Aprendizados para o mundo empresarial depois da COVID-19

Aprendizados para o mundo empresarial depois da COVID-19

REDAÇÃO

12 de junho de 2020 | 11h52

Victor Kang, aluno do curso Administração de Empresas da FGV EAESP e membro da Liga de Empreendedorismo FGV e da Consultoria Júnior de Economia FGV

 

Nos dias atuais, somente se diz e se ouve sobre as grandes mudanças e impactos que a pandemia trouxe e ainda trará ao mundo moderno. Mudanças nas estruturas de países, na economia, nas relações sociais, no modo de viver, e em todos os aspectos da vida humana. Em um mundo onde a única certeza que temos é de que tudo irá mudar, após essa onda passar, me questiono quais fatores ainda vão realmente manter-se presentes. Ao longo do texto, será retratado os grandes impactos realizados na economia brasileira como um todo, mas principalmente, com um foco no setor de logística.

A pandemia que começou em uma cidade pequena chinesa, Wuhan, no início de 2020, se espalhou de forma veloz pegando abruptamente diversos países mal preparados em todo o mundo. Uma doença que a maioria dos países acreditavam ser apenas mais uma gripe a qual seria combatida em questão de poucas semanas, cresceu de forma exponencial, atingindo cerca de 6,5 milhões de pessoas, com quase 400 mil mortes, sem uma perspectiva de fim em um curto prazo. E, por mais que a curva do crescimento diário do vírus esteja iniciando sua depressão em algumas regiões do globo, a evolução média ainda gira em torno de aproximadamente 130 mil casos por dia. Ainda vale ressaltar, que a situação brasileira passa longe dos melhores cenários, sendo este, o segundo país com mais casos do mundo e com uma taxa de crescimento que ainda não atingiu seu pico.

Grandes acontecimentos, sendo eles positivos ou negativos, sempre geram consequências severas e eternas na sociedade. Considerando que estamos diante de uma grande crise de saúde a qual impôs restrições nunca antes tidas no passado, acompanhada de uma profunda recessão econômica, de consequências imprevisíveis, estes impactos serão ainda mais profundos e explícitos no dia-a-dia do futuro. Todavia, por mais que tudo o que foi escrito acima tenha um viés negativo e assombrador, sempre tive e ainda tenho uma perspectiva positiva acerca tanto da vida, quando dos humanos em si, ressaltando o potencial dos humanos principalmente, na sua capacidade de adaptação. Na língua chinesa, a palavra crise é a combinação de dois símbolos, sendo estes, o perigo e a oportunidade, e, foi exatamente com este ideograma, na crise de 2008, o presidente do Banco Central da época Henrique Meirelles, avaliou a crise que surgia. Mesmo que a gravidade da crise atual seja muito diferente comparada a 2008, ainda podemos tirar aprendizado do provérbio e, compreender que diferentemente do que acontece nos momentos de alegria, é na crise que a economia se ajusta e que surgem novas oportunidades. Destarte, a crise gera uma onda enorme de problemas para todos os setores do mercado e, problema, para quem tem visão, é uma oportunidade de solução. Então, por mais que existam muitas pessoas e empresas que falham por diversos motivos para superar a crise, aquelas que possuem grande capacidade de adaptação, conseguem não somente passar por ela, mas crescer neste panorama de incerteza.

É evidente que muitos setores serão impactados pelas consequências da COVID-19, entretanto, abordarei os impactos gerados no setor de logística. Este campo é responsável pela administração de materiais e recursos usados, comunicar tanto com fornecedores quanto clientes, controle do estoque e armazenagem, e a distribuição entre fábricas, centro de distribuição e varejo, assim, fundamentalmente, cuida do funcionamento de todas as outras áreas da empresa. Um bom gerenciamento da logística, pode gerar inúmeras vantagens, como a não sobrecarga de funções internas e a chave para o fluir de uma operação, a economia de tempo. Logo, por mais que crises afetem o funcionamento de diversas empresas, com casos de cortes em departamentos para diminuir custos, podemos enxergar que a logística qual engloba tanto a distribuição quanto o transporte, agora e no futuro, estará presente nas empresas pois se trata de um serviço essencial para fluir qualquer tipo de operação.

