As mortes de Paraisópolis e a necessidade de repensar o Governo e a Polícia

As mortes de Paraisópolis e a necessidade de repensar o Governo e a Polícia

REDAÇÃO

03 de dezembro de 2019 | 09h09

Rafael Alcadipani é Professor Titular da FGV-EAESP e associado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Casos como o da morte de nove jovens na comunidade Paraisópolis em São Paulo deveriam servir para que houvesse uma análise detalhada de políticas empregadas pelo poder público. Não é possível que se aceite como natural a perda de vidas de forma tão banal. Um primeiro aspecto a se destacar é que o Estado tende a utilizar a polícia para resolver aquilo que ele não foi e não é capaz de lidar. Um exemplo típico é a cracolância: governo sim outro também, operações policiais são feitas e nada se resolve.

O baile onde os jovens foram mortos existe há anos e chega a reunir dezenas de milhares de pessoas. São mais de duzentos os pontos de “pancadão” na cidade de São Paulo. Caso a polícia buscasse intervir em todos os bailes que acontecem na cidade no final de semana, ela praticamente teria que empenhar todo o seu efetivo e não seria capaz de atender mais nenhuma outra ocorrência. Se por um lado os bailes são a expressão de uma cultura de jovens da periferia da cidade e o funk tenha caído no gosto de todas as classes sociais, por outro estes bailes geram ruídos, consumo de drogas e desordem pública. Nada muito diferente de outras festas de jovens de classes média e alta: quem se diz chocado com o consumo de drogas deveria ir a uma festa de estudantes de medicina, por exemplo.

A diferença é que na festa de elite há estrutura, organização e busca-se minimizar os seus efeitos para quem não participa do evento em alguns casos contratando, inclusive, empresas de segurança cuja propriedade é de policiais que utilizam o “bico” de outros policiais para proteger o deleite regado a drogas dos que podem pagar. É surpreendente que uma cidade que consegue organizar eventos de rua que vão da Parada Gay a Marcha para Jesus, passando pela Virada Cultural, não seja capaz de agir de forma mais inteligente e aproveitar as potencialidades econômicas e sociais do “pancadão”. Mas, para isso, o Estado precisa parar de criminalizar o funk e a polícia não pode ser o elo de ligação entre o Estado e os bailes. Os demais órgãos do Estado precisam assumir as suas responsabilidades.

Se por um lado não se pode tratar baile funk exclusivamente como problema de polícia, por outro a polícia precisa melhorar, e muito, a sua forma de lidar com os jovens das periferias, curiosamente local onde vivem boa parte dos policiais e suas famílias. Uma das versões para a tragédia da Paraisópolis é que as pessoas no baile entraram em pânico ao ouvirem tiros e ao ver policiais. É preciso pensar no motivo pelo qual as pessoas do baile sentiram medo e não proteção quando avistaram a polícia. Uma das explicações é que há um ciclo de ódio mútuo entre polícia e juventude na periferia. Há um excesso de abordagens policiais que estão longe de seguir o protocolo estabelecido pelas instituições policiais, para dizer o mínimo. Neste contexto, o jovem percebe o policial como seu inimigo e não como seu protetor. O policial tem muita dificuldade de perceber que o jovem que ele aborda poderia ser seu filho, seu sobrinho ou até mesmo seu neto. Isso porque o cotidiano do trabalho policial faz com que ele perca aos poucos a sua empatia pelo outro. Falta nas polícias o incentivo a iniciativas que busquem diminuir a distância sentida entre policiais e jovens. Da mesma forma, muitos jovens constroem sua identidade negando que o policial seja um ser-humano. Não podemos cair na cegueira de achar que uma relação depende apenas de um lado e tratar o jovem como um como uma pessoa incapaz de agir e pensar. Estratégias de aproximação entre polícia e periferia envolvendo lideranças e organizações locais são fundamentais.

Além disso, a polícia tem dificuldade de fazer com que o policial da ponta da linha siga os protocolos de atuação e as orientações do comando. Isso porque para que isso aconteça é necessário haver treinamentos frequentes e constantes. Porém, a falta de efetivo, o excesso de trabalho, a necessidade de fazer “bicos” e operações delegadas faz com que os policiais tenham pouco tempo para treinar.

Os constantes problemas de saúde mental e stress dos policiais, tema tabu nas instituições, prejudicam sobremaneira a ação policial na ponta. Além disso, não é incomum que oficiais tenham dificuldade de ter liderança efetiva sob a sua tropa e estabeleçam uma relação produtiva com cabos e sargentos. Dentro das polícias há o mundo dos oficiais e o mundo das praças. O diálogo e a interação entre eles está longe de ser simples e trivial. Quando uma polícia não possui sua doutrina bem disseminada na tropa e os oficiais têm dificuldade de exercer liderança efetiva, a polícia passa a ser gerida na prática pelas subculturas de rua onde “tiro, porrada e bomba” é a norma.

Piora o quadro, uma cultura organizacional onde questionar e pensar diferente da lógica estabelecida é quase vista como uma traição institucional. O exercício da crítica e do pensar diferente é fundamental para que qualquer organização aprenda com seus próprios erros. A necessidade de demonstrar amor institucional de forma cega em forma de adoração e justificativa de tudo o que é feito, sempre apontando como a causa do problema o exterior, cega as instituições.

É preciso, literalmente, permitir que as pessoas da organização “abram a sua cabeça” para melhor perceber a complexidade cada vez mais crescente do mundo atual. Para isso, uma formação policial técnica, calcada em ciência e não em ideologia ou na reprodução de mitos institucionais, é fundamental. A PM de São Paulo desenvolveu uma parceria com o INSPER que ajuda muito neste sentido. Mas, muito mais é necessário. A tragédia de Paraisópolis deveria servir para uma profunda reflexão do Estado, da polícia e da sociedade. Pena que a chance de isso acontecer é muito pequena.

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