Alô Saúde Floripa: prazer em conhecê-lo!

Alô Saúde Floripa: prazer em conhecê-lo!

REDAÇÃO

05 de abril de 2021 | 11h22

Ricardo Collar Rebolho, Mestre em Administração pelo Centro de Ciências da Administração e Socioeconômicas (Esag) da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Médico com residência em Clínica Médica (UNIFESP) e Medicina de Família e Comunidade (SMS-Florianópolis). Atua como médico de família e comunidade na Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis

Fabiano Maury Raupp, Doutor em Administração (UFBA). Professor Associado do Centro de Ciências da Administração e Socioeconômicas (Esag) da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). É líder do Núcleo de Estudos para o Desenvolvimento de Instrumentos Contábeis e Financeiros e membro do Observatório de Finanças Públicas (Ofip)

Os serviços de atendimento pré-clínicos por telefone são utilizados em vários países como alternativa para organização do atendimento fora do horário comercial e direcionamento dos pacientes para atendimento no local mais adequado de acordo com o caso. Esses serviços existem desde o início da década de 90 no Reino Unido, Holanda, Dinamarca e outros países europeus. Também, são encontrados nos Estados Unidos, Canadá e Austrália.

O Alô Saúde Floripa [1], implantado em 16 de março de 2020, é o primeiro programa deste tipo no Sistema Único de Saúde brasileiro, que se conhece, consistindo basicamente em uma central telefônica, composta por enfermeiros e técnicos de enfermagem. Uma de suas principais influências foi o National Health Service (NHS) 111 do sistema de saúde público britânico. Tais inspirações são compostas por centrais telefônicas com funcionamento 24 horas por dia para as quais os pacientes podem realizar ligações gratuitas e serem orientados por profissionais de saúde quanto a necessidade ou não de procurar um atendimento presencial, em qual local e orientações para medidas de autocuidado quando pertinente.

A partir das respostas dos pacientes, eles são encaminhados para um destes possíveis desfechos: ligar para o SAMU, procurar emergência hospitalar, procurar atendimento em Unidade de Pronto Atendimento (UPA), ir em consulta agendada pelo Alô Saúde Floripa no Centro de Saúde (CS) no dia seguinte, entrar em contato com o CS por telefone ou aplicativo de mensagem para agendar consulta ou orientações de autocuidado sem necessidade de atendimento médico. Quando o paciente é orientado a entrar em contato com o CS, o atendimento pode ser realizado tanto por consulta presencial como por teleconsulta, a depender da queixa do paciente.

Com o surgimento da pandemia de Covid-19, o Alô Saúde Floripa mostrou-se ainda mais necessário, evitando o deslocamento desnecessário de pacientes para os serviços de saúde que poderia colocar em risco tanto os pacientes quanto os profissionais. Devido à pandemia, foi autorizado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) [2], Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) [3] e Ministério da Saúde [4] o uso de consultas médicas e de enfermagem à distância por telefone, aplicativo de mensagens ou chamadas de vídeo. A partir de então, boa parte das consultas na Atenção Primária à Saúde (APS) em Florianópolis passaram a ser realizadas por essas ferramentas. De 16 março a 31 de outubro de 2020, período considerado para o presente artigo, foram atendidas mais de 50 mil ligações para o Alô Saúde Floripa.

A experiência trouxe impactos positivos para a rede municipal de saúde e seus dados foram comparados com pesquisas anteriores em outros países. Estudo semelhante foi realizado após a implantação do NHS 111 em quatro regiões do Reino Unido em 2011. O número de ligações por 1000 habitantes por ano variou de 147 a 345, com média de 220 [5]. Considerando a população estimada de Florianópolis em 2020 de 508.826 pessoas, foram realizadas um total de 52.257 ligações no período do estudo, sendo o número de ligações por 1000 habitantes de 164. Ainda no relatório com dados do Reino Unido, o percentual de ligações que foi encaminhado para triagem clínica variou de 21,3 a 33,7%, com média de 29,52%. Este valor foi mais baixo que o encontrado neste estudo, que foi de 49,52%. Um estudo americano [6] mostrou um percentual de ligações encaminhado para triagem clínica de 46%.

