Às mulheres, angústia

Às mulheres, angústia

REDAÇÃO

18 de agosto de 2021 | 00h03

Ananda Beatriz Marques, Cientista Política, Mestra em Ciência Política (UFPI)

Domingo, quinze de agosto de 2021. Cabul, a capital do Afeganistão, é tomada pelo Talibã, movimento fundamentalista islâmico que começou como uma milícia e governou o país entre 1996 e 2001. Cenas de homens fortemente armados no palácio presidencial enquanto o seu principal ocupante fugia do país, a imagem de um afegão pintando de branco paredes antes ocupadas por propagandas de mulheres sorrindo, vídeos de pessoas desesperadas tentando agarrar-se a um avião em vias de decolar, relatos de mulheres e meninas aterrorizadas com escolas e universidades sendo fechadas.

A internet permite que sejamos testemunhas, através das telas, de um acontecimento que definitivamente entrará para os livros de História, é a instauração de um regime teocrático sendo televisionada em tempo real.

As redes sociais estão sendo pavimentadas por análises de especialistas (e não especialistas) em política internacional e Oriente Médio, são inúmeras as explicações, ataques e defesas para o que está acontecendo. Tenho lido e ouvido homens majoritariamente focados nas causas e consequências políticas, econômicas e militares da ascensão do Talibã, ignorando, como é de costume, o gênero como fator estruturante das relações sociais e relegando a vida das mulheres ao que pejorativamente chamam de “identitarismo”.

Mas, para mulheres, pelo menos para boa parte delas, há um sentimento ancestral: a angústia. A cada história de meninas que não poderão voltar para a escola, de mulheres escondendo seus diplomas e abandonando seus empregos, essa angústia cresce e rasga, nos coloca diante da impotência de existir como mulher em um mundo misógino. Nós sabemos o que acontece aos corpos de mulher, são transformados em territórios sobre os quais se escrevem mensagens de poder.

Como muitos dos temas que ganham notoriedade nas redes sociais, a discussão sobre as violações dos direitos das mulheres e meninas sob o novo regime do Talibã no Afeganistão tem seguido um ritmo dialético. Há um sentimento comum diante do que está sendo noticiado, em consequência, multiplicam-se as análises e críticas sobre esse sentimento e seus significados. O debate parece concentrar-se, enquanto escrevo (o que significa que daqui a alguns dias a questão seja outra ou nem seja mais), nos reducionismos do olhar ocidental.

Desavisados ou perfis caça-cliques massivamente compartilharam a imagem da jornalista Clarissa Ward supostamente antes e depois do Talibã para denunciar que agora ela é obrigada a usar o hijab mulçumano. A própria jornalista esclareceu em seu perfil no twitter que sempre usou o véu em espaços públicos e que a imagem veiculada é antiga. Em resposta à viralização foram muitas as mulheres, muçulmanas ou não, que alertaram sobre os riscos da islamofobia e da intolerância religiosa, que associa a vestimenta à opressão.

Muito se alertou sobre os perigos de discursos salvacionistas que enxergam as mulheres islâmicas a partir do olhar ocidental e no lugar de solidariedade, dedicam pena, impossibilitando qualquer diálogo entre iguais, pois objetifica e hierarquiza, desumanizando esse outro que é somente diferente. Estas duas questões principais, a redução da opressão ao véu e o olhar de misericórdia, dizem respeito a um mesmo espectro de discussões que são travadas pelo feminismo em sua dupla dimensão (de teoria e movimento) há décadas. O feminismo é feito de seus debates e sempre avança num ir e vir porque não avança sem as críticas, não cresce no que é estático.

O que me lembra o livro “Um Feminismo Decolonial”, no qual a cientista política Françoise Vergès cita a militante indígena australiana Lilla Watson e sua fala de que “se vocês vieram para me ajudar, estão perdendo seu tempo. Mas se vieram porque a libertação de vocês está ligada à minha, então trabalhemos juntas”.

Na mesma esteira, Audre Lorde, escritora norte-americana, ecoa em meus ouvidos quando condensou um dos pilares do feminismo crítico: “não serei livre enquanto alguma mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas”. bell hooks nos ensina ainda que é preciso compromisso com a prática feminista para que esta seja libertadora para si e para todos, feminismo não é um estilo de vida, é escolha política.

Vejo com particular esperança a notoriedade que a situação das mulheres afegãs está ganhando nas redes sociais brasileiras, porque esta pode ser a porta de entrada para que milhares de mulheres cheguem ao feminismo, como foi a Slut Walk no Canadá em 2011. Estou sendo otimista? Talvez. Mas, penso que essa angústia que nos assola é a chave para uma solidariedade feminista, porque permite um olhar mobilizado. Tempos como estes, quando mulheres no Brasil se solidarizam com mulheres no Afeganistão, podem servir para que pensemos as estruturas.

A angústia pode, através do feminismo, transformar-se.

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