A oposição cearense e a pandemia*

A oposição cearense e a pandemia*

REDAÇÃO

30 de março de 2021 | 09h50

Monalisa Torres, Doutora em Sociologia (UFC) e Professora da UECE

Cleyton Monte, Doutor em Sociologia (UFC) e Professor da UFC

Em um ano de pandemia no Brasil e alguns números são assustadores: acumulado mais de 300 mil mortes; segunda onda mais violenta com recorde de 3.250 óbitos em um único dia – número ultrapassado somente pelos EUA; hospitais colapsando em todo o país, escassez de insumos e equipes esgotadas. Enquanto isso, o percentual de vacinados não chegou a 7% da população.

Dentre os fatores que ajudam a entender o caos a que o Brasil chegou no que diz respeito ao enfrentamento da pandemia pelo novo coronavírus está a politização da pandemia, ou seja, o debate ideológico e anticientífico sobre questões de ordem técnica e sanitária, reconhecidas nacional e internacionalmente.

Ainda em março de 2020, em pronunciamento oficial em cadeia nacional de rádio e TV (24/03/20), Bolsonaro deixou claro o posicionamento que adotaria ao longo de toda a pandemia: chamou o coronavírus de “gripezinha”, condenou governadores e prefeitos que decretaram isolamento social rígido, desprezou as máscaras, comprou briga com parceiros estratégicos como a China e citou o uso cloroquina como tratamento para Covid-19.

Em sua narrativa tresloucada, afirmou que a adoção de lockdown tratava-se de boicote ao governo federal no plano econômico. A cobertura da mídia sobre a maior crise sanitária e as mortes anunciadas diariamente não passariam de exagero da “imprensa mentirosa”, cujo objetivo seria desgastá-lo no plano político. Como resposta, Bolsonaro apostou no milagroso “tratamento precoce” que, segundo ele, teria a capacidade de proteger as pessoas e manter a economia funcionando apostando suas fichas na dicotomia “vida versus trabalho”.

Vale destacar que a politização da pandemia não se restringe ao aspecto discursivo, mas também produz efeitos práticos sobre as políticas públicas, como bem pontuou Cleyton Monte em artigo sobre “fakenews institucional”. No caso brasileiro, podemos apontar a falta de coordenação nacional no enfrentamento à pandemia (função que caberia ao Ministério da Saúde), letargia quanto ao plano nacional de imunização, quantidade reduzia de recursos enviados aos estados, etc. Esse comportamento também pode ser observado em relação aos parlamentares quando, por questões políticas, recusou-se a enviar recursos de suas emendas parlamentares para gastos com saúde em seus estados.

As eleições de 2020 acabaram por reproduzir a lógica dessa disputa política. No Ceará, por exemplo, o grupo político de oposição ao governo do estado liderado pelo deputado federal Capitão Wagner (PROS-CE) e pelo senador Eduardo Girão (PODE-CE) coordenou conjunto de candidaturas às prefeituras municipais que, dentre as pautas e programas de governo, se contrapuseram ao lockdown, defenderam tratamento precoce, etc., num claro alinhamento ao bolsonarismo. Como discursos em comum, defenderam a manutenção das atividades econômica sob a justificativa de que “trabalhador e empresário não podem ser penalizados”[i].

Vitoriosos em municípios econômica e politicamente importantes como Juazeiro do Norte (Gledson Bezerra – PODE), Caucaia (Vitor Valim – PROS), Maracanaú (Roberto Pessoa – PSDB) e São Gonçalo do Amarante (Professor Marcelão – PROS), a oposição buscou implementar a política de enfrentamento a pandemia que defendeu ao longo das campanhas eleitorais, mas com uma diferença significativa: o lugar relativamente confortável de oposição (como estilingue, que lança críticas aos governos) transformou-se em vidraça visto que agora são gestores, são chefes do executivo cujo cuidado com a vida e a saúde das pessoas é de sua responsabilidade. Essa mudança de lugar interferiu nas políticas de enfrentamento à pandemia? Vejamos.

O momento mais tenso ocorreu no início de março de 2021. Com a intensificação da segunda onda da covid-19 no Ceará, o governador Camilo Santana (PT) decretou 14 dias de lockdown a partir de 5 de março em Fortaleza (epicentro da crise) e recomendou a medida para municípios em situação grave.

Figura 1 – Mapa da taxa de incidência de Covid19 por 100 mil habitantes no Ceará

Fonte: SESA/IntegraSUS

Mesmo com o crescimento no número de infectados e mortos, as prefeituras comandadas pela oposição optaram por não seguir as diretrizes do governo do Estado. A exceção de Vitor Valim, prefeito de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) que aderiu ao lockdowm um dia antes de o governador estender as medidas de isolamento rígidas para todo o estado (12 de março), quando a taxa de ocupação de UTIs em Maracanaú e Caucaia estava no limite, com 100% de ocupação, enquanto a média em todo o estado era de 91,48%. Naquele momento, o Ceará já registrava mais de 96% dos municípios em risco de contágio altíssimo (Figura 2).

