A morte anda a cavalo

A morte anda a cavalo

REDAÇÃO

21 de maio de 2021 | 14h17

José Antonio Gomes de Pinho, Professor Titular Aposentado – Escola de Administração UFBA e Pesquisador FGV-EAESP

O título deste breve texto é retirado de um filme italiano, da linha spaghetti western, título  traduzido da versão americana. O filme de 1967 contém todos os elementos que retratam a época da expansão para o Oeste, a saber: homens armadas (um homem, uma arma), gangues, insegurança, lei precária, estupros, sadismo, tortura, traição, corrupção, menosprezo por outro povo e crueldade extrema. A morte era uma presença constante e a vida tinha garantias precárias. Acreditamos que esses elementos deste cenário, ainda que tirado de uma peça de ficção, mas que condiz com aquele período histórico da realidade americana, pode ser aplicado à situação vivida presentemente pelo Brasil em tempos da presença do COVID19. É o que nos propomos fazer neste artigo focando fundamentalmente na questão das mortes pela pandemia e, subsidiariamente na questão, não menos importante, da destruição intensa e acelerada da natureza (a boiada continua a passar).

A pandemia continua grassando, levando as vidas de brasileiros e brasileiras. A vacinação anda a passos de cágado por falta de vacinas não compradas no momento correto. Na raiz dessa situação encontra-se a posição negacionista do presidente Bolsonaro que fez acintosamente vistas grossas para a pandemia. Agora a CPI expõe as vísceras dessa política mortífera, farejando as ações e inações de modo a responsabilizar e atribuir as devidas penas aos responsáveis. O presidente, seu principal mentor, perde, então, a capacidade de tergiversar e desviar o foco como procede normalmente.

A atenção de parte da sociedade brasileira com olhos na CPI espera respostas e a identificação de responsáveis pela mortandade que prossegue. O presidente encontra-se em xeque. Por um lado, as pesquisas de avaliação colocam o governante em tendência de baixa como nunca antes havia acontecido, perdendo apoios de segmentos até então seguros. O cerco tem outros frentes, agora com as ações da PF contra o funesto Ministro do Meio Ambiente. Após sucessivas quebras de recordes do desmatamento na Amazônia, faltando ao atendimento a compromissos firmados na recente Cúpula do Clima 21 junto à comunidade internacional, vê agora a lei em seus calcanhares tal o grau de descalabro de suas ações.

Enquanto isso, o presidente de modo a se blindar segue sua opção pelo aprofundamento da união com o Centrão, o que comporta até expedientes heterodoxos como emendas de um Orçamento paralelo que atinge três bilhões de reais, coisa nunca antes vista na história republicana. Adicionalmente faz um alerta recorrente de uma ação enigmática, sem dizer qual, a ocorrer em breve, sem especificar a data, algo que colocaria as coisas no seu devido lugar, obviamente dentro de sua vocação autoritária. Estes recados vêm sempre quando o presidente encontra-se em apuros e a ação a ser tomada seria uma resposta a um suposto chamamento do povo.

O “case” Jair Bolsonaro tem um pedigree complexo: um ex capitão de carreira militar frustrante e frustrada que emergiu  para falar em nome daqueles que tiveram o projeto militar ditatorial abortado pelo presidente Geisel e pela pressão da sociedade civil em meados dos anos 1970. Cerca-se, Jair Bolsonaro, de um número absurdo de militares em postos chave da administração que aderem a seu projeto, talvez não por adesão ideológica, mas por razões oportunistas e pecuniárias. O presidente tenta se blindar e aos seus zeros, assim, com (i) o Centrão (vale chamar a atenção para o congraçamento recente entre Bolsonaro, Lira e o velho Collor, experiente na matéria), (ii) militares e (iii) as recorrentes ameaças vagas e indefinidas convocando o povo. O povo, por sua vez, poderá lhe faltar até porque já vem se tornando rarefeito, não tendo mais o volume do tempo da eleição ou de meros meses atrás, ficando os extremistas radicais e certos grupos religiosos.

O cenário do “velho oeste”, tão bem retratado no filme mencionado, atrai o contumaz transgressor Jair Bolsonaro, o que pode ser atestado através das seguintes posições: (i) sua ideia fixa de liberação de armas; (ii) a proximidade com as milícias; (iii) a louvação da tortura; (iv) o sadismo ao se referir as vítimas do Covid; (v) o menosprezo a outros povos. Merece ainda ser incluído neste saco de maldades, não só no caso americano como nos rincões brasileiros de outrora, a divulgação de supostos remédios milagrosos, no caso a cloroquina e outros, o que foi feito à luz do dia e com observação possível a olho nu. Certamente, se sentindo um messias e um “mito”, se acha possuidor da verdade. O “velho oeste” pode ser aqui.

Nas manhãs e tardes de domingo, após sobrevoar as manifestações de nítido cunho antidemocrático, golpista, dando-lhes apoio, o cavaleiro aterrissa e, confiante e rindo, cavalga junto ao “seu” povo, insensível a mais uma leva de mortes para a semana entrante.  Com o avanço da pandemia, não havendo mais como renunciar à vacina e com a vacinação ainda lenta, a morte anda a cavalo se aproximando do meio milhão de pessoas. A expectativa é que esta CPI COVID ponha um basta nessa corrente de absurdos, insanidades e delírios, de atentados à vida humana, à natureza e à inteligência. O show de horrores tem que terminar. A opinião pública, mesmo sem movimentos de rua, mostra-se conectada à CPI, tomando uma consciência mais orgânica pela identificação dos responsáveis pelo copioso número de mortes. O cavaleiro tem que ser impedido de trazer mais mortes pelo COVID e pela destruição criminosa da natureza.

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