Dentre a grande maioria dos setores que estão sofrendo de maneira acentuada, segundo especialista em organização logística Álvaro Aguiar, este setor está em uma situação curiosa no Brasil. Com o isolamento social, por mais que o transporte de caminhões sofreu um baque com o interrompimento da importação e exportação de insumos com grandes parceiros como a China e Estados Unidos, as empresas de transporte individual, que pode ser feito com bicicleta ou moto, explodiram em demandas, com as pessoas começando a recorrer a outros meios para continuarem a consumir, como ao delivery e ao e-commerce, enxergando uma explosão nas operações de logísticas leves, principalmente no setor de varejo, sendo válido ressaltar que, em ambos casos, o diferencial está no digital. Realmente, mesmo existindo algumas esferas que estão sofrendo, comparada a outros setores, o surgimento de novas demandas neste mercado amenizou e muito, o impacto sofrido no setor como um todo.

Mesmo que de forma inesperada, a pandemia causou um choque em toda a economia, certas demandas e tendências da migração total ou parcial ao mundo digital já eram esperadas há muito tempo. Àqueles que já tinham feito essa adaptação ao novo meio sem esperar à chegada de uma recessão, hoje colhem os frutos de uma gestão bem planejada, todavia, a grande parte que não se mobilizou diante todos os indícios que isso seria necessário há algum ponto no futuro, viu a capacidade de mudança que uma crise pode exigir. Inúmeras empresas que nunca fizeram questão de analisar as tendências digitais durante anos no passado, tiveram que adaptar seus negócios em questão de semanas e, as quais já estavam adaptadas, performaram com ampla vantagem sobre seus concorrentes. Um exemplo claro desta situação, é uma das empresas destaque da bolsa de valores do ano de 2020, sendo ela, a Magazine Luiza, qual comparada ao IBOV que caiu cerca de 25% desde o início do ano, teve uma incrível performance de 31%. Por mais que seu ramo de atuação (varejo) seja um dos menos impactados, esta performance é fruto de uma gestão impecável de uma diretoria que mesmo sem a crise, sempre esteve se preparando para o futuro. Frederico Trajano, CEO da Magazine Luiza, mostrou recentemente os números de crescimento das plataformas digitais da empresa, sendo 72,6% a expansão das operações do e-commerce no primeiro trimestre de 2020 comparado a 2019, já representando 53,3% das vendas totais, e nos meses de abril e maio, um surpreendente avanço de 138%, fazendo com que a operação ainda continua firme e estável, mesmo com a queda nos lucros por conta das inúmeras lojas fechadas, sendo assim, considerada como uma das grandes  “vencedoras” desta crise.

Sendo questionado a opinião de Trajano sobre o sucesso da revolução digital da Magalu, este, separa em três pilares principais, pagamentos, catálogo e logística. O primeiro, remete à capacidade de prover as melhores condições de serviços financeiros tanto para os vendedores quanto aos compradores, com parcelamentos de até 10x e serviço de crédito e antecipação dos recebíveis com taxas melhores dos demais concorrentes. O segundo, o aplicativo, foi um processo desenvolvido ao longo dos últimos vinte anos, com grande foco na usabilidade, sendo este um dos dez aplicativos mais baixados nas plataformas digitais. E, por final, a logística, sendo dita como a vantagem crucial de seu negócio, considerando que pouco adianta ter serviços e tecnologia caso seu produto demore a chegar e custe caro para isso, sendo o preço e a logística, o grande embate de todos os produtos vendidos no digital. Isto posto, foi um dos pioneiros a adotar o darkstore, utilizando o espaço físico para alavancar o e-commerce, assim, transformando todas as 1100 lojas da rede em centros de distribuição, fazendo com que os produtos cheguem muito mais rapidamente e de forma menos custosa comparada a outros players do mercado. O principal desafio de vendas no meio digital gira em torno da chamada “última milha”, ou seja, a parte final da entrega. Feito pela maioria das empresas, não é mais possível trazer os produtos de grandes centros de distribuição afastados, uma vez que aumenta o custo para o  consumidor final, principalmente em produtos de baixo valor agregado, como por exemplo, bens de consumo, um ramo no qual a demanda se viu amplamente aumentada nas últimas semanas. Além do preço de um frete de uma compra de menos de cem poder passar de dez, o prazo médio prometido pode variar entre duas a três semanas (segundo cálculos da Compre & Confie, o prazo médio de entrega no Brasil foi de quase vinte e um dias em março) desestimulando muitos clientes a fazer compras pequenas. Por outro lado, por mais que ter estoques perto da cidade seja essencial, esta, aumenta o custo da operação, sendo necessária a análise minuciosa da logística por trás de cada metro quadrado utilizado. A Magazine Luiza conseguiu adaptar de forma brilhante a sua operação logística para viabilizar uma operação ágil e barata, contudo, atualmente, poucas empresas conseguem organizar uma operação ágil e barata para todos os tipos de produtos.