Figura 2 – Mapa de contágio (Ceará)

Fonte: SESA/IntegraSUS

Parlamentares de oposição como o deputado federal Capitão Wagner (PROS) e a deputada estadual Dra. Silvana (PR) gravaram lives criticando as medidas rígidas do governador Camilo Santana. O senador Eduardo Girão (PODE) chegou a publicar artigo na imprensa defendendo o “tratamento precoce” para covid-19. Por sua vez, o deputado estadual André Fernandes (PSL) liderou manifestações de rua, utilizando a #aculpanãoénossa, contra as medidas de restrição.

Figura 3 – Deputado estadual André Fernandes (Republicanos) participa da manifestação contra lockdown (14/03)

Fonte: perfil de André Fernandes (Republicanos) no Instagram

Em resposta através de postagem em suas redes sociais (28/03/21), Camilo reforçou a necessidade de adoção de lockdown para quem a decisão foi tomada com base em critérios científicos e visando a proteção da vida dos cearenses. Aproveitou também para criticar aqueles a quem chamou de “negacionistas e oportunistas, que se preocupam unicamente com as próximas eleições”.

Figura 4 – Postagem de Camilo Santana (PT) em resposta às críticas de políticos de oposição (28/03)

Fonte: perfil oficial de Camilo Santana (PT) no Instagram.

A despeito das medidas impopulares de restrição das atividades não-essenciais e das manifestações da oposição, Camilo Santana tem aprovação de 74%  dos cearenses no que diz respeito à condução da pandemia contra 21% que o desaprovam e 5% que não responderam. Fato que tem alterado o conteúdo das críticas da oposição.

Diante da mudança de discurso do presidente Jair Bolsonaro em pronunciamento (23/03/21) sobre a importância da vacinação no Brasil para a retomada das atividades econômicas, o grupo político liderado por Wagner passou a pressionar o governo cearense a acelerar o ritmo da imunização no estado. Sob o argumento de que a vacinação no Ceará estaria muito lenta, Wagner deu início a uma campanha através das redes sociais com a #agilizaCamilo (Figura 5).

Figura 5 – Postagem do deputado federal Capitão Wagner (PROS) questionando o ritmo de vacinação no Ceará (25/03)

Fonte: perfil oficial de Capitão Wagner (PROS) no Instagram.

Atrás apenas do estado de São Paulo, o Ceará é, no entanto, o segundo estado que mais vacina no país, e registrou a marca de 860.347 pessoas imunizadas sendo que 63,68% das doses destinadas à 2º dose já foram aplicados. Dentre os municípios administrados pela oposição quanto ao percentual de aplicação da 2ª dose temos: Caucaia (67,42%), São Gonçalo do Amarante (58,68%), Maracanaú (56,24%), Juazeiro do Norte (44,77%).

Num esforço de acelerar e ampliar a cobertura vacinal no estado, Camilo Santana anunciou a compra (19/03), por meio do Consórcio Nordeste, de 5,87 milhões de doses da Sputnik V, que deverão chegar ao Ceará a partir de abril.

Num contexto de pandemia, em que gestores públicos se viram na difícil tarefa de adotar medidas rígidas de isolamento social e, consequentemente, paralisar atividades econômicas, ganhou muita força o discurso de “defesa do trabalho” contra a “arbitrariedade e autoritarismo” de prefeitos que se colocariam contra o trabalhador e o empresário.

A oposição busca canalizar os diferentes grupos de insatisfeitos com as medidas do governo do estado. Em uma região marcada pela pobreza, trabalho informal e dependente do setor de serviços (principalmente comércio e turismo), campos fortemente afetados pelas referidas medidas, abre-se um espaço para um discurso com foco em 2022. A grande questão é que o Ceará ultrapassou a triste marca de 13.724 vidas perdidas para a Covid (dados de 29/03/21). A politização da epidemia vai se sobrepor ao direito humano mais básico: a preservação da vida humana?

* SANTANA, Luciana (org). V Série especial ABCP: Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia no Brasil. Em parceria com a Associação Brasileira de Ciência Política.

[i] Para maiores informações sobre as manifestações contrárias as medidas adotadas pelo governo do Ceará durante a pandemia, ver artigo publicado nesta coluna: https://politica.estadao.com.br/blogs/gestao-politica-e-sociedade/ceara-alta-de-casos-e-politizacao-radical-da-pandemia/

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