A saída inteligente da pandemia

A saída inteligente da pandemia

REDAÇÃO

06 de novembro de 2020 | 12h17

Thabata Ganga é engenheira biomédica e criadora da rede Brasil Contra o Vírus, que fabricou milhares de EPIs em 3D para hospitais públicos no começo da pandemia (https://brcontraovirus.org)

 

Em um ano trágico como 2020, algumas reflexões servem de consolo. É engraçado pensar que estamos no futuro das ficções científicas do século passado. Que estamos vivendo a quarta Revolução Industrial de toda a história da humanidade. Falou-se muito do novo normal, sendo que a realidade pré-pandemia já era sem precedentes – basta comparar os dias de hoje com 15 anos atrás, quando era necessário manter no carro um livreto de centenas de páginas para se localizar pelas ruas da cidade.

E hoje, cá estamos, acompanhando a chegada do ônibus em tempo real ou deixando uma inteligência artificial decidir qual a melhor rota para o escritório com base no trânsito. A forma como nos relacionamos com a cidade mudou, mas a cidade em si ainda tem um longo caminho a ser percorrido – falta integrar todas as inovações, que são literalmente revolucionárias, ao espaço urbano, rumo às cidades inteligentes.

Esse é um conceito mais simples do que parece. Pense comigo: o que torna nosso celular inteligente é a capacidade de se comunicar com outros sistemas digitalmente para tomar decisões em tempo real que beneficiem o usuário. Troque “celular” por “cidade” e pronto! É exatamente isso que devemos almejar, uma cidade interconectada, produzindo dados de todas as suas áreas, de educação e mobilidade à coleta de lixo e gestão de energia.

Isso tudo exige internet de qualidade, amplamente disponível e pública. Não é apenas uma questão de inclusão digital – etapa imprescindível não só para a cidade como para o futuro do emprego – e sim de internet das coisas. Com tal conexão, é possível colocar lixeiras públicas e bueiros com sensores de capacidade, semáforos que se comportam conforme o trânsito e até sensores capazes de identificar e notificar sons de tiro em uma área de 40 km².

São ideias que já existem no mundo, mas ainda são poucas. Apenas arranham a superfície das possibilidades que virão. Mas faltam iniciativas no Brasil, especialmente em São Paulo, a maior cidade da América Latina e que sequer figura nos rankings mundiais de cidades inteligentes. Talvez seja pela ausência de uma Comissão de Ciência e Tecnologia em sua Câmara Municipal ou pelo fato de o programa de WiFi Livre não ser ampliado desde 2015, mas uma coisa é certa: estamos desperdiçando um potencial enorme.

Às vezes – ainda mais nos últimos dois anos –, a ciência e a tecnologia são encaradas como secundárias, como se só devessem receber investimento depois que sanarmos os problemas mais urgentes do país. Para ater-nos aos exemplos já citados, haveria um grande impacto social, econômico e na segurança da cidade com essas novas tecnologias. A eficiência da polícia aumentaria, enchentes seriam menos frequentes, o trânsito da cidade fluiria melhor e milhares de empregos seriam gerados no desenvolvimento e implementação disso tudo.

O difícil momento que vivemos hoje pode ser a faísca que faltava. A desigualdade tecnológica arruinou os planos da educação pública e tornou homeoffice um privilégio, não um direito. A pauta tecnológica se provou urgente, e o investimento para tornar São Paulo mais conectada pode ser a resposta mais efetiva ao desemprego na cidade. Falta agora iniciativa e vontade política para incluir a população no mundo digital e capacitá-la para as startups e indústrias do futuro, que carecem de mão-de-obra qualificada – e assim superar essa crise o quanto antes.

 

 

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