A monja é uma pessoa

A monja é uma pessoa

REDAÇÃO

31 de agosto de 2021 | 14h00

Rafael Perich, Mestrando em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR)

O tribunal inquisitivo da internet não perdoa. A polêmica da vez é a interação “pecaminosa” entre uma empresa de cerveja e a Monja Coen, parceria essa que para muitos é contraditória, seja pelos valores morais que as pessoas julgam ao tratar de religião, ou de como alguém tão exposto influencie desta forma.

Tratar de religião sempre é um tema complicado e as pessoas estranhariam o Papa tomando um refrigerante de marca vermelha e branca, junto de um urso polar. Estranhei e tive meus próprios preconceitos ao observar rapidamente o tema. Se tenho uma religião, seria justamente o Zen-budismo de Coen, porém sem a prática necessária, algo como qualquer cidadão da classe média que foge das missas de domingo.

Sempre temeroso em tratar de religião, até daquela que leio, receoso ao falar que sou dela pelo julgamento de pares que deveriam principalmente por andar nesse caminho não julgar ou ao menos tentar entender motivações que fogem de seus egos. O problema em si talvez seja nossa própria essência como indivíduos crentes de algo que julgamos pela régua que não seguimos.

Expliquei para aqueles que me perguntam sobre calma e budismo, o motivo da contradição em ser intenso e briguento. Considero o budismo algo como Alcoólatra Anônimo, indivíduos cientes de seus problemas que se expõem para os outros em busca de uma coletividade e conhecimento próprio. Nem todos conseguem, em maioria tropeçam pelo caminho e tentam se levantar.

O primeiro passo é saber que você precisa de ajuda, se ajudar e compreender a si mesmo. Talvez, a diferença seja a solução ou o começo dela passando pelo indivíduo tendo consciência que faz parte do todo.

A liberdade e reflexão são elementos-chave da doutrina budista, ou seja, é incentivado que se construa definições próprias sobre as coisas, independente do resultado desse processo. Não quer dizer que não se tenha consequência, até como uma definição bem simplista de carma em uma sequência de ação e reação, como tudo na vida.

Na convivência com outros que lidam com a doutrina já me deparei com a ausência de posicionamento, outros já defendem o posicionamento pelo coletivo. Talvez, o ponto central desse debate seja o choque que “pessoas são pessoas”. Uma vez li sobre o motivo de monges obtendo autorização para casar: antigamente existia a proibição e após um grande incêndio o imperador ordenou que essa regra fosse alterada. O motivo? No mosteiro incendiado habitavam mulheres e filhos dos monges, escondidos por causa das regras impostas não refletidas pela realidade.

A polêmica em si se dá pela imagem construída do monge pobre, pedinte, a expectativa da miséria idealizada na cabeça de cada um. Talvez, o budismo seja exatamente sobre isso, desconstruir, construir, debater, contradizer e polemizar. Ou silêncio, tanto faz.

Lembrei de um pequeno Koan que li anos atrás:

Nan-In, um mestre japonês durante a era Meiji (1868 – 1912), recebeu um professor de universidade que veio lhe inquirir sobre Zen. Este iniciou um longo discurso intelectual sobre suas dúvidas. Nan-In, enquanto isso, serviu o chá. Ele encheu completamente a xícara de seu visitante, e continuou a enchê-la, derramando chá pela borda. O professor, vendo o excesso se derramando, não pode mais se conter e disse: “Está muito cheio. Não cabe mais chá!” “Como esta xícara,” Nan-in disse, “você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como posso eu lhe demonstrar o Zen sem você primeiro esvaziar sua xícara?”

É direito ser e pensar, não ser e recuperar. O direito ao erro é parte essencial do budismo (posso estar errado).

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.