A vitória de Bolsonaro no BID

A vitória de Bolsonaro no BID

REDAÇÃO

15 de setembro de 2020 | 20h51

Márcio Augusto Scherma, Professor Adjunto de Relações Internacionais da UFGD.

Feliciano de Sá Guimarães,Professor Associado de Relações Internacionais da USP.

 

O presidente Jair Bolsonaro atingiu o seu objetivo na eleição para a presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Ajudou a eleger um americano indicado por Trump – Mauricio Claver-Carone – que irá implementar uma agenda anti-China dentro da instituição e fortalecerá a aliança conservadora nas Américas. O governo Bolsonaro jamais levaria em consideração algum tipo de aliança latino-americana. Para os bolsonaristas, a América Latina como categoria política não existe. O que há é uma luta global de conservadores contra globalistas apoiados por comunistas chineses. O BID é mais um campo desta disputa.

O BID ocupa, desde os anos 60, papel central no desenvolvimento da América Latina e do Brasil. Com o tempo o BID tornou-se a mais importante fonte de crédito multilateral do país. O Brasil é o segundo mais importante acionista, ao lado da Argentina, e ambos os países historicamente se aliavam para influenciar os destinos do banco. Com Bolsonaro, Brasil e Argentina se tornaram rivais e esta divisão foi bem explorada por Trump.

A relevância da aliança entre Brasil e Argentina não é por acaso. Quando o Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento (hoje Banco Mundial) foi criado no pós-Guerra, a América Latina foi deixada de lado. Os recursos eram enviados sobretudo para a Europa. Assim, países da região, com apoio da CEPAL e seu economista-chefe, o argentino Raúl Prebisch, começaram a demandar um organismo complementar. No entanto, o problema era justamente os EUA que consideravam suficientes os organismos disponíveis e sempre se mostraram contra a proposta.

As condições possíveis para a criação do banco só apareceram no final dos anos 50. A pobreza era flagrante na América Latina e crescia o antiamericanismo. A opção socialista se tornou realidade com a revolução cubana. Era o momento ideal para requisitar apoio estadunidense. Neste momento o Brasil teve um papel fundamental: o presidente Jucelino Kubistchek redigiu uma carta ao presidente Dwight Eisenhower, na qual conclamava o auxílio dos EUA através da “Operação Pan-americana”. O resultado foi a criação do banco em 1959.

O Banco tem estrutura semelhante à do Banco Mundial, mas com diferenças importantes: no BID os países em desenvolvimento detêm maioria de poder votante; há ferramentas de assistência técnica; e, principalmente, os quadros do Banco são formados por latino-americanos, ligados à região e às suas peculiaridades. Os latino-americanos historicamente elegeram o presidente, desde que se articulassem entre si, algo que sempre ocorreu até Bolsonaro. Ao contrário do Banco Mundial, portanto, o BID é uma instituição na qual países do Sul Global possuem forte influência.

Os EUA nunca gostaram dessa configuração, e sempre tentaram revertê-la. A partir do fim dos anos 80, usaram as negociações para recapitalizar o Banco para aumentar seu capital votante. Único país capaz de aportar recursos, os EUA exigiram ampliar capital votante – passaram de 30% para 34%, enquanto os latino-americanos caíram de 53,8% para 50,1%, mas conseguiram manter a maioria e as características fundamentais do Banco.

Nos anos 2000, as investidas americanas continuaram. Em 2005, o governo Lula, que apostava num papel de liderança regional para o Brasil, lançou a candidatura de João Sayad à presidência do BID. O economista foi derrotado pelo colombiano Luis Alberto Moreno, reeleito em 2010 e 2015. Moreno, colombiano nascido na Filadélfia, era bastante alinhado aos interesses estadunidenses e contou com a apoio de vários países latino-americanos. A ascensão brasileira foi contida por uma aliança de governos liberais apoiada pelos EUA.

O processo eleitoral que o substituiu no último domingo foi marcado por uma forte reconfiguração de forças na região. Os EUA de Trump encontraram em Bolsonaro um aliado incondicional e pronto a combater chineses e elites globalistas. Esta aliança foi pivotal para a vitória do candidato de Trump. Quando Brasil e EUA se aliaram, México e Argentina ficaram sem votos suficientes para bancar uma contra aliança e se viram obrigados a absterem. O núcleo de poder do banco que sempre esteve em disputa pelos polos de Brasil e Argentina, de um lado, e EUA, de outro, agora foi alterado e assegurou o controle de Washington.

O BID é muito importante como âmbito onde são definidas as regras e condutas na área de investimentos para toda a América Latina, algo muito caro a Pequim. Assim, Claver-Carone ajudará qualquer governo americano na disputa com os chineses. Nesse sentido, a vitória de Trump é também uma vitória de Bolsonaro porque a identidade da política externa brasileira não mais se baseia na defesa da América Latina, mas sim no ocidentalismo e na luta contra a ascensão chinesa. Trump (e Bolsonaro a reboque) deseja reformar instituições internacionais à sua imagem e semelhança. O BID é apenas o locusregional desta disputa global.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: