A moda brasileira e a síndrome de baiacu

A moda brasileira e a síndrome de baiacu

REDAÇÃO

08 de junho de 2015 | 16h40

 

Miqueli Michetti, doutora em Sociologia pela Unicamp e professora do Departamento de Fundamentos Sociais e Jurídicos (FSJ) da EAESP/FGV. É autora do livro Moda brasileira e mundialização. São Paulo: Annablume: Fapesp: 2015.

A moda do Brasil proclama-se forte ao tomar consciência de sua debilidade. A partir da década de 1990, com a abertura de mercado no Brasil, o setor nacional de têxteis, confecções e moda se viu diante da concorrência global, pois tanto marcas mundialmente consagradas quanto mercadorias-commodities produzidas por gigantes industriais como a China passam a entrar com mais facilidade no país. É nesse momento de fragilidade que, em face de déficits cada vez mais importantes em sua balança comercial, a moda nacional evocará a noção de “moda brasileira”. Como os suricates ou os baiacus, ao se sentir ameaçada por predadores mais vultosos, a moda do país busca se mostrar maior do que é.

Nessa direção, ela iniciará um périplo global para convencer o mundo de que o Brasil tem uma moda própria, ao mesmo tempo diferente e equivalente das modas historicamente consagradas: a “moda brasileira”. Até então, nosso protegido setor de moda era acusado de apenas “copiar” as tendências dos centros mundiais. Porém, com a globalização das grandes marcas no seio de conglomerados poderosos, bem como das cadeias de fast fashion, o Brasil não poderia seguir camaleônico. Nesse novo cenário, a imitação levaria à extinção, não apenas porque havia agora camaleões mais vocacionados no mesmo ambiente, mas também porque, diante da suposta “homogeneização” da moda mundial, a diversidade será transformada em valor positivo.

Assim, no mesmo contexto em que a globalidade se torna um valor hierarquicamente distintivo, a diversidade, grande vedete da cultura contemporânea, passa a estrelar também no mundo da moda. À recém-nascida “moda brasileira” caberia então exibir-se como diversa… Entretanto, mostrar-se arara-em-bananeira já não será suficiente, pois isso significaria manter o lugar subalterno do exótico que marcou historicamente a posição simbólica do Brasil no mundo. Logo, seria preciso ir além da trinca bunda-biquíni-havaianas. À propalada diversidade brasileira – noção que reedita vários dos mitos fundadores da nação em termos globais e mercadológicos -, seria preciso “agregar” globalidade.  Com essa difícil missão, a moda do país se lança à conquista do mundo.

Mas se a imensa maioria da moda aqui produzida é consumida no mercado doméstico, porque seria preciso se oferecer ao mundo? Acontece que a moda, como vários outros setores que são ao mesmo tempo econômicos e simbólicos, só pode funcionar por meio da criação de valor simbólico e, na atualidade, isso passa pela aquisição de globalidade. Para ser bem sucedida no mercado nacional, que é seu principal filão, a moda do país precisa ser vista no próprio país como global, pois as marcas globais estão disponíveis aos seus consumidores. No entanto, o espaço que ela pode ocupar no mercado mundial de moda é o da diversidade.

Em grande medida, é por essa porta lateral que a moda do país busca adentrar o circuito mundial de moda. No tapete vermelho da porta principal desfilam as marcas de grupos como LVMH, Kering (antigo Pinault-Printemps Redoute – PPR) e Richemont. Contudo, como a moda precisa oferecer cotidianamente o extraordinário, o novo, o diferente, ela buscará a diversidade das “modas-do-mundo”.  É por isso que as semanas de moda mais importantes do planeta parecem operar com uma espécie de “cota de diversidade” disputada vaga a vaga por indianos, libaneses, brasileiros… É com esse crachá que a “moda brasileira” circulará pelo mundo com a missão impossível de oferecer-se globalmente como nacional/diversa para promover-se nacionalmente como global.

Afirmar que a diversidade é uma moeda valiosa nas trocas simbólicas mundiais não significa dizer que globalidade e diversidade possuem valor equivalente no mundo contemporâneo. Trata-se de valores simultânea, dialética e hierarquicamente constituídos. No contexto de um mercado global construído, discursado e vivido enquanto selva darwinista, terão mais chances de sobrevivência os agentes que puderem dosar adequadamente diversidade e globalidade. Entretanto, a possibilidade de estabelecer essa dosagem não é distribuída igualmente entre os diferentes agentes presentes no mercado mundial de moda. Aos atores móveis dotados de globalidade será mais fácil operar com a diversidade de agentes mais fixos considerados diversos. As numerosas “parcerias” entre atores globais de moda e “comunidades produtivas locais” são um exemplo de como isso se dá.

É preciso ter em mente que não estamos diante de estados essenciais, mas de posições relacionais atinentes a condições diferenciadas. Existem relações desiguais entre fixos e móveis, globais e diversos nas várias escalas do mercado. Um agente nacional consagrado pode se colocar como ator móvel em relação a uma “comunidade de rendeiras cearenses” assim como pode assumir a posição de ator fixo em parceria com alguma marca global. O que precisa ficar claro é que as condições de operação dos valores simbólicos no mercado mundial de moda são desigualmente distribuídas. Isso não quer dizer que a moda nacional esteja fadada ao fracasso ou que alguns só têm a ganhar e outros só a perder nessas trocas, mas que o mercado é antes um organizador da diversidade em seus próprios termos do que um veículo de promoção dessa valiosa “anti-commodity”. Nessa organização, há posições de sujeito e de objeto. Elas não são fixas nem absolutas, mas são inegavelmente desiguais.

Na luta concorrencial por recursos escassos – que se descreveu aqui em termos simbólicos, mas que se liga também a condições objetivas -, não são os mais diversos que sobrevivem, mas os mais aptos a dosar diversidade e globalidade. Isso não implica apenas em “adaptabilidade”, para continuarmos no léxico darwiniano que dá o tom no mercado mundial contemporâneo, pois longe de ser uma opção para todos os agentes, a “flexibilidade” é atributo que depende de condições simbólicas e materiais não disponíveis a todos.

Assim, ao apresentar-se exclusivamente como diversa, a “moda brasileira” arrisca ser remetida ao exótico, ao folclórico, ao animal extinto empalhado. Ao buscar a globalidade, ela tende a ser reenviada à posição do camaleão, que busca se adaptar imitando, mas que carece se cores próprias. A esses fatores simbólicos se somam ainda dificuldades materiais de monta, de maneira que a “síndrome de baiacu” deve continuar sendo a estratégia de sobrevivência da nossa moda no mercado mundial, sobrevivência tanto mais dificultada na medida em que, a propósito de nossa empavonada grandeza, diz-se em Paris, capital mundial da moda onde se concentra boa parte dos esforços de internacionalização da moda brasileira, que esta é melhor em faire savoir do que em savoir faire.

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