As condições de saída do isolamento social ante a COVID-19 no Brasil

As condições de saída do isolamento social ante a COVID-19 no Brasil

REDAÇÃO

29 de junho de 2020 | 21h27

Alexandre Ricardo Pereira Schuler, Engenheiro Químico com Mestrado na COPPE/UFRJ e Doutorado na UFPE, Professor Aposentado da UFPE, foi Diretor do Centro de Tecnologia e Geociências da UFPE.

Antônio Sérgio Araújo Fernandes, Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) com Pós-Doutoramento em Administração Pública pela Universidade do Texas em Austin, é Professor do NPGA/EA-UFBA.

Como já foi relatado aqui neste Blog em diversos momentos por nós[i], a Pandemia da COVID-19 foi negligenciada pelo Governo Federal, enfaticamente na figura do Presidente, que sempre subestimou o efeito mortal gerado pelo fácil contágio deste patógeno. Seus pronunciamentos e atos sempre foram no sentido da saída do isolamento social, assumindo uma posição de que o Brasil deveria ter a imunidade de rebanho. Os Governadores e Prefeitos, divergentes da opinião do Presidente conseguiram perante o STF autonomia exclusiva para tomar suas medidas de isolamento social e fechamento de todos os estabelecimentos, excluindo apenas aqueles que eram de atividades essenciais. A COVID-19, como previsto, levou ao colapso os sistemas de saúde de alguns estados pela grande demanda de pacientes, como foi o caso em alguns momentos destes quase 120 dias de medidas de isolamento social. Os estados do Ceará, Pernambuco, Amazonas, Rio de Janeiro, São Paulo e Maranhão[ii], foram dos que mais sofreram, tendo o Maranhão que declarar lockdownem algumas cidades do estado por um hiato de tempo.

Apenas ressalvar que nosso isolamento social teve uma média até aqui que variou entre 40 a 50% da população, (vide Figura 1 abaixo), quando o recomendado pela OMS é de 70% de isolamento social para mitigar a ação do vírus.

Figura 1 – Índice de isolamento Social

Fonte: inloco – https://mapabrasileirodacovid.inloco.com.br/pt/

Depois de mais de noventa dias de isolamento social (de cerca de metade da população), os Governadores, que gozavam de ampla popularidade, segundo pesquisa do Datafolha (58% de aprovação em média, com relação as medidas de isolamento tomadas por eles), agora tem sua aprovação pela população diminuída estando com 44% de aprovação ante as medidas de isolamento decretadas3. Muitos Prefeitos, diante disso, já há alguns meses e outros algumas semanas atrás, permitiram a abertura de estabelecimentos comerciais de rua e reabertura de shopping centers. Alguns números mostram que isso foi um tiro pela culatra dado que o número de casos confirmados de COVID-19 aumentou bruscamente, como foi o exemplo icônico de Blumenau-SC que reabriu seu comércio no início de abril ainda4.

O problema que discutimos neste artigo e se é o momento do Brasil afrouxar as regras de isolamento social sem ainda achatar a curva de contaminados. As autoridades de saúde no mundo inteiro têm apresentado à população dados e expressões sobre a pandemia que podem nos deixar um pouco confusos. Cabe, portanto, uma rápida explicação destes termos antes de mostrarmos os dados da situação brasileira.

Achatamento da curva é o resultado de uma ação no sentido de diminuir a quantidade de pessoas que apresentam os sintomas por dia. É o resultado, por exemplo, da quarentena que o mundo inteiro, com raras exceções, vem adotando. A Figura 2, mostra hipoteticamente como o número acumulado de casos cresce, enquanto que diminui o número de pessoas que ainda não contraíram a doença. Esse seria um caso hipotético em que toda a população, mais cedo ou mais tarde, vai ser infectada.

Figura 2 – Evolução natural de uma pandemia

A Figura 3 é a correspondente à Figura 2 aplicada aos dados hipotéticos apresentados. Nela é possível observar o “pico”, o topo da curva e depois o decaimento, terminando quando não há mais casos.

Figura 3 – Evolução não acumulada natural de uma pandemia.

Para verificar se o comportamento da curva da Figura 3 obedece a uma distribuição normal, nos valemos de um teste estatístico quantil-quantil (teste Q-Q). Na Figura 4 observamos três situações distintas: sem isolamento, com um pequeno isolamento e com um isolamento maior. Na linha contínua (sem isolamento) temos o número de casos novos aumentando gradativamente até atingir o pico (o auge da pandemia) e depois diminuindo. A linha vermelha mostra a capacidade de atendimento do sistema de saúde. Quando a curva cruza com a linha vermelha, teremos pessoas não sendo atendidas (resultando em maior taxa de mortalidade, inclusive), até que a curva, já decrescendo, volte a cruzar a linha vermelha. A segunda linha (̶  · ·  ̶) mostra que o isolamento não foi suficiente (dizemos que o achatamento não foi suficiente) e ainda teremos, embora por um intervalo de tempo menor e com menor intensidade, aquela situação em que pessoas não conseguem o devido suporte do sistema de saúde. Finalmente, na terceira linha, o sistema de saúde pode trabalhar adequadamente, evitando-se o colapso.