Além de casos como a Magalu, outras empresas do ramo onde a logística é crucial vêm performando de maneira surpreendente no cenário a qual estamos passando. Dados da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (Abcomm), informam que houve um aumento de 30% nas vendas pela internet durante as duas semanas de abril, explodindo a demanda de pedidos e a dificuldade por parte das empresas de conciliar toda está logística por trás da entrega. Mais uma vez, empresas já preparadas para o meio digital, conseguiram se adaptar sem tantos atritos, como a iFood que dobrou o número de candidatos para trabalhar em março e a Rappi que obteve um crescimento de três vezes nas demandas em comparação entre março e janeiro. Porém, as que não estavam tão preparadas, como no caso do grupo varejista GPA, o “colapso nas entregas” de uma empresa qual costumava realizar o delivery em cerca de vinte e quatro horas passou a ter prazos de até três semanas, porque a demanda era muito maior do que a capacidade. Entretanto, montar toda uma operação digital de ponta a ponta, é um processo complicado e demorado, assim, está sendo comum parcerias de algumas empresas de varejo com empresas de logística, já acostumadas com o processo em larga escala, tendo como exemplo, a rede Hirota que tem um faturamento anual de quinhentos milhões de reais, com empresas como a iFood, Americanas.com e Rappi, agora responsáveis pela total operação de entrega da rede, com uma meta ambiciosa de transformar a fatia online das vendas de 0,6% de fevereiro, para 8% das no fim do ano. O setor de e-commerce que vinha crescendo nas casas dos 20% anualmente, teve um boom inédito neste período, com a entrada de novos clientes digitais e, a procura por produtos quais normalmente, não eram tão frequentes.

Por conseguinte, dentre toda a análise do cenário, podemos estimar poucos, mas importantes fatos para a era pós COVID-19. Vimos nesta crise, a essencialidade do setor de logística diante qualquer tipo de cenário, sendo ela um fator decisivo no rumo de qualquer empresa, mesmo “pré COVID-19” e ainda mais “pós COVID-19”. A digitalização de setores, não impactando somente o de logística, veio para ficar. Segundo Trajano, o consumo online que sempre girou em torno de 5% do mercado antes da crise, é estimado que saltará em torno de 10%, uma vez que é a única forma de conciliar o avanço da economia com a saúde. A pandemia adiantou e muito, uma evolução que já era esperado por vir em cerca de dois anos, e diante os resultados vistos no mercado, as empresas que sobreviveram nesta crise serão aquelas as quais melhores se adaptarem e, as que dominaram no futuro, são aquelas que se planejam e mudam constantemente para sempre estarem preparadas. Por fim, toda onda tem seu ápice e sua base e, para conseguir pegar este auge, é necessário remar desde o início, quando poucos realmente enxergam a onda chegando, ou seja, como dizem os chineses, todas as crises têm suas oportunidades, mas podemos ver que para aproveitá-las, as chances são muito maiores caso você esteja preparado constantemente, sem esperar grandes mudanças na vida ou na empresa para se desenvolver.

 

 

Referências:

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.