As Malvinas são brasileiras

As Malvinas são brasileiras

REDAÇÃO

18 de maio de 2021 | 20h21

Cláudio Gonçalves Couto, Cientista Político, Professor do Departamento de Gestão Pública da FGV – EAESP, coordenador do Mestrado Profissional em Gestão e Políticas Públicas (MPGPP) e produtor do canal do YouTube e podcast “Fora da Política Não há Salvação”

O lema “As Malvinas são argentinas” marca a reivindicação histórica que nossos vizinhos do Cone Sul fazem com relação ao arquipélago que os britânicos, seus controladores de fato e de direito, denominam como Falklands desde o século XVII. Esse e um pleito que atravessa diferentes segmentos do espectro político argentino, da esquerda anti-imperialista à direita nacionalista. Por isso mesmo, é um dos raros temas que – pode-se dizer – produz alguma unidade entre adversários políticos ferrenhos – embora certos setores mais liberais e pragmáticos considerem se tratar de uma reivindicação quimérica e que dissipa energias desnecessariamente.

Não foi por outra razão que nos estertores da cruel e sanguinária ditadura militar argentina, o General Leopoldo Galtieri, que ocupava a presidência entre o final de 1981 e meados de 1982, decidiu invadir militarmente as ilhas, reivindicar a soberania argentina sobre elas e, consequentemente, declarar guerra ao Reino Unido, então governado por uma cambaleante Margaret Thatcher. O general ditador acreditava que com tal iniciativa seria capaz de galvanizar o apoio da sociedade nacional ao governo e, assim, dar um sopro de vida no já combalido, desmoralizado e criminoso regime militar. As coisas não saíram exatamente como planejado. Quem se revitalizou com o enfrentamento foi a Dama de Ferro, que deu seguimento a um longo período como primeira-ministra de seu país.

Como seria de se imaginar, as frágeis Forças Armadas Argentinas não foram páreo para o poderio militar britânico, tomando uma surra vexaminosa. Aos mais de 30 mil cidadãos assassinados pela ditadura fardada na “Guerra Suja” argentina, somaram-se mais 650 jovens soldados, sacrificados no altar da vergonha do autoritarismo castrense decadente e mais valentão que bom de briga. Era o que faltava para o fim da ditadura. Galtieri renunciou, sendo substituído por dois generais em sequência (Alfredo Oscar Saint-Jean e Reynaldo Bignone), que foram impotentes para colocar limites ao processo de transição democrática e devolução do governo aos civis. Não casualmente, vários dos envolvidos com os crimes do regime foram depois condenados em tribunais que fizeram justiça aos muitos crimes perpetrados pelos verdugos fardados e seus prepostos.

A miopia política dos próceres da ditadura argentina foi tamanha que eles acreditavam ser possível contar com o apoio de seus parceiros na Organização dos Estados Americanos (OEA). Os Estados Unidos, como seria de se imaginar, consideraram mais importante manter os laços de origem com a nação que lhes formara e que, por acaso, era também sua parceira na Organização Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O outro ditador militar sanguinário, o chileno Augusto Pinochet, optou por manter suas boas relações com Thatcher e também preservar a histórica rivalidade com os vizinhos. O governo militar brasileiro, então chefiado pelo grosseiro General João Baptista Figueiredo, também deu de ombros à desventura dos vizinhos. Ou seja, os militares argentinos acabaram sozinhos e humilhados em sua guerra inglória. Saíram pelas portas dos fundos e dela caminharam até a porta da cadeia.

Por aqui, nossos militares tiveram mais sorte. Primeiro, porque não atingiram as cifras estratosféricas de seus colegas do país vizinho no extermínio de opositores, gerando uma percepção menos severa da sociedade para com seus crimes. O número de mortos e desaparecidos durante a ditadura militar brasileira foi menor do que o montante de baixas argentinas durante a Guerra das Malvinas. Segundo porque foram mais espertos, negociando a transição com seus opositores civis e não entrando em aventuras como a de uma guerra desnecessária e suicida. Por isso mesmo, aprovaram uma Lei de Anistia que lhes preservou de posteriores persecuções penais, assim como manteve uma imagem positiva das Forças Armadas perante boa parte da população.

