A prática profissional nos EUA pelo olhar de estudantes de Administração Pública brasileiros

A prática profissional nos EUA pelo olhar de estudantes de Administração Pública brasileiros

REDAÇÃO

04 Dezembro 2018 | 08h44

Antonia Andreatta, Daniela Nogueira, Fabio Queiroga e Vinicius Tambourgi: são alun@s do curso de graduação em Administração Pública da FGVSP e realizam, em Washington DC nos EUA, seus estágios profissionais em think tanks, ONGs ou consultorias, no âmbito de um convênio da FGV com o The Washington Center.

Quatro alunos de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas foram aprovados pela instituição The Washington Center para estagiar na capital americana neste semestre. Antonia, Daniela, Fábio e Vinicius tiveram durante alguns meses contato direto com o mundo profissional de Washington, DC, participando em eventos promovidos para discussões variadas, jantares de gala e o networking (termo muito usado pelos americanos para o estabelecimento de contatos).  De forma geral, a capital americana se mostra uma terra de oportunidades para quem deseja trabalhar com temas públicos – não necessariamente governamentais -, onde atores privados e a sociedade civil interagem com o governo a fim de criar um ecossistema de conhecimento e conteúdo – seja com atuação em think tanks, ONGs ou consultorias.

Para Antonia Andreatta estagiar em Washington tem sido uma constante desconstrução de ideias pré-concebidas da política americana e uma infinita idealização do que o Brasil ainda pode vir a ser. Antonia trabalha em uma consultoria de relações governamentais chamada D&P Creative Strategies na qual teve a oportunidade de conhecer o funcionamento do sistema americano mais de perto. No seu trabalho, Antonia teve a oportunidade de mapear os membros do congresso, suas facções políticas, verificar o endossamento de candidatos, observar o resultado das eleições e de acompanhar reuniões corporativas sobre estratégias de abordagem para com o governo. O resultado dessa experiência foi a desilusão com o sistema americano, no qual observou que muitas vezes os interesses privados se sobressaem aos públicos. Entretanto, por outro lado a compreensão mais detalhada também trouxe admiração, o sistema político americano, apesar de também corrompido em certas áreas, inclui institucionalmente no debate público uma variedade muito maior de atores como consultorias, um terceiro setor mais estruturado, centros de pesquisa, entre outros. Para ela, sua maior lição é perceber o impacto de tais instituições paralelas na política americanas e voltar para o seu país esperançosa da possibilidade de um debate público mais amplo e estruturado.

Lidando com uma questão pública polêmica, Daniela Mendes estagiou na National Coalition to Abolish the Death Penalty – uma organização sem fins lucrativos que luta pelo fim da pena de morte nos EUA. Para Daniela, o principal aprendizado tirado dessa experiência foi como lidar com questões extremamente complexas. Apesar de não existir pena de morte no Brasil, o sistema criminal norte-americano tem diversas semelhanças com o brasileiro no nível de análise de desigualdades sócio-raciais – e comparar o tratamento que cada país dá a essas questões foi um exercício importante. Discutir a pena de morte nos EUA requer entender e considerar a estrutura racista sobre a qual a sociedade norte-americana foi construída. Desse ponto de vista, Daniela considera que a forte presença de organizações de advocacy em Washington, DC, contribui para que temas complexos sejam discutidos com mais profundidade. Para ela, o espaço institucionalizado e o respeito que essas organizações possuem em diferentes arenas de discussão promovem um debate mais rico, onde quem ganha é a sociedade.

Fábio Queiroga estagiou em uma das maiores organizações sem fins lucrativos e filantrópicas do mundo, a United Way Worldwide. Durante sua experiência profissional, ele foi inserido em um contexto dinâmico e global, já que a atuação da UWW atinge diferentes países nos cinco continentes. O ponto que talvez mais tenha chamado sua atenção foi o fato da não remuneração de estagiários ser algo generalizado e aceito nos Estados Unidos. Grande parte das vagas de estágio nos EUA para graduandos não são remuneradas. Para Fábio, a despeito dos diferentes ganhos qualitativos, a falta de um “salário” não cria maiores incentivos e amplia desigualdades, indiretamente, ao passo que privilegia jovens que não têm a questão remuneratória como essencial. Ou seja, para aqueles que precisam complementar a renda familiar e/ou ter uma certa independência financeira, por exemplo, o estágio não remunerado não é uma opção adequada. O problema disso é que são justamente essas vagas que oferecem melhores projeções profissionais. Assim, a tendência é que as melhores posições sejam ocupadas por quem tem mais recursos financeiros; e, quem tem menos, tende a ir para o mercado de trabalho de baixa qualificação – já que esse geralmente remunera, apesar de pouco.

A questão mais importante é compreender como funciona o sistema político americano e principalmente como os atores não-governamentais se apoiam para defender seus interesses. Como estagiário numa prestigiada empresa de relações governamentais, a McKeon Group, Vinicius Franco teve o privilégio de trabalhar para um ex-representante do Congresso Americano, o deputado Buck McKeon, que foi durante a Era Clinton e Bush, o presidente da Comissão de Forças Armadas, uma das mais desejadas por determinar todo orçamento e projetos que vão guiar os militares americanos. Nesse período de estágio, ele teve oportunidade de trabalhar com questões relacionadas a área de defesa americana, relações internacionais e o processo legislativo. Além disso, o aluno teve condições de se aprofundar e produzir relatórios sobre a ainda incompreendida guerra comercial americana e os conflitos sobre os tratados comerciais nos Estados Unidos. Por sua vez, Vinícius teve como dois grandes projetos a aprovação de duas leis: uma ligada a competitividade econômica nos estados americanos e outra ligada ao apoio de pequenos empreendedores que foram veteranos militares. Por fim, o aluno teve como maior aprendizado o que se chamaria de “engrenagens” de Washington D.C, em que se apoiam não só os partidos políticos, mas think tanks, associações de comércio e a sociedade civil organizada.

Após um semestre de estágio em Washington, DC, pode-se afirmar que a maior experiência de todas é observar e viver o diferente. Os quatro alunos juntos chegam a conclusão que apesar das falhas no sistema político e profissional americano, a institucionalização de variados atores no debate público torna o processo político mais embasado. Consequentemente, o maior número de instituições cria empregos e faz uso da ada ciência social. Sendo assim, o maior aprendizado não são as ferramentas do dia-a-dia, mas a vivência do diferente e a perspectiva ganha do que o debate público pode vir a ser