Alagoas após seis meses de Pandemia: doença segue desacelerando, mas as medidas sanitárias necessitam ser reforçadas[i]

Alagoas após seis meses de Pandemia: doença segue desacelerando, mas as medidas sanitárias necessitam ser reforçadas[i]

REDAÇÃO

12 de setembro de 2020 | 18h20

Luciana Santana (Universidade Federal de Alagoas), Doutora em ciência política pela UFMG/ Membro/coordenadora da Rede Análise COVID-19.

Emerson do Nascimento (Universidade Federal de Alagoas), Doutor em ciência política pela UFPE.

Marcelo A. S. Bragatte (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Mestre em Genética e Biologia Molecular/ Doutorando CAPES no PPGBM/UFRGS e coordenador da Rede Análise Covid-19.

 

Alagoas completa mais de 180 dias do registro do primeiro caso de infecção em decorrência do novo coronavírus. De lá para cá, a evolução da doença se alterou bastante ao longo de desse tempo. A situação no primeiro mês de pandemia foi relativamente tranquila, embora, não se saiba ainda com precisão quanto o atraso da testagem em grande escala pode ter afetado, inicialmente, o diagnóstico preciso da evolução da doença. Depois, Alagoas chegou a registrar momentos de muita turbulência, registrando taxas de contágio e picos de contaminação quando os demais estados da região já sinalizavam para o arrefecimento do novo coronavírus.

O primeiro momento de preocupação mais evidente ocorreu entre a segunda quinzena de abril até a segunda quinzena do mês de junho, quando as taxas de infecções pelo vírus e óbitos cresceram em um ritmo bastante acelerado. Tal situação ocorreu à despeito do esforço coordenado da gestão de estado na adoção de ações e estratégias de combate à doença. E pode-se mesmo dizer que estas medidas foram importantes e necessárias, sobretudo no início da pandemia, conforme mencionado em publicação no Nexo[ii].

Outro momento que chamou muita atenção foi com a expansão da doença para o interior do estado. O processo de interiorização da COVID-19 levou cerca de 108 dias para alcançar os 102 municípios alagoanos, conforme pode ser observado no mapa I. De acordo com texto publicado em junho no site da ABCP, a situação chamou atenção, especialmente, devido às condições socioeconômicas da maior parte destes municípios. Em função da rede de dependência social e econômica que liga os pequenos municípios alagoanos, as limitações estruturais destes municípios restringiram bastante seu poder de resposta à pandemia.

 

MAPA 1– PROCESSO DE INTERIORIZAÇÃO DA PANDEMIA EM ALAGOAS (24/07/2020)

 

À medida que a doença se expandia para o interior, a capital do estado –  Maceió – começou a ter uma queda no número de óbitos e ter uma redução na taxa de ocupação de leitos exclusivos para COVID-19. Essa foi a justificativa principal do governo para a apresentação do Plano de Distanciamento Controlado do estado. O plano foi apresentado dia 22 de junho de 2020[iii]por meio do decreto de número 70145 no qual foram definidas cinco fases de afrouxamento das medidas de distanciamento social, classificadas pelas cores vermelha (risco elevado); laranja (risco moderado alto); amarela (risco moderado); azul (risco moderado baixo) e verde (risco controlado). Esta classificação leva em consideração três eixos estratégicos para orientar a tomada de decisões quanto a flexibilização de atividades e serviços no estado: utilização da capacidade hospitalar instalada[iv]; evolução epidemiológica[v]; e taxa de evolução da COVID-19[vi].  Em complementação às diretrizes apresentadas no Plano, uma matriz de risco foi publicada no dia 26 de junho, através do decreto estadual de número 70177.

No dia 30 de junho o decreto 70178 estabeleceu uma espécie de aplicação territorializada das medidas. Desta forma, algumas regiões e cidades do estado estavam em fases diferenciadas no mesmo período. Dentro do modelo classificatório dos decretos mencionados acima, todos os municípios do estado de Alagoas permaneceram na fase vermelha até o dia 19 de julho. A partir de 20 de julho, de acordo com o decreto 70349 de 13/07/2020,alguns municípios da região metropolitana e da região do litoral norte do estado saíram também da fase vermelha e passaram à fase laranja. Os demais municípios permaneceram na fase vermelha.