Ocorre, porém, que grande parte das novas gerações de nossos militares parecem não ter aprendido muita coisa com os erros de seus colegas da ditadura vizinha, ou com os acertos de seus similares por aqui. Em vez de se manterem distantes da política, como perceberam ser necessário o então presidente, General Ernesto Geisel e seu conselheiro intelectual, General Golbery do Couto e Silva, que deflagraram a abertura “lenta, gradual e segura”, optaram por nunca se afastar o suficiente dela. E, pior ainda, optaram por a ela voltar na garupa do Cavalão, como era conhecido Jair Bolsonaro em seus tempos de caserna.

Eis porque temos hoje um governo militar em tempos de democracia, empregando mais de 6.000 homens de farda em cargos civis no Executivo, sendo 7 deles ministros de Estado e mais 92 cargos de chefia em empresas estatais – como mostrou a Folha de S. Paulo em reportagem recente. Além do poder e da pecúnia que lhes são proporcionados pelos cargos, os militares também têm ganho bastante em termos corporativos, com melhoras em seus vencimentos, reestruturação da carreira e orçamento mais polpudo para suas áreas específicas de atuação. Ou seja, depois de tomar o poder na marra e instaurar uma ditadura “que se legitima por si mesma” (como afirmava em seu preâmbulo o Ato Institucional nº 1), os militares voltaram ao poder na maciota, ajudando a eleger e embarcando no governo daquele que fora um dos seus, com eles ainda se identifica, mas foi também expurgado da vida castrense por condutas muito impróprias. A ele o General Geisel se referia como “um caso completamente fora do normal” e um “mau militar”; muitos militares da atual geração parecem não se importar com tais qualificações e embarcaram de bom grado na aventura bolsonaresca.

Os problemas do atual governo já eram muitos antes da pandemia da Covid-19: extremistas delirantes desmontando instituições e políticas públicas longamente construídas; familismo presidencial como nunca dantes visto, desde a Proclamação da República pelo General Deodoro da Fonseca; subserviência a um governo estrangeiro, por meio de uma política externa catastrófica, desenhada por adeptos de lunáticas teorias conspiratórias e gostosamente sabujos do governo Trump; vínculos com milícias e bandas podres das polícias estaduais…

Pode-se fazer uma longa lista, mas nada supera o que adveio após o início da pandemia: a pior política sanitária de nossa história, guiada por um presidente inconsequente, obcecado por sua reeleição, sabotador de iniciativas respaldadas pelo conhecimento científico, seguidor de teorias anticientíficas e responsável maior por um imenso morticínio, que seria em boa medida reduzido caso medidas puramente triviais houvessem sido adotadas – como em outros países. O problema é que, como advertira Geisel, Bolsonaro é “um caso completamente fora do normal”.

Refestelados nessa administração, os militares produziram ainda um detalhe precioso: durante a maior parte do tempo da pandemia até agora, a saúde ficou a cargo de um general da ativa que se demonstrou administrativamente incompetente, servil aos caprichos presidenciais (“um manda, o outro obedece”) e inábil no trato com a imprensa. Com isso, contribuiu para desmoralizar a imagem das Forças Armadas e associá-la a um governo funesto.

Se os militares da ditadura argentina têm em sua conta quase 31 mil mortes provocadas por sua perfídia (sem falar nos sequestros de crianças) e os militares da ditadura brasileira contabilizam quase 500, podem-se atribuir 440 mil aos militares aboletados no pacto fisiológico-militar chefiado pelo “Capitão” Jair Bolsonaro (não nos esqueçamos da acomodação com o Centrão, outrora cantado em paródia pelo General Augusto Heleno).

Agora, com a ida do General Eduardo Pazuello à Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19, os homens das casernas que decidiram embarcar na aventura política de um político marginal, familista e extremista de direita vão ao banco dos réus da história. Muitos dentre eles se ressentiram com a mera revelação dos fatos produzida pela Comissão da Verdade, fatos estes perpetrados por outros, que não eles mesmos (ao menos na maioria dos casos). Desta feita, veem-se noutra comissão da verdade, esta muito mais séria, pois apura crimes contra a humanidade que serão registrados num relatório formal, passível de avaliação pelo nosso Poder Judiciário e pela Justiça penal internacional. Pazuello comparecendo de farda, como noticiado na véspera, tornaria isso ainda pior, pois colocaria uma farda no banco dos réus. Que palpite infeliz esse, de voltar à política, coisa que cabe aos civis. Pois então, as Malvinas são brasileiras não na geografia, mas nas consequências da infâmia para aqueles que travam as más batalhas.

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