Em estudo realizado na Dinamarca [7] com mais de 30 mil pacientes que ligaram para o serviço de atendimento telefônico do sistema de saúde público local, as características demográficas dos pacientes foram semelhantes às encontradas neste estudo. A maioria dos pacientes eram mulheres (54,8%) e a faixa etária mais comum era entre 18 e 59 anos (45,2%). Apenas 15,1% das ligações foram realizadas durante o horário de abertura dos Centros de Saúde locais. O tempo de espera foi menor que 3 minutos para 35,7% dos pacientes e o tempo do atendimento foi de 3 a 6 minutos para 45,6% das ligações. O desfecho mais comum orientado foi encaminhamento para consulta presencial (56,4%), seguido por consulta telefônica (33,5%) e ambulância (4,6%).

Os resultados com o Alô Saúde Floripa mostraram que a maioria dos pacientes que foram atendidos eram adultos jovens, a maioria das ligações ocorreu em horário comercial e a queixa mais comum foram sintomas relacionados ao novo coronavírus. Grande parte dos pacientes tinha intenção inicial de procurar uma emergência hospitalar (37,58%) e após a ligação o desfecho mais comum foi orientações para autocuidado no domicílio (41,10%) seguido por consulta no CS (38,70%). O percentual de adesão as recomendações fornecidas pelo serviço foi de 95,68% e 80,97% dos pacientes deram nota 9 ou 10 para o serviço. Cabe ressaltar que o período de estudo do Alô Saúde Floripa compreendeu a pandemia da Covid-19, possivelmente “inflacionando” alguns dados, não sendo a realidade dos estudos anteriores mencionados. Ainda assim, pressupõe-se que sua aplicação se afirmará também em período pós pandemia, dadas as suas muitas vantagens.

O Alô Saúde Floripa surge da necessidade de organizar o trajeto dos pacientes pelas diversas portas de acesso da rede de saúde pública de Florianópolis, ajudando o paciente a decidir qual serviço e em que momento ele deve procurá-lo de acordo com o seu problema. O serviço também visa promover a educação em saúde e o empoderamento do paciente, para que ele seja capaz de tomar as atitudes necessárias para o seu autocuidado. Outro benefício para o paciente é a economia de tempo e custos com deslocamentos e longos tempos de espera para atendimentos presencias nos serviços de pronto-atendimento do município. Quanto aos benefícios para a rede municipal de saúde, eles incluem a redução de atendimentos desnecessários, o melhor manejo da carga de trabalho do serviço e a diminuição do fluxo de pacientes em busca de informações nas recepções dos serviços de saúde.

[1] Conferir: FLORIANÓPOLIS. Alô Saúde Floripa. Disponível em: https://alosaudefloripa.com.br/ Acesso em: 04 abr. 2021.

[2] Conferir: CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (CFM). Ofício CFM Nº 1756/2020 – COJUR, de 19 de março 2020. 2020. Disponível em: https://portal.cfm.org.br/images/PDF/2020_oficio_telemedicina.pdf. Acesso em: 25 ago. 2020.

[3] Conferir: CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução COFEN n.º 634, de 26 de março de 2020. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-0634-2020_78344.html#:~:text=Autoriza%20e%20normatiza%2C%20%E2%80%9Cad%20referendum,tecnol%C3%B3gicos%2C%20e%20d%C3%A1%20outras%20provid%C3%AAncias. Acesso em: 25 ago. 2020.

[4] Conferir: BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria n.º 467, de 20 de março de 2020. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-467-de-20-de-marco-de-2020-249312996. Acesso em: 25 ago. 2020.

[5] Conferir: TURNER, J. et al. Evaluation of NHS 111 pilot sites: Final Report to the department of Health. Sheffield: Medical Care Research Unity, The University of Sheffield, 2012. Disponível em: https://www.sheffield.ac.uk/polopoly_fs/1.220020!/file/NHS_111_final_report_August2012.pdf. Acesso em: 23 out. 2020.

[6] Conferir: NAVRATIL-STRAWN, J. L.; OZMINKOWSKI, R. J.; HARTLEY, S. K. An economic analysis of a nurse-led telephone triage service. J Telemed Telecare, v. 20, n. 6, p. 330-338, set. 2014. DOI: 10.1177/1357633X14545430. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/1357633X14545430. Acesso em: 5 set. 2020.

[7] Conferir: ZINGER, N. D. et al. Satisfaction of 30 402 callers to a medical helpline of the Emergency Medical Services Copenhagen: a retrospective cohort study. BMJ Open, v. 9, n. 10, p. e029801, out. 2019. DOI: 10.1136/bmjopen-2019-029801. Disponível em: https://bmjopen.bmj.com/content/bmjopen/9/10/e029801.full.pdf. Acesso em: 28 out. 2020.

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