A REVOLTA DOS (ANTI)VACINA

A REVOLTA DOS (ANTI)VACINA

REDAÇÃO

10 de novembro de 2020 | 14h57

Cristovão Henrique, Doutor em Geografia Econômica pela (UFGD), Pós-Doutor em Geoeconomia pela UFG – e Professor da Universidade Federal do Acre (UFAC).

 

Chegamos em novembro, neste mês a revolta da vacina completa 116 anos, e, mais de um século depois, marcamos o ingresso no oitavo mês de pandemia de COVID-19 no Brasil. É certo que a revolta da vacina, ocorrida em 1904, tem suas complexidades e cruzamentos de fatores relacionados a modernização, saneamento e urbanização da então capital do Brasil, Rio Janeiro. Mas façamos esse paralelo para compreender a instabilidade política gerada nos últimos dias no país com uma reedição tosca do movimento contra a vacina, fabricada pela corporação chinesa Sinovac, a Coronavac .

Explico a bizarrice dessa versão da revolta de agora, de modo simples, o grande diferencial entre os dois momentos históricos do Brasil é que na aurora do século XX, a vacina para a varíola já havia sido testada e aprovada por parâmetros científicos rigorosos, por outro lado, agora, em 2020, no ápice de mais uma crise gerada pelo Governo Federal no combate a pandemia de COVID-19, ainda não existe vacina, aprovada, contra o patógeno (SARS-CoV-2), que promova imunização artificial em massa.

Desde o início da pandemia Brasil, em março de 2020, o obscurantismo tomou a gestão federal da saúde pública e, de lá pra cá, as medidas de isolamento social voluntário, hoje em 33,4%, lockdowns, quarentenas para os infectados, testagem da população e demais medidas de contenção do contágio foram protagonizadas pelos governos estaduais e municipais. O resultado disso foi 27 epidemias diferentes representadas pelos estados e suas peculiaridades regionais com uma quarentena mal feita, um isolamento social à moda brasileira que nos rendeu um evitável e vergonhoso, durante um bom tempo, segundo lugar no ranking de mortos e de infectados no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, com cerca de 5.6 milhões de infectados, com os inumeráveis mais de 161 mil brasileiros mortos (Mapa 1).

 

ANEXO 01 – Mapa 1 – Mapa de mortos e Isolamento social no Brasil

Com ondas de contágio regional por todo país, o Governo Federal, incapaz de formatar uma resposta estratégica, científica e de calibre nacional para a maior crise sanitária do século. O Brasil criou uma roleta de apostas em medicamentos, sem fundamentação científica para a eficácia no tratamento da Covid-19, a ponto do Exército brasileiro, sob comando de Jair Bolsonaro (sem partido), gastou R$ 1,5 milhão em produção de cloroquina criando um estoque do medicamento para os próximos 18 anos. Então, com remédio ineficaz de sobra, enquanto o Presidente da República oferecia cloroquina para as emas nos jardins do Palácio do Alvorada, e negava a pandemia, o vírus se espalhou pelo país em 98% do território nacional.

Na escala internacional, foi dada a largada na corrida geopolítica/geoeconômica pela vacina contra a COVID-19. Cerca de 200 imunizantes estão em desenvolvimento, graças aos avanços científicos e tecnológicos no campo da saúde ao redor do mundo. O que é positivo, já que a essa altura, já é sabido serão necessárias duas doses para imunizar as pessoas, portanto, é evidente que o mundo precisará de ‘vacinas’. Haja vista os mortos e os estragos socioeconômicos que a primeira onda de contágio pelo novo coronavírus promoveu ao redor do mundo e que, na Europa, a segunda onda já colocou o Reino Unido, Espanha e França novamente em lockdowns deixando patente essa urgência.

A crise sanitária internacional desenhou um traço geopolítico peculiar com a corrida pela vacina, na fase três dos testes, com milhares de pessoas para sustentar segurança e eficácia de imunização. Exceto pela Sputnik V, da Rússia, que possuí ensaio clínico reduzido, todos outros imunizantes nesta fase dos respectivos países Alemanha, Bélgica, Estados Unidos e China possuem ensaios na casa de milhares, avançados que eventualmente foram suspensos e retomados, seguindo normas rigorosas da comunidade científica, ainda assim, nenhuma delas estão na fase de aprovação.

Destes dez imunizantes que estão na última fase, dentre as mais avançadas, está a CoronaVac, desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantã, em São Paulo e com apoio do governo estadual. Porém, todos os esforços para a busca do imunizante depararam-se com a fábrica de crises que é Governo Federal criando assim a ‘guerra da vacina’.

Entendamos, como os governos estaduais estão à deriva no enfrentamento da COVID-19 desde o início da pandemia, cada um implementou políticas isoladas e/ou regionais de contenção do contágio. No momento de se organizar estrategicamente para uma futura imunização da população brasileira os Governadores revivem uma espécie de reedição da revolta dos (anti)vacina. Como chamou Jhonatam Berman, em seu livro Antti-vaxxers, esse movimento de desinformação global tem sido responsável pelo retorno de doenças até então já erradicadas ou sob controle. No Brasil, o protagonista anti-vax é o Presidente da República que negou-se inserir no plano nacional de imunizações a futura vacina contra a COVID-19, por mero jogo político, contra seu pretenso adversário político, João Doria (PSDB), nas eleições de 2022.

Do ponto de vista lógico não há vencedores nessa guerra que se materializa em uma disputa insonsa, desrespeitosa e mostra o quão descolado da realidade Jair Bolsonaro está. A reedição da revolta dos (anti)vacinas é tão real como a guerra contra o comunismo ou argumento terraplanista. No cenário mais promissor tudo indica que tenhamos o imunizante para COVID-19, porém, agora, não há vacina que possa imunizar artificialmente em massa a população. Por outro lado, existe mesmo é um Governo ineficaz em criar estratégia robusta para conter a mortes evitáveis, e por isso, o delírio de uma revolta (anti)vacina é um absurdo.

Até conseguirmos o imunizante contra a COVID-19 debate será árduo para combater a desinformação, já que voltamos até a registrar casos de crianças com sarampo fruto de teorias conspiracionistas dos anti-vaxxers que agora contam com um novo aliado no Palácio do Planalto. Ainda assim é certo que consigamos desenvolver a vacina, o que fica no campo da incerteza é que para a ignorância não há imunizante produzido em laboratório restando, fundamentalmente, os livros, educação e ciência, porém, esses fatores estão escassos desde o início dessa gestão obscurantista que o Brasil detém na contenção da pandemia, ainda bem que como a COVID-19, esse culto a ignorância também passará.

 

Cristovão Henrique – Geógrafo e Internacionalista – Professor do Curso de Geografia do CFCH – Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Acre (UFAC). E administra o site geoeconomico.com.br

 

REFERÊNCIAS

 

Data SUS – COVID-19 – Ministério da Saúde Insumos – https://covid.saude.gov.br/

Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME) – https://covid19.healthdata.org/brazil/acre

França e Alemanha ampliam restrições contra covid; nº de casos em 24h bate novo recorde no mundo – https://bit.ly/38gIWR2

Corrida por vacina contra Covid-19 tem cerca de 200 candidatas no mundo – https://bit.ly/38f71aV

BERMAN, Jonathan M. Anti-vaxxers: How to Challenge a Misinformed Movement. 2020.

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