Autonomia e gestão – impactos sobre as universidades paulistas

Autonomia e gestão – impactos sobre as universidades paulistas

REDAÇÃO

21 de setembro de 2020 | 16h05

Maria Tereza Leme Fleury, professora da FGV EAESP e da FEA-USP, tendo também ocupado o cargo de diretora nas duas instituições.

 

Tive a oportunidade de dirigir duas das mais importantes faculdades de Administração e Economia do país: a FEA da Universidade de São Paulo e a EAESP da Fundação Getúlio Vargas –  uma pública e outra privada. Nas duas a responsabilidade do diretor com o orçamento é crucial para gestão dos recursos financeiros e humanos: professores, funcionários e alunos, otimizando os resultados. Em ambas as despesas precisam ser compatíveis com as receitas.

Na próxima semana entra em discussão e votação na Assembleia Legislativa o PL 529, que impacta a autonomia financeira das universidades publicas paulistas:   USP, UNICAMP e UNESP.

Os recursos repassados às três universidades constituem 9,57% do que Estado arrecada com o ICMS e a flutuação do imposto recolhido se reflete diretamente nos repasses. Nos últimos anos, quando a arrecadação foi reduzida significativamente por causa da instabilidade na economia, os repasses mensais diminuíram em relação aos previstos pelo Estado. As três universidades paulistas enfrentaram dificuldades financeiras, superadas por medidas duras de contenção dos gastos.

No caso da USP, a instituição incentivou a demissão voluntária de 15% do quadro total de servidores técnicos e administrativos, cortando também 30% das despesas de custeio e de investimentos. Segundo palavras do reitor Vahan Agopyan, em janeiro de 2020, depois de esforço sistemático nos últimos seis anos, a USP conseguiu recuperar o equilíbrio financeiro. Com a variação dos repasses, a universidade necessita ter reserva financeira para sobreviver e poder planejar o futuro.  (Estado de São Paulo 15/09/20)

Com gestão responsável a USP e UNICAMP foram se equilibrando sem perder a qualidade e relevância. Segundo o ranking internacional do Times Higher Education são consideradas as melhores universidades no Brasil e na América Latina, por critérios de qualidade do ensino, pesquisa, por sua projeção e inserção internacional. Na última avaliação subiram mais de 20 posições, devido ao esforço coletivo de seus dirigentes, professores, alunos e funcionários.

São universidades que respondem rapidamente às pressões e necessidades da sociedade brasileira num momento de crise. Na atual pandemia provocada pela covid-19 a USP , por exemplo , participou da fabricação de ventiladores pulmonares  (resultado de década de pesquisas , que em 4 meses foram produzidos com esforços conjuntos da engenharia da Poli, Medicina, Direito, Odontologia)  , confecção  mascaras, testes para diagnósticos, atendimento a pessoas de baixa renda,  atendimento à saúde mental , simuladores, plataformas , algoritmos ,avaliações de  impactos na economia e gestão,   num esforço coletivo de uma universidade competente e engajada.

No mundo atual a importância primordial da educação em todos os níveis é palavra de ordem. No Brasil o tecido das instituições de ensino superior precisa ser formado por universidades privadas e públicas, estas últimas com autonomia e responsabilização por seus gastos, investimentos e resultados. Só assim teremos um pais mais desenvolvido e menos desigual.

Neste sentido, a discussão e redefinição dos termos deste PL, a ser votada ainda neste mês de setembro, nos parece fundamental.

 

 

 

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