A sub-representação das mulheres na política

REDAÇÃO

20 de junho de 2015 | 11h29

Lilian Furquim de Campos Andrade, é Economista com Doutorado em Ciência Política. Professora da Escola de Economia da FGVSP (EESP/FGV) e do curso de Administração Pública da EAESP/FGV.

A média mundial de participação das mulheres nos parlamentos é de, aproximadamente, 21% das cadeiras. No Brasil, das 513 cadeiras na Câmara dos Deputados, 51 são ocupadas por mulheres e, no Senado, temos 13 mulheres num total de 81 senadores. Desde a 4a Conferência da ONU pelas Mulheres em 1995, no qual todos os países signatários assinaram o documento “Beijing Platform for Action”, há um esforço mundial para aumentar a participação das mulheres nos cargos eletivos. Aqui não se refere apenas à defesa de uma agenda “feminista”, mas ao fato de que as mulheres não consideram a política uma carreira a ser seguida, e seguem sub-representadas nos parlamentos. Mas como alterar este quadro? A “Platform for Action” ressalta que existem outras estratégias, além das cotas, que a sociedade civil pode utilizar para aumentar a representação feminina nos cargos eletivos.

Para tratar do assunto, vou me valer do interessante artigo da cientista política, Mona Krook*, que esteve recentemente no Brasil em evento na Faculdade de Direito da USP. Ela aponta que não basta oferecer vagas (ou cotas) para mulheres, elas precisam acreditar que a carreira política é uma alternativa possível.  É preciso mudar a imagem de que a política é uma carreira tipicamente “masculina”. O que ela está nos dizendo é que, no mercado da política, é preciso aumentar a oferta de candidatas, e aumentar a demanda, por parte dos partidos políticos, por mulheres candidatas.

Segundo a autora, há várias interpretações para o por quê da subrrepresentatividade das mulheres nos parlamentos pelo mundo afora: diferentes graus de ambição entre mulheres e homens, preferência dos recrutadores dos partidos por homens e preconceito dos eleitores, que prefeririam eleger homens.

No sistema de recrutamento de candidatos temos três fases: de elegível para aspirante, de aspirante para candidato e de candidato para eleito.  Na primeira fase, as razões para a escassez de candidatas estariam no fato de que as mulheres não teriam motivação (ambição e interesse por política) e nem recursos (dinheiro e experiência).

Na segunda fase, de aspirante para candidata, a mulher precisa mostrar aos recrutadores dos partidos suas qualificações e competências. Aqui é o lado da demanda que opera: os recrutadores precisam revisar sua tendência de achar que as mulheres não estariam qualificadas para a carreira política.  Na terceira fase, uma vez candidatas, elas precisam de recursos e de apoio “efetivo” de seu partido, para terem reais chances de ganhar.

O que podemos extrair deste artigo para a realidade brasileira? De forma resumida, a sociedade civil seria o ator fundamental, sobretudo na primeira fase, para despertar o interesse das mulheres para a carreira política, treinando-as e incentivando-as. Atividades de formação e orientação a fim de capacitar as lideranças femininas, desde cedo. Tais atividades podem ser promovidas por escolas, universidades, centros de estudos, ONGs e, inclusive, partidos políticos. Aqui ressaltaria o papel fundamental da escola no despertar do interesse das meninas para a atividade política. Do lado da demanda, a sociedade civil pode promover campanhas visando alterar os estereótipos e conclamando a participação política feminina.

 

A sociedade civil, portanto, tem o papel de fazer uma mudança cultural para redesenhar as atitudes públicas em relação às mulheres na política e ajudar a alterar os critérios de escolha dos partidos. A participação das mulheres nas atividades partidárias é essencial para que ganhe experiência na máquina partidária e se mostre, perante seus pares do partido, como uma candidata preparada, com propostas e competitiva.

 

A sociedade civil também pode criar programas de arrecadação de fundos, dirigidos para o financiamento de candidatas mulheres, como a EMILY’s List nos Estados Unidos. O ponto relevante é que nós, sociedade civil, temos um papel fundamental a cumprir quando se fala em representação política da mulher.

 

Aqui faço uma ressalva: estamos tratando do aumento de mulheres nos cargos eletivos, mas não tratamos da qualidade da representação. Neste artigo, não há espaço para desenvolvermos isso, no entanto, neste quesito, nossa preocupação deve ser dirigida para os dois gêneros. Queremos bons representantes nas duas casas e, desta forma, outros arranjos institucionais devem operar neste sentido, para que tenhamos uma democracia representativa com todos os elementos necessários para o seu bom funcionamento.  O que precisamos é exatamente de pessoas, homens e mulheres, que vivam “para” a política, no sentido weberiano do termo. Há estudos que mostram que, em países em desenvolvimento, haveria uma razão adicional para a falta de interesse: as mulheres considerariam a política um ambiente “sujo” e corrupto.  Mas talvez devamos ver isso, exatamente, como o motivo para participar e transformar.

Como assinalou o prof. Mangabeira Unger, em seminário organizado pelas Escolas de Direito e de Economia da FGV no Rio de Janeiro, para reformarmos o Brasil, precisamos revolucionar as ideias. Então, que a sociedade civil ajude a revolucionar já, formando as novas candidatas mulheres para o Brasil.

 

*Krook, M. & Norris,P. “Beyond Quotas: Strategies to Promote Gender Equality in Elected Office”. Political Studies, 2014, vol 62, 2-10.

 

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