Apagão educacional e inclusão digital: ação solidária contra a desigualdade

Apagão educacional e inclusão digital: ação solidária contra a desigualdade

REDAÇÃO

19 de agosto de 2020 | 12h04

Leon Amiralian Neto é aluno do 7.º semestre do curso de Administração Pública da FGV EAESP cursando, atualmente, a dupla-titulação em International Politics and Government na Univesità Luigi Bocconi, em Milão, e cofundador do Papo Futuro.

Luis Paulo Bresciani é professor do departamento de gestão pública da FGV EAESP e do programa de pós-graduação em administração da Universidade Municipal de São Caetano do Sul.

#AlunoAjudaAluno: O propósito da equipe do PapoFuturo

 

As fragilidades que persistem nas iniciativas de universalização das políticas públicas no Brasil criam uma maior dificuldade no enfrentamento da pandemia. O caso da Educação, determinante para o desenvolvimento de nosso país, não é diferente. O problema se mostra especialmente agravado na perspectiva de muitos vestibulandos que se viram como podem para buscar a oportunidade de entrar no ensino superior. Não só temos a recorrente questão de efetividade e qualidade da política educacional brasileira, mas também ficou cristalina a ausência de adequada infraestrutura digital para atravessar o contexto de isolamento social como consequência da pandemia. A educação por meio da conectividade digital se colocou como a principal solução paliativa para que se mantivesse o ritmo intenso de estudo que caracteriza o adequado preparo para um vestibular.

A educação brasileira na pandemia segue como um ensino noturno sem energia elétrica, com uma didática pensada para um modo de vida que já não é mais o mesmo, e cujo êxito tem um obstáculo muito forte: a infraestrutura local. Cinco meses após a suspensão das aulas presenciais, o MEC deu seu primeiro movimento para que estudantes de baixa renda tenham internet em suas casas, mas apenas comtemplando alunos de universidades e institutos federais, deixando as etapas de ensino fundamental e médio à deriva.

Segundo o estudo recentemente publicado pelo Instituto Rui Barbosa, braço acadêmico dos tribunais de contas no país, aproximadamente 6,6 milhões de estudantes brasileiros estão sem conexão à internet e apenas 20% das escolas públicas da região Sudeste e Sul proporcionam material didático diário ao Ensino Médio, com 40% se reduzindo à disponibilização quinzenal. Os principais meios de comunicação entre a escola e seus alunos no Brasil se resumem a meios digitais, como WhatsApp e Meet, que evidentemente demandam internet e dispositivo eletrônico disponíveis. Então, é notória a participação da internet em caráter pedagógico e informacional no meio educacional.

Da mesma forma, 39% dos estudantes de escolas públicas urbanas não têm computador em casa, enquanto nas escolas particulares esse índice é de 9%, de acordo com o estudo TIC Educação. Pelo lado docente, a pesquisa da Nova Escola mostra que 59% dos docentes na rede privada alegaram que seus alunos têm boa frequência nas atividades remotas, enquanto essa participação é de 32% na rede pública, demostrando outra característica da a desigualdade na educação brasileira.

Assim, a conectividade digital como suporte à educação se mostra ainda mais importante do que já sabíamos, para a necessária travessia em meio à pandemia. Todavia, as restrições e barreiras ao acesso de adolescentes e jovens se revelam como componentes estruturais da desigualdade enquanto marca da sociedade brasileira: E a eficácia nos preparativos para o vestibular passa a ter, ainda mais do que antes, uma relação indissociável com o acesso dos alunos à internet, com o déficit de inclusão digital se colocando como uma barreira adicional na trajetória daqueles em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica.

Enquanto os governos se movem em meio às graves restrições orçamentárias para resolver o problema e fazer com que os alunos de suas redes sigam estudando, em especial aqueles que estão concluindo o ensino médio, uma série de entidades da sociedade civil se organiza para buscar diminuir a clivagem social amplificada pela quarentena. Com base nessa necessidade, algumas ONGs foram formadas para gerar suportes nesse caminho rumo ao vestibular. Focada em apoiar a travessia de jovens vestibulandos, um grupo de alunos da FGV, Insper, NYU e outras universidades de ponta criou o projeto Papo Futuro, que atua mediando a doação de equipamentos eletrônicos para vestibulandos sem acesso a meios digitais de estudo. Seu propósito é também a democratização da informação e a inclusão digital na juventude.

 

Alguns dos alunos ajudados pelo Papo Futuro

Disponível em: http://www.papofuturo.com.br/

Ao mapear as regiões mais defasadas de São Paulo, é possível encontrar aqueles que precisam de ajuda nesse processo, viabilizando o acesso aos recursos que o futuro vestibulando necessita: pacote de dados, computador ou tablet, ou até mesmo um simples smartphone, visando contornar as restrições colocadas ao bom desempenho dos alunos. Atualmente, o projeto tem 30 alunos ajudados e possui uma meta de arrecadação da ordem de 400 mil reais, com o propósito de impactar a vida de milhares de adolescentes. Como afirma Daniel Souza, um dos estudantes apoiados pelo projeto, “apesar da educação ser um direito constitucional, na realidade é muito diferente… somos constantemente desmotivados a estudar”, destacando a relevância do suporte dado pelo projeto Papo Futuro. Atualmente, a iniciativa recebe doações de capital e dispositivos usados em seu site, com frentes de atuação nacional e internacional.

Sabemos que uma única ONG não terá capilaridade e força substituir a ação governamental na condução de políticas públicas de amplo alcance. Entretanto, é especialmente nesses momentos que também se mostra o imprescindível valor da solidariedade contra a nossa histórica marca da desigualdade. Melhores políticas públicas e mais solidariedade, uma síntese do caminho que se aponta.

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