Advocacy pela vida e o combate ao Covid-19

Advocacy pela vida e o combate ao Covid-19

REDAÇÃO

13 de abril de 2020 | 09h28

Gabriela de Brelàz é mestre e doutora em Administração Pública e Governo pela FGV EAESP e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

 

Os acontecimentos no nosso país estão ganhando uma rapidez excepcional. A nossa vida há duas, 4 semanas atrás era completamente diferente do que é hoje e certamente, ainda irá mudar muito nas próximas semanas devido ao ciclo da pandemia causada pela Covid-19. Gostaria de trazer três reflexões sobre o momento atual 1) o Estado é importante e não deve ser minimizado (State matters); 2) redes de solidariedade funcionam e têm uma enorme capacidade de mobilização; e 3) a ciência é vital.

A atuação e o papel do Estado, que muitos, especialmente os neoliberais, tentavam minimizar há pouco tempo atrás, mostra-se crucial neste momento. Muitos que sempre pregaram o Estado mínimo, agora clamam pela ajuda estatal. O mercado é incapaz de enfrentar sozinho esta pandemia e o Estado é imprescindível, o único capaz de controlar, organizar e lidar com a crise de saúde pública e econômica causada pela pandemia, assim como promover o desenvolvimento econômico e social, redistribuição de renda e a redução das desigualdades. É um ator de peso fundamental na direção dos processos políticos, sociais e na formulação e implementação de políticas públicas. Contudo, não poemos esquecer que são clivagens neste mesmo Estado, onde atuam diferentes grupos de interesse da sociedade e partidos, que levaram à precarização da saúde pública no Brasil nos últimos anos.

O atual contexto tem nos dado aulas diárias em relação ao papel fundamental dos três poderes e os sistemas de pesos e contrapesos (checks and balances). A pandemia está nos trazendo esta reflexão de forma mais evidente, assim como permitindo e promovendo uma redescoberta do importante papel do Estado. Após 35 anos da edição do clássico livro Bringing the State Back in de Peter Evans, Dietrich Rueschmeyer & Theda Skocpol (1985), retomar a discussão do papel da centralidade do Estado para o desenvolvimento e a redução dos danos decorrentes da pandemia no país, é fundamental. Esta tendência seguirá após a pandemia, no período de recuperação econômica que viveremos. Assim, pesquisas devem ser direcionadas para entender esta dinâmica e comparar o que está sendo feito no mundo e o que tem alcançado melhores resultados.

A segunda reflexão que gostaria de destacar são as inúmeras mensagens e notícias que recebemos diuturnamente sobre a evolução do vírus no Brasil e no mundo, as estratégias de combate, políticas públicas sendo criadas rapidamente, sobre as disputas entre os entes federativos, sobre à falta de EPIS e respiradores, entre tantas outras notícias. Destaco as inúmeras (e importantes) mensagens recebidas sobre redes de doação, apoio, colaboração, cooperação que estão sendo criadas como consequência desta pandemia histórica que o mundo está vivendo.

Advocacy pela vida e o combate ao Covid-19 tem mobilizado milhares de pessoas que na sua rotina diária não acompanhavam a realidade de milhares de cidadãos que hoje, mais do que nunca, precisam de apoio. E nessa estratégia entram diversas iniciativas de influenciar políticas públicas, também conhecido por lobby. Mas o que é advocacy? O que é lobby? Advocacy, termo amplamente utilizado nos dias de hoje, é o ato de identificar, adotar e promover uma causa, neste caso, a defesa da vida e o combate ao Covid-19, a promoção da saúde, a defesa de condições dignas de alimentação, habitação, de saúde mental e de condições de trabalho de centenas de milhares de brasileiros. A esse papel de advocacy, “sair em defesa”, pode ser incorporada a ideia de ativismo

Assim, Advocacy pode ser feito através de educação sobre um determinado tema, comunicação (campanhas de saúde pública, por exemplo) e influência em leis e políticas públicas, também conhecido por lobby. Sendo assim, lobby pode ser entendido como parte da atividade de advocacy e pode ser feito por empresas, movimentos sociais, ONGs, entre outros.

São inúmeras as iniciativas destas redes, entre as quais podemos citar movimentos e coletivos da sociedade, alguns ligados à organizações religiosas, surgindo nas periferias, grupo de pais auxiliando o comerciantes em torno da escola a manter seu comercio ativo (pipoqueiro, vendedor de lanches, entre outros); pessoas físicas e jurídicas (empresas, bancos) auxiliando hospitais públicos na aquisição de EPIs, testes de detecção, e equipamentos para UTIs; redes de moradores promovendo campanhas de arrecadação para incentivar os restaurantes da região a produzirem refeições para os profissionais da saúde de hospitais públicos; doações de cestas básicas para pessoas que perderam sua fonte de renda. Há também redes de apoio de psicólogos que apoiam virtualmente pessoas com sofrimento pela dificuldade de isolamento; redes de apoio a violência contra mulher, diversos canais virtuais sendo criados para esta questão; confecções produzindo máscaras de tecido para distribuir aos não profissionais da saúde.

Como professora na Universidade Federal de São Paulo e atuante na gestão, vivenciei de perto a ampla rede de apoio que nasceu em torno do nosso Hospital Universitário, o Hospital São Paulo (HSP/HU/Unifesp). Inúmeras pessoas entraram em contato para ajudar de diversas formas e para organizar esta rede de apoio. Para isso, criamos uma ampla campanha “Ajude o Hospital São Paulo. Quem Salva vidas precisa viver! #doehsp” (https://www.unifesp.br/doehsp) promovida pelo HSP/HU e pela Unifesp com o apoio de suas Unidades Universitárias, Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), e da Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp) e outros parceiros privados no entorno do complexo em saúde da Unifesp. O HSP é um dos maiores hospitais universitários do país, sendo responsável pela cobertura de uma área de 5 milhões de habitantes de São Paulo e campo de formação para profissionais da medicina, enfermagem, psicologia, fisioterapia, e outros profissionais da saúde. É considerado um dos principais hospitais de referência de alta complexidade do Estado e da Cidade de São Paulo e está aberto à toda a população para atendimento pelo SUS. O montante arrecadado com as doações em dinheiro é totalmente direcionado ao HSP/HU, assim como os materiais recebidos, com prestação de contas sobre o uso dos recursos, com transparência e garantindo o controle social. Campanhas como estas são fundamentais para o atendimento e a segurança dos profissionais de saúde e dos pacientes.

As pessoas parecem ter acordado e estar olhando para o outro, como nunca antes. Aqueles que já faziam ações de voluntariado ou de engajamento especificas, elevaram a sua atuação e contagiam (sim há contágio positivo decorrente do corona vírus) aqueles que nunca fizeram e que passaram a entrar nesta mobilização sem precedentes em grupos de apoio que “viralizam” com o uso de whatsapp e plataformas. Esta ação independe do bairro, classe socioeconômica, cor partidária, gênero. Há uma ampla mobilização de todos, fazendo um belíssimo trabalho em defesa da vida (o conhecido advocacy dos livros e estudos acadêmicos).

Por último, destaco o papel crucial da ciência no Brasil e no mundo, e a devida importância que lhe foi negada recentemente. Assim como os profissionais na área da saúde, os nossos pesquisadores merecem todo o reconhecimento dos cidadãos brasileiros. Mesmo em condições adversas de trabalho, com cortes de bolsas, recursos escassos e tentativas constantes de desqualificação de pesquisas e alertas da comunidade científica, estes mostram mais do que a sua relevância, a sua essencialidade. Não se pode ir contra as evidências científicas. A ciência é quem nos permite entender a doença e suas características, a melhor forma de combatê-la em termos de medicamentos, estratégias e políticas públicas e os mecanismos para lidar com os impactos econômicos que ela causa. Destaquemos o papel das pesquisadoras ligadas ao Instituto Adolfo Lutz, ligado ao Governo do Estado de São Paulo e do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP), responsáveis pelo sequenciamento genético do vírus, algo fundamental para o desenvolvimento posterior de testes de detecção. Diversos grupos de pesquisa dedicam-se a isto neste momento. Citamos também o desenvolvimento de equipamentos como respiradores/ventiladores mecânicos e equipamentos de segurança, que estão sendo produzidos de forma econômica e em grande escala, assim como pesquisas científicas para o desenvolvimento de vacinas e tratamentos. Fazemos pesquisa de ponta no Brasil e a ciência é condição sine qua non para o desenvolvimento. Muitas palmas em homenagem aos trabalhadores da saúde e também aos cientistas.

Temos muitos desafios nas próximas semanas, mas acredito que o que ocorre hoje no mundo trará consequências positivas, para além da enorme tristeza causada pela perda dos entes queridos e bravos trabalhadores da saúde. Inúmeras previsões já estão sendo feitas por renomados pensadores e filósofos, mas deixo aqui uma expectativa como reflexão final: passada a pandemia, que haja transformação e que consigamos, com um estado eficiente e forte, que dê assistência aos cidadãos e que valorize a ciência, aliado a uma sociedade mais solidária, uma retomada do nosso desenvolvimento econômico e social e, principalmente, que possamos garantir o bem maior: a vida das pessoas em uma sociedade mais justa e ambientalmente sustentável.

 

Gostaria de fazer um agradecimento aos Profs Pedro Fiori Arantes e Soraya Smaili pelos comentários em versão prévia deste artigo.

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