As mulheres e a economia: quando superar desigualdades é promover competitividade

As mulheres e a economia: quando superar desigualdades é promover competitividade

REDAÇÃO

13 de novembro de 2020 | 11h53

Renata Malheiros Henriques, Mestra em relações internacionais pela universidade de Cambridge e coordenadora Sebrae Delas.

Benoni Belli, Diplomata de carreira, atualmente Cônsul-Geral do Brasil em Chicago.

 

Estudos recentes demonstram que a competitividade de empresas individuais, assim como do conjunto da economia, tende a crescer com a maior participação de mulheres no mercado de trabalho e em posições de liderança. Segundo a OCDE, a desigualdade de gênero que ainda prevalece no mundo do trabalho e das empresas causa importantes prejuízos, com consequências negativas para as mulheres, famílias e sociedades inteiras.

Em seu relatório global do ano passado relativo ao índice de gênero e instituições sociais (“SIGI Index global report”), a OCDE afirma que restrições à contribuição feminina ao desenvolvimento derivadas de leis e práticas sociais foram responsáveis por uma perda de 8% do nível global de investimentos. Ainda de acordo com o estudo, a desigualdade acarretaria uma redução global da renda de 7,5%. Em números absolutos, isso significa que US$ 6 trilhões deixaram de entrar na economia mundial. Ainda segundo as projeções da OCDE, se a paridade de gênero for alcançada até 2030 nos diversos âmbitos estudados (incluindo educação e emprego), haveria um incremento do PIB mundial de 0,4% ao ano até aquela data.

Esses dados e projeções para o conjunto da economia corroboram o que já se sabe no nível das empresas. O relatório global de competitividade do Fórum Econômico Mundial tem trazido, ao longo dos anos, evidências de que a diversidade e uma maior participação feminina em cargos de liderança e em todas as atividades econômicas aumentam a chance de sucesso de empresas, garantindo economias mais robustas. A diversidade e a inclusão nas empresas permitem aproveitar melhor os talentos e habilidades individuais, além de criar ambiente mais propício à criatividade e à inovação.

Um outro informe do Fórum Econômico Mundial, o “Global gender gap report 2020”, revela a persistente sub-representação feminina em áreas fundamentais para o futuro da economia. No setor de computação em nuvem, apenas 12% dos profissionais são mulheres. Em engenharia e inteligência artificial, essa participação é de 15 e 26%, respectivamente.

A experiência do SEBRAE demonstra que as mulheres, apesar de empreenderem em porcentagem semelhante aos homens, enfrentam barreiras adicionais para lograr êxito. Comparativamente, mulheres empreendem mais por necessidade do que por oportunidade, em geral sem o tempo e planejamento necessários para entrar no mercado e enfrentar os desafios da competição. Esse padrão também é visível nas comunidades brasileiras no exterior, com o obstáculo adicional da língua e de diferenças culturais.

Em muitos casos, porém, não é a falta de habilidades técnicas que gera desvantagens das mulheres empreendedoras. Barreiras culturais e crenças sedimentadas desde a infância reforçam estereótipos de gênero e contribuem para perpetuar desigualdades. É o que explica que mulheres dediquem 17% menos horas às suas empresas e o dobro de horas em cuidados com a casa e família, e que certas habilidades tidas como necessárias a qualquer pessoa em posição de liderança tendem a ser associadas ao comportamento masculino, como a necessidade de fazer redes de relações, participar de reuniões até tarde e ir a eventos sociais em busca de oportunidades. A falta de visibilidade de modelos inspiradores de sucesso em áreas ainda não tão óbvias para participação feminina também contribui para esse cenário.

Para mudar o panorama, o primeiro passo é reconhecer que a superação da desigualdade permite aproveitar todo o potencial e o talento de 50% da população. E que isso é uma decisão estratégia para alcançar o bem-estar de todos. Dito de outro modo, para além de ser uma questão de justiça, é passo fundamental para a busca de sociedades inclusivas e economias mais dinâmicas e competitivas.

Programas inovadores de empreendedorismo feminino e mentoria que considerem as chamadas habilidades sócio-emocionais (liderança, comunicação, autonomia nas decisões, etc.) podem apoiar as mulheres a empreender com sucesso no Brasil e no exterior, mas serão insuficientes sem mudança cultural mais profunda. Afinal, a busca da igualdade deve ser tarefa não só das mulheres, mas também de pais, avôs, irmãos e companheiros, crianças, jovens e adultos, ou seja, da sociedade como um todo. Se houver união em torno dessa causa, os avanços serão mais rápidos, e a plena participação das mulheres como empreendedoras e líderes nos diversos setores da economia e da sociedade abrirá um novo horizonte de crescimento e prosperidade neste início de século XXI.

 

Este artigo foi escrito a título pessoal e não reflete posições oficiais do Ministério das Relações Exteriores ou do Sebrae.

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