E qual é a situação da pandemia no estado atualmente? O estado continua mantendo em vigor medidas de distanciamento social? Qual a avaliação pode ser feita da evolução da pandemia?

De acordo com os dados do último boletim Epidemiológico da Secretaria de Saúde do estado, publicado no dia 11/09/2020, nas últimas 24 horas, foram confirmados mais 188 casos de COVID-19 em Alagoas e 8 óbitos. O estado passa a acumular um total de 81.440 casos confirmados do novo coronavírus, dos quais 1.374 estão em isolamento domiciliar e 68 internados em leitos públicos e privados. Outros 78.044 pacientes já finalizaram o período de isolamento, não apresentam mais sintomas e, portanto, estão recuperados da doença. 2.804 casos estão em investigação laboratorial. O número de óbitos por COVID-19 chegou a 1.965  óbitos.

A análise dos registros diários de contaminados e mortos por COVID-19 no estado nos últimos 31 dias nos permite apontar para uma relativa redução dos números no estado.

 

FIGURA 1: SITUAÇÃO DA PANDEMIA EM ALAGOAS

 

Na primeira linha da figura acima temos os dados de casos e, na segunda linha, os óbitos. Sendo na primeira coluna o acompanhamento da pandemia desde seus primeiros casos. Na segunda coluna, um recorte dos últimos 31 dias de pandemia em Alagoas. Em azul no formato de barras são apresentados os casos/óbitos. A média móvel é representada pela linha na cor laranja para os casos de contaminados e na cor vermelha para os óbitos. A média móvel foi calculada com intervalos de sete dias.

De acordo com esses dados é possível verificar uma redução na tendência de casos e óbitos, mas esta redução ainda segue em ritmo lento.

A partir do início da desaceleração da pandemia, já é possível observar um desafogamento do sistema de saúde, no que compreende a disponibilidade de leitos para tratamento de COVID-19. Atualmente, dos 1.326 leitos criados pela Secretaria de Estado da Saúde (SESAU-AL), 217 encontram-se ocupados[vii], o que corresponde a 16% do total. Atualmente, 101 pacientes estão em leitos de UTI, 4 em leitos intermediários e 112 em enfermaria.

Em balanço apresentado à Assembleia Legislativa de Alagoas pelo secretário de Estado da Saúde, Alexandre Ayres, na quinta-feira última  (10/09/2020), foram empenhados o montante de R$ 71,7 milhões de recursos estaduais e R$ 83,7 milhões de recursos federais no combate à doença no estado. Foram implantadas centrais de triagens em Maceió e Arapiraca, além das aquisições e distribuição de testes. Até o dia 31/08/2019 foram realizados 18.824 testes RT-PCR no Laboratório central (Lacen), e distribuídos 138.475 kits com testes rápidos, enviados pelo governo federal, para os 102 municípios alagoanos.

E em relação às medidas de distanciamento social em vigor no estado? De acordo com o último balanço epidemiológico apresentado pelo governo do estado, Maceió se mantém na fase azul do plano de retomada das atividades, enquanto o resto do estado está na fase amarela. Enquanto Maceió se mantém em situação de risco moderado baixo, as outras cidades do interior estão na condição de risco moderado. Esse aparente descompasso entre capital e interior do estado reflete a própria dinâmica de expansão do novo vírus, que só chegou às cidades do agreste e sertão alagoano muito depois da expansão do contágio na capital. A previsão é que essa situação ainda permaneça inalterada nos 15 dias

As perspectivas em relação ao controle da pandemia parecem promissoras, todavia, há que se destacar a necessidade de supervisionamento e controle, especialmente na capital que concentra a maior densidade populacional dentre as cidades estado. Neste sentido, se por um lado Maceió já se abriu para muitas atividades não essenciais; outros espaços como cinemas, museus, teatros e escolas ainda seguem fechados pelo receio dos efeitos que sua abertura nesse momento pode provocar sobre a disseminação do novo vírus.

A decisão do governador Renan Filho (MDB) por acompanhar prognósticos[viii]diferentes para cada região do estado para definir a mudança na classificação de risco na doença nos municípios e de considerar a situação nacional e internacional da doença parece acertada. Ademais, o apoio de prefeitos nas diferentes regiões do estado foi fundamental, e aqui cabe destacar que, desde o início da pandemia, o prefeito de Maceió, Rui Palmeira, se mantém alinhado às medidas adotadas pelo governo estadual.

Entretanto, à despeito da cooperação entre os governos, do cenário de redução de casos e óbitos no estado, e melhora na taxa de ocupação do sistema de saúde alagoano, a manutenção de medidas de distanciamento ainda são necessárias e primordiais para favorecer uma tendência mais acentuada no número de casos e óbitos. A adoção de novas medidas de afrouxamento das restrições requer cautela, vigilância e controle. É preciso que os governos – estadual e municipais – mantenham acompanhamento rigoroso da situação epidemiológica em todo o território, amplie a testagem dos casos suspeitos de covid-19, adote estratégias de rastreamento dos casos e reforce as medidas de distanciamento. E mais do que isso, é fundamental que a população colabore com o cumprimento das recomendações sanitárias, especialmente evitando aglomerações, utilizando as máscaras de forma adequada e higienize as mãos com frequência. A doença está em desaceleração, mas o vírus continua fazendo vítimas e levando pessoas a óbito, de tal forma que não há nada a comemorar.

 

[i]O texto faz parte do projeto “Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia de covid-19 no Brasil” coordenado pela pesquisadora Dra. Luciana Santana. A quarta série completa de todos os estados pode ser encontrada em: https://cienciapolitica.org.br/projetos/especial-abcp-4a-edicao-governos-estaduais-e-acoes

[ii]As ações foram coordenadas entre governo estadual e o da capital, houve disposição cooperativa de diálogo com municípios e a priorização de ações de aporte científico no processo de tomada de decisões no planejamento e definição de estratégias de combate ao novo coronavírus no estado.

[iii]Decretos estaduais da pandemia em Alagoas: Decreto nº 69.501, de 13 de março de 2020; Decreto nº 69.527, de 17 de março de 2020, Decreto nº 69.529, de 19 de março de 2020, Decreto 69.530, de 19 de março de 2020, Decreto l nº 69.541 de 20 de março de 2020, Decreto nº 69.577, de 28 de março de 2020, Decreto nº 69.624, de 6 de abril de 2020; Decreto nº 69.700, de 20 de abril de 2020; Decreto nº 69.722, de 4 de maio de 2020, Decreto nº 69.844, de 19 de maio de 2020, Decreto nº 69.935, de 31 de maio de 2020; Decreto nº 70.066 de 09 de junho de 2020, Decreto 70.145 de 22 de agosto de 2020; Decreto 70.177 de 26 de junho de 2020; Decreto 70.513 de 27 de julho de  2020 e 70.725 de 11 de agosto de 2020.

[iv]Significa a ocupação de leitos exclusivos para COVID-19 (coronavírus), sendo este eixo composto por 3 (três) indicadores: a) Taxa de Ocupação de Leitos com respiradores: percentual de ocupação de leitos com respiradores da rede hospitalar exclusiva para pacientes com COVID-19), sendo a soma de leitos de UTI mais os leitos intermediários; b) Taxa de Ocupação de Leitos Geral: percentual de ocupação de leitos da rede hospitalar exclusiva para pacientes com COVID-19, sendo os leitos com respiradores mais os leitos de enfermaria; e c) Quantidade de Leitos com respiradores por 100 (cem) mil habitantes: quantidade de leitos com respiradores exclusivos para pacientes com COVID-19 para cada grupo de 100 (cem) mil habitantes.

[v]Serão verificados a evolução do número de óbitos no Estado de Alagoas, tendo como indicadores: a) Óbitos por Semana Epidemiológica: total de óbitos confirmados somados aos óbitos em investigação por COVID-19 ocorridos naquela semana; e b) Taxa de Letalidade: índice de morte em pacientes confirmados com a doença.

[vi]Evolução da COVID-19, avaliada pelo seguinte indicador: a) Razão de casos ativos por casos recuperados.

[vii]Esses dados referem-se até 17h da quinta-feira (04/09): Fonte: www.alagoascontraocoronavirus.com.br.

[viii]Considera a avaliação das especificidades locais no tratamento das condições de isolamento e de segurança tem sido muito importante para a contenção da pandemia

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