As políticas dos EUA para a América Latina: o que esperar das eleições de novembro

As políticas dos EUA para a América Latina: o que esperar das eleições de novembro

REDAÇÃO

15 de outubro de 2020 | 15h37

Rafael R. Ioris, é professor Associado de História da América Latina, University of Denver.

 

Na administração Trump, a América Latina foi vista do topo de seu imaginário (e supostamente pago pelo Mexico) muro fronteiriço. Nessa lógica, a região só importava em termos dos significados que o líder populista norte-americano atribuía aos seus países para fins políticos domésticos. A menos de um mês de uma eleição que decidirá o futuro próximo da força militar mais poderosa do mundo, quais são as perspectivas para as relações EUA-América Latina caso Trump ganhe ou, alternativamente, seu oponente, o ex-vice-presidente Joe Biden, consiga evitar o padrão frequente de reeleições presidenciais nos Estados Unidos?

Diferenças marginais mas com espaço para melhorias
Antes que as diferenças entre os candidatos sejam avaliadas, deve-se lembrar que, com poucas exceções, as políticas dos Estados Unidos para a América Latina foram historicamente definidas, pelo paternalismo, no melhor caso, assim como pelo intervencionismo recorrente, independentemente de qual partido estivesse no poder. É evidente que Trump aumentou o teor de agressividade para com a região ao separar famílias de migrantes na fronteira, chegando a colocar seus filhos pequenos em jaulas, ao mesmo tempo em que continuava a denegrir imigrantes em geral, chamando-os de estupradores.

Lembremos, contudo, que o último governo Democrata aumentou enormemente o número de deportações e buscou políticas regionais inspiradas em preocupações de segurança onde até a ajuda externa estava ligada à militarização do policiamento interno, como ocorreu no México e vários países da América Central. Além disso, a partir de 2009, quando um golpe militar em Honduras reviveu um capítulo trágico da história da região, o governo Obama perdeu várias oportunidades (como em 2012 e 2016, quando manobras parlamentares questionáveis ​​retiraram líderes eleitos do poder no Paraguai e no Brasil, respectivamente) de garantir os valores democrátivos na região.

Recursando o descaso do governo Trump, Biden poderia abordar a região com um tom mais construtivo (tarefa nada difícil, aliás) e possivelmente reavivar o processo de reaproximção com Cuba iniciado no governo Obama, quando atuou como vice-presidente. Também seria de se esperar que Biden venha a pressionar países da região, especialmente o Brasil, a melhoar suas políticas de proteção ambiental. Mas de todo modo, as preocupações com segurança regional quanto ao tema da imigração, a postura dura em relação à Venezuela, as políticas econômicas inspiradas em noções neoliberais e a preocupação quanto a crescente influência da China na região tenderão a continuar a definir as abordagens dos EUA para a América Latina, independentemente de quem venha a ganhar o pleito de novembro.

Uma vitória de Trump e dobrando sobre o unilateralismo agressivo
Se Trump vencer em novembro, a guinada em curso que vem fazendo com que os EUA estejam eixando de ser o principal mantenedor da ordem liberal global nascida no pós-guerra para se tornar o ator unilateralista mais forte do mundo deverá ser reforçada. O atual presidente se então sentiria encorajado e validado em seu atual curso de ações, tanto doméstica quanto internacionalmente, e, portanto, provavelmente dobraria sua retórica agressiva e autônoma, conforme demonstrado em seu discurso nas Nações Unidas no mês passado.

Os ataques de Trump à China provavelmente ficarão mais altos e sua demanda para que a América Latina escolha um lado na crescente disputa regional entre os EUA e a China provavelmente se tornará muito mais difícil de ser administrada pelos países da região. A lógica unilateralista que orienta as políticas externas de Trump em todo o mundo provavelmente seria expandida também na América Latina, inclusive pelo reforço de laços bilaterais entre Trump e líderes populistas de direita, como o Bolsonaro no Brasil, Bukele em El Salvador e Duke na Colombia.

