Até onde chega Bolsonaro?

Até onde chega Bolsonaro?

REDAÇÃO

09 de julho de 2021 | 11h10

José Antonio G. de Pinho, Professor Titular Aposentado – Escola de Administração UFBA e Pesquisador FGV-EAESP

Parece se formar a tempestade perfeita contra o governo Bolsonaro avolumando-se as denúncias e suspeitas vindas dos mais variados segmentos sociais sobre suas ações. Tentando desmanchar esse nó, cabe fazer um diagnóstico desse imbróglio no sentido de tentar visualizar os passos seguintes de Bolsonaro e ver até onde ele pode chegar.

Um primeiro ponto, recuando um tanto no tempo, foi quando Queiroz, ao ser descoberto o esquema das rachadinhas, mas sem imaginar sua repercussão, disse até orgulhoso que vivia de “fazer rolos”.  Agora, ao comentar a questão da negociação para a compra da vacina indiana,  Bolsonaro teria dito que seria um “rolo” do líder do governo, deputado Ricardo Barros. O linguajar de “rolos” parece vir de áreas à margem da lei, controladas por forças milicianas. Ainda a respeito de vacinas, parece mesmo que o presidente não era contra as vacinas, mas teria preferência por uma vacina incrementada.

O escudo de blindagem de Bolsonaro está sustentado no acordo com o Centrão e em uma ampla entourage de militares de alta patente abrigados no Executivo, coisa nunca antes vista nessa dimensão neste País.  A participação de militares no atual governo parece cumprir muito mais um propósito pecuniário do que ideológico, não se afastando a possibilidade de ocorrência deste último. Ancora-se ainda o presidente em dois fiéis escudeiros em posições decisórias chave: o presidente da Câmara federal, Arthur Lira, e poderíamos dizer presidente de honra do Centrão, e o procurador-geral da República, Augusto Aras.

Se o Centrão e os militares que orbitam em torno do presidente formam seu muro de sustentação, por outro lado, elevam-se fatos que colocam o governante na parede. Elencando  os mais significativos tem-se: (i) a CPI do COVID 19 mostra uma teia de interesses escusos onde mais se cava mais se descobre ignomínias não só por atentarem contra o dinheiro público como contra a vida, como é o caso das vacinas superfaturadas. Um dólar a mais por dose mostra como a perversidade não tem limites.

Na raiz do problema, ao que tudo indica, a prevaricação do Messias; (ii) os movimentos de rua voltam a pulsar e tendem a se avolumarem  à medida que a vacinação for sendo completada colocando principalmente os jovens na rua recusando um governo autoritário, anti-humanitário e anti-civilizatório; (iii)  as pesquisas de opinião pública revelando a corrosão da base de apoio do presidente restando os plenamente identificados com as vigas mestras de suas propostas, esvaindo-se os grupos que sufragaram seu nome em 2018 por razões demasiado conhecidas.

Assim, frente a isso, como se posicionará Bolsonaro? Antes disso, vale dizer que esse quadro só tende a se agravar para o lado presidencial. A inflação, o baixo crescimento econômico, o desemprego monumental e a corrupção que está vindo à tona, tudo isso conspira contra o establishment  bolsonarista. Agora estamos em condições de elaborar o que pode fazer Bolsonaro para chegar vivo à outubro de 2022.

A margem de manobra de Jair Bolsonaro se estreita bem como o tempo que ele tem para reverter esta situação com o calendário da próxima eleição a pouco mais de um ano. Na verdade, o que ele pode fazer em grande parte já vem fazendo, que é criar um estado de caos para justificar uma intervenção antidemocrática. Convém notar que este passo não foi conseguido no auge da pandemia, quando o presidente sinalizava um caos social decorrente das decisões de governadores e prefeitos de fecharem certas atividades econômicas.

A nova estratégia tem sido recorrer a denúncias, vazias, sobre a lisura do processo de votação. E fazendo ameaças que não aceitará outro resultado a não ser sua vitória. Impressionante, parece acreditar mesmo na sua condição de mito, desmoralizando o conceito de mito bem como deixando claro, a ausência de qualquer visão de democracia.

Assumindo a tendência da CPI de revelar mais elementos comprometedores do governo em tela, associada ao movimento das ruas e ainda uma queda nas pesquisas ficará difícil impedir o impeachment. Os seus guardiões, Lira e Aras, se curvarão às evidencias dos fatos, ficando impossível manter esse tipo de negacionismo.

Como em uma reação química, falta um catalizador e este poderá vir na forma das revelações que atinjam de forma fatal os filhos, como o que agora tem emergido com denúncias vindas da própria família. Em estruturas governamentais baseadas no poder da família, a derrubada pode vir do próprio ambiente familiar, o que remete à Collor de Melo.  Não se está aqui a fazer previsões levianas, o terreno para esses envolvidos é fértil no quesito corrupção, os edifícios do poder chega uma hora que desabam.

Mas, ainda existe outro cenário que poderá acelerar o impeachment que reside no abalo que causará na parcela do eleitorado ao perceber que o “mito” está nu, conspurcado em atos diretos ou indiretos de corrupção, tema sensível na vida política brasileira. Uma hipótese não descartada seria um emagrecimento do candidato Bolsonaro em pesquisas futuras colocando-o em risco de nem ir para o segundo turno.

De novo, não se está aqui a praticar a leviandade, mas pensar que um presidente que foi eleito com cerca de 55% dos votos válidos, e que ao longo de seu mandato sempre teve apoio em torno de um terço do eleitorado, vê agora esse apoio orbitar em torno de um quarto e índices de rejeição em torno de 60%. A situação ainda  poderá ficar mais difícil para sua reeleição caso se consolide uma terceira via dando opções ao eleitorado.

Nesse emaranhado de situações adversas, o equilíbrio que é uma qualidade escassa no presidente, desde os tempos de caserna, será testado, com resultado não difícil de imaginar. O capitão reformado mostra-se difícil de reformar seus valores. Resta-lhe fazer ameaças, sendo a mais recente (08/07/21) a de que “se as eleições não forem limpas, não haverá eleições”, destilando seu autoritarismo.

Isto posto, parece só restar ao ex-capitão a tentativa do autogolpe, que teria que ser perpetrado o mais breve possível, antes que se esgarce ainda mais o seu tecido social de apoio. No entanto, configurado o cenário acima construído quem ficará ao lado de um ser pestilento em decomposição? A tendência será abandoná-lo. Uma dúvida ainda resta: de qual lado ficarão as FFAA?

P.S. este artigo já estava pronto quando foi divulgada a pesquisa DATAFOLHA elencando atributos nada engrandecedores sobre o ocupante do Palácio do Planalto, mostrando a acelerada redução de sua base de apoio. E ainda tivemos a triste oportunidade de ver o presidente “defecando” em público, o que corrobora o argumento acima sobre o seu equilíbrio. Bolsonaro é peça chave para derrubar o presidente.

 

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