A memória de uma cidade não se compra em um shopping

A memória de uma cidade não se compra em um shopping

REDAÇÃO

04 de dezembro de 2020 | 17h14

Antonio Neto, é presidente municipal do PDT em São Paulo

 

É inacreditável o projeto do governador João Dória de transformar o Ginásio do Ibirapuera em um shopping center e demolir o seu complexo esportivo para construir três torres comerciais no lugar. Essa proposta ilustra bem a visão tacanha de certa elite, que enxerga os bens públicos como oportunidades de negócios para poucos, em vez de espaços de lazer, cultura, esporte e convivência para todos. Como se o progresso fosse sinônimo de lucro e o bem-estar social fosse medido apenas pelo consumo. Como se a história e arquitetura devessem ser apreciadas somente em viagens pela Europa, e não cultivadas na nossa própria cidade.

O Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, inaugurado em 1957, faz parte da memória afetiva de São Paulo. Palco de inúmeras competições esportivas e shows que marcaram gerações. Berço de formação de medalhistas olímpicos como Maurren Maggi, Tiago Camilo, Rafael Silva e tantos outros. Exemplo importante de arquitetura moderna brasileira, concebido pelo consagrado arquiteto Ícaro de Castro Mello no contexto das comemorações do 4º Centenário de São Paulo. Apagar toda essa história para a construção de mais um shopping center – em uma cidade que já tem 53 – é a última coisa de que São Paulo precisa.

Por que não aproveitar todo o potencial do complexo para promover mais programas de incentivo ao esporte? Por que não modernizar sem destruir, preservando a história arquitetônica da cidade, como se faz nas principais metrópoles do mundo? Por que só pensar em grandes obras que obviamente vão degradar o trânsito e a qualidade de vida na região?

Essa política de urbanismo predatório não começou ontem. Não é fortuita, é um projeto. Passa pela concessão para a iniciativa privada de parques como o Ibirapuera, aprovada no ano passado e iniciada em outubro. O primeiro efeito visível dessa privatização do espaço público foi a instalação de uma loja de cosméticos em pleno parque Ibirapuera. Em que pese ser um projeto temporário, construído com material reciclável, a existência de um negócio privado no meio de um parque público destinado a práticas esportivas e culturais é completamente deslocada. Mais um exemplo da visão deturpada do que significa um parque para a vida de uma cidade, além de um sinal de alerta do que pode vir pela frente.

Esse projeto desastroso para São Paulo passou também pela mudança na composição do Codenphaat, órgão estadual de preservação do patrimônio, feita por decreto por Dória em abril no ano passado. Com a alteração, aumentou o número de representantes do governo e diminuiu o peso das universidades no conselho. Nesta segunda (30/11), o órgão rejeitou a abertura de um processo de tombamento do Complexo Desportivo Constâncio Vaz Guimarães por 16 votos a 8 – dos votos contrários, 12 foram de representantes de governo, 2 de profissionais de notório saber designados pelo governador e 2 de instituições que não tinham assento antes da alteração promovida por ele.

Mas o que é público não pode estar a serviço de alguns. O terreno onde está o complexo é do município, apesar de ele ser administrado pelo governo estadual. A área foi cedida ao Estado por um decreto em 1943 expressamente para “instalação e manutenção esportiva”. Portanto, qualquer mudança de uso precisa obrigatoriamente ser aprovada pela Câmara Municipal.

É preciso que toda a sociedade esteja atenta