Figura 4 – Isolamento como forma de evitar o colapso do sistema de saúde

A taxa de crescimento é calculada dividindo-se o número de casos em cada intervalo de tempo (dia, semana, quinzena, mês, etc.) pelo número de casos no período imediatamente anterior. Não é o número total de casos até aquele dia ou semana. É o número do período.

Crescimento exponencial, o modelo matemático que avalia esse crescimento é do tipo , onde y é o número de casos previstos para o dia considerado, d é o número de dias (hoje é o 124o dia), desde o primeiro dia (26/02/2020, quando foi registrado o primeiro caso de COVID-19 no Brasil), e é uma constante matemática que é a base dos logaritmos naturais (vale 2,71828…) e a e b são calculados, hoje em dia, por aplicativos desses normalmente empregados por profissionais e pesquisadores da área. No caso da Figura 5 (caso do Brasil) a exponencial não se aplica. A equação mostrada na Figura 5 é uma polinomial de ordem 3. Isso é um bom sinal, pois se o crescimento da Covid-19 no Brasil fosse exponencial, o número de casos no dia de hoje, 28 de junho de 2020, já seria 10.201.693 casos confirmados, ou seja, 7 (sete) vezes maior que o real, que é 1.344.143 casos confirmados.

Figura 5 – Gráfico representando a evolução dos casos confirmados e acumulados de Covid-19 no Brasil

Obs. A equação (exponencial ou polinomial) é recalculada automaticamente a cada lançamento de novos dados diários. A linha vermelha é a projeção exponencial, a preta é a Normal e a verde representa os dados reais. A linha da curva polinomial se confunde com a Real.

Figura 6 – Evolução real (casos não acumulados) da pandemia.

Na figura 6 a linha azul é a equivalente à linha preta da Figura 5, mas sem acumulação. Nela podemos observar o pico. Na Figura observamos que havia previsão de atingir o pico no 105o dia (09 de junho de 2020), mas os dados reais mostram que tal pico não ocorreu, pois, os números continuaram aumentando, forçando a modificar semanalmente a previsão para ser atingido o pico e consequentemente, também do término da pandemia.

No que se refere aos óbitos por COVID-19, ao contrário dos casos confirmados, estes parecem estar em desaceleração. Duas razões, entre outras, que podem ser inferidas aqui sobre isso, é que a forma tardia como esses óbitos são registrados, e a segunda e mais importante razão que pode ser inferida aqui para esse resultado na queda dos óbitos, é que o recovering dos pacientes está funcionando, como mostra a figura 7.

Figura 7 – Óbitos acumulados causados pela Covid-19.

Também como no caso da Figura 5 a exponencial não se aplica, porém, a curva real (preta) diferentemente da curva de casos confirmados, está sobreposta à curva normal (vermelha). Isso se torna uma boa notícia pois parece que os óbitos estão tendo uma evolução normal, estatisticamente falando, ao contrário do que ocorre com os casos confirmados de contaminados que sobem mais rápido e acima da curva normal. Este é um sinal de que o Sistema de Saúde está funcionando nos Estados e que o esforço dos Governadores e Prefeitos está tendo êxito.

Figura 8 – Evolução real (casos não acumulados) de óbitos na pandemia.

Na figura 8 o número de óbitos acompanha a linha vermelha (curva normal), mas sem acumulação. Os dados reais mostram que tal pico ocorreu, pois, os óbitos seguem o sentido da curva normal.

Evidentemente que é muito difícil prognosticar estatisticamente em que data precisa teremos uma queda da curva de casos confirmados de pessoas contaminadas. Os números brasileiros são muito voláteis no que se refere a isso5. Entretanto, mesmo com um isolamento de 50% conseguimos mitigar os efeitos de contágio do vírus, ainda que sejamos segundo no mundo em número de casos e óbitos. Este último aspecto é por demais importante, dado que se estamos voltando gradativamente as atividades normais sem atingir o pico da curva de casos, estamos contrariando um procedimento que foi utilizado em todas as nações para a volta da população gradativamente às atividades normais. 

Na figura 8 o número de óbitos acompanha a linha vermelha (curva normal), mas sem acumulação. Os dados reais mostram que tal pico ocorreu, pois, os óbitos seguem o sentido da curva normal.

Evidentemente que é muito difícil prognosticar estatisticamente em que data precisa teremos uma queda da curva de casos confirmados de pessoas contaminadas. Os números brasileiros são muito voláteis no que se refere a isso5. Entretanto, mesmo com um isolamento de 50% conseguimos mitigar os efeitos de contágio do vírus, ainda que sejamos segundo no mundo em número de casos e óbitos. Este último aspecto é por demais importante, dado que se estamos voltando gradativamente as atividades normais sem atingir o pico da curva de casos, estamos contrariando um procedimento que foi utilizado em todas as nações para a volta da população gradativamente às atividades normais. 

Ademais, os países latino-americanos e especificamente o Brasil, deve começar a se preparar (planejar) para surtos recorrentes da COVID-19 que virão como aponta a Organização Pan Americana de Saúde (OPAS)6. Importante lembrar que estamos assistindo no momento a volta da COVID-19 à China, desta vez em Pequim, a qual registrou até ontem 28/06/2020, 17 novos casos7. Ou seja, todo o cuidado é pouco, e cabe agora às pessoas fazerem a sua parte, só saírem de casa se tiverem extrema necessidade. E cabe aos Governadores manterem-se, mesmo com todas as pressões, sem titubear no caso de serem froçados retroagir em medidas de isolamento social, caso o número de casos e óbitos venha a recrudescer.

 

[1]FERNANDES, A.S.A.; VICENTE, V. M. B. . A Covid-19, a MP 927, a quebra da quarentena e a possibilidade de caos social. Estadão – Blogs, Gestão, Política e Sociedade, São Paulo/SP, 07 abr. 2020. https://politica.estadao.com.br/blogs/gestao-politica-e-sociedade/a-covid-19-a-mp-927-a-quebra-da-quarentena-e-a-possibilidade-de-caos-social/

FERNANDES, A.S.A.; ZUCCOLOTTO, R. ; TEIXEIRA, M. A. C. A iminente e equivocada volta do comércio nos estados ? Os incentivos negativos do governo federal para pôr fim a quarentena dos Governadores. Estadão – Blogs, Gestão, Política e Sociedade, São Paulo/SP, 24 abr. 2020.

https://politica.estadao.com.br/blogs/gestao-politica-e-sociedade/a-iminente-e-equivocada-volta-do-comercio-nos-estados-os-incentivos-negativos-do-governo-federal-para-por-fim-a-quarentena-dos-governadores/

NASCIMENTO, A.B. ; GRIN, E. ; FERNANDES, A.S.A.; SILVESTRE, H. C. O Brasil não pode parar?: uma crônica da ação coletiva empresarial e da descoordenação governamental. Estadão – Blogs, Gestão, Política e Sociedade, São Paulo/SP, 30 mar. 2020.

https://politica.estadao.com.br/blogs/gestao-politica-e-sociedade/o-brasil-nao-pode-parar-uma-cronica-da-acao-coletiva-empresarial-e-da-descoordenacao-governamental/

FERNANDES, A.S.A.; ZUCCOLOTTO, R. ; TEIXEIRA, M. A. C. . Gestão Pública com estratégia, coordenada e cooperação social pode minimizar os efeitos do COVID-19. O que seguir no caso brasileiro. Estadão, Blogs – Gestão, Política e Sociedade, São Paulo/SP, 27 mar. 2020.

https://politica.estadao.com.br/blogs/gestao-politica-e-sociedade/gestao-publica-com-estrategia-coordenada-e-cooperacao-social-pode-minimizar-os-efeitos-do-covid-19-o-que-seguir-no-caso-brasileiro/

[2]O lockdownno estado do Maranhão se deu em algumas cidades da região da grande São Luís (capital do estado). Sobre isso ver, https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2020/05/07/governador-do-maranhao-minimiza-aglomeracoes-no-lockdown-nao-estamos-na-europa.ghtml.

[3]http://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2020/06/1988768-piora-avaliacao-sobre-acao-dos-governadores-na-crise-sanitaria.shtml

[4]https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/04/casos-de-covid-19-aumentam-173-em-blumenau-apos-reabertura-do-comercio.shtml. O caso de Blumenau-SC ganhou uma forma dramática numa livedo Prefeito da cidade apelando para que todos os idosos ficassem em casa e que só saíssem se tivessem extrema necessidade. Sobre isso ver, https://www.youtube.com/watch?v=SEoisfqJBtc.

[5]Sobre isso ver o paperde Jianxi Luo da Singapore University of Technology and Design, intitulado “Predictive Monitoring of COVID-19” (Updated on May 14, 2020). Encontrar em https://ddi.sutd.edu.sg/publications

[6]https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6206:paises-devem-se-preparar-para-enfrentar-surtos-recorrentes-de-covid-19-pelos-proximos-2-anos&Itemid=812

[7]https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2020/06/28/china-registra-17-novos-casos-de-covid-19-14-deles-em-pequim.htm

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