A difamação de Trump aos imigrantes indocumentados (a maioria dos quais vêm da América Latina), os ataques de sua administração ao adiamento da deportação de estudantes indocumentados (DACA), criado por Obama, e a sua total falta de interesse em reformar o falido sistema migratório do seu país se manterão, em meio a uma provável ampliação do discurso de supremacia racial branca.Essa lógica também se refletiria na continuação da falta de preocupação do atual governo para com as contínuas violações dos direitos humanos que ocorrem em toda a região, particularmente na América Central, e com a expansão da devastação ambiental para áreas cada vez maiores na Amazônia.Além disso, como demonstrado pela recente visita do Secretário de Estado da administração Trump, Mike Pompeo, ao Brasil a fim de instar países da região a se engajarem em uma postura mais dura contra a Venezuela, é provável que preocupações militares se ampliem na região, potencialmente até mesmo se materializando em ações militares diretas ou por meio de forças militareis regionais.

 

Biden e a chance de fazer melhor até mesmo em seu próprio recorde

Atual líder da disputa presidencial, Joe Biden tem a oportunidade de melhorar significativamente o histórico de Trump, tanto no âmbito doméstico como no contexto internacional. Isso incluiria um desempenho melhor no decepcionante histórico da administração Obama.

Em um sentido geral, espera-se que Biden aja de forma assertiva para reverter a virada unilateral que o governo Trump impôs ao curso da política externa dos Estados Unidos. Espera-se também que um governo Biden aja rapidamente para reinserir seu país nas principais agências e acordos multilaterais, como a Organização Mundial da Saúde e o Acordo de Paris, bem como que trabalhe para reativar laços com aliados tradicionais, como a União Europeia. E embora a China certamente continuaria a se vista como o principal adversário dos EUA no mundo, imagina-se que Biden busque um caminho mais diplomático de engajamento.

Com relação à América Latina, a preocupação com a crescente influência regional da China provavelmente seria transferida para um governo Biden, junto com uma postura ainda dura em relação à Venezuela. É preciso lembrar que Biden nunca foi um moderado em termos de política externa dos EUA. Ele apoiou o Plano Colômbia, sob Clinton, e a criação de uma fronteira extraterritorial no sul do México (Frontera Sur) para impedir que os migrantes da América Central se dirigissem aos EUA, no governo Obama.

Mais ainda que esteja certo de que a América Latina não seria uma prioridade para qualquer futuro governo dos Estados Unidos, por razões internas ligadas ao voto hispânico, Biden indicou seu interesse em fornecer mais ajuda externa aos países centro-americanos, e a se envolver mais plenamente com a região como um todo, especialmente no tema da proteção ambiental, e na reavivação da agenda de assistência econômica por meio de uma nova rodada de acordos de livre comércio.

Diferenças de estilo mais que de substância

É inegável que as candidaturas Trump e Biden representam caminhos notavelmente diferentes para o rumo que os Estados Unidos devem seguir nos próximos quatro anos. Em relação à América Latina, porém, o tradicional desprezo e condescendência tão freqüentemente manifestados para com a região parecem estar presentes em ambas as campanhas, ainda que em graus e estilos diferentes.

Trump claramente tem um tom mais agressivo em seu retrato e pouco envolvimento com a região, enquanto Biden sinaliza, principalmente para o consumo doméstico, com uma nova preocupação quanto a temas referentes às nações ao sul da fronteira.

Certamente importa se os EUA abordaram a região de forma unilateral ou multilateral. E também importa se haverá interesse genuíno em se envolver com os países do hemisfério.

No entanto, embora mais interessado em se envolver mais plenamente e de forma multilateral com a América Latina, a abordagem de Biden parece ainda ser guiada em grande parte por uma agenda econômica neoliberal.

E mais, o envolvimento dos EUA com o hemisfério certamente permanecerá vinculado a uma agenda de questões de segurança nacional, independentemente do vencedor das eleições presidenciais de novembro.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.