de mandato. Se governar é fazer escolhas e eleger prioridades, este ato mostrou ser uma prioridade para o recém-empossado, provavelmente tenha ficado martelando em sua cabeça, o que parece residir na sua atávica repulsa à vida e a seu comportamento autoritário.

O projeto maior, de fundo, do mandatário expressa-se na dissolução da sociedade e do Estado, a tal da candidatura antissistema, e tem sido alcançado até certo ponto, mas não na intensidade e velocidade imaginadas, por conta até certo ponto da resistência de instituições e da opinião pública. Sentindo a falta de apoio para ações mais agressivas de quebra da ordem democrática, o presidente refluiu, se aproximando do Centrão e de uma política populista, e da “velha política”, seu habitat natural e sua zona de conforto, vide sua vida parlamentar na Câmara. Isto se insere em um projeto absurdamente precoce de reeleição e na blindagem sua e do seu clã,o que tem sido feito através de ações em instituições de controle. Se o futuro é de difícil projeção, ainda que o mais próximo, o presente salta aos olhos, o segundo país em números de mortes do Covid-19 e o solo esturricado com as queimadas e o desmatamento, nunca vistas nestas dimensões, realidade sistematicamente negada e ignorada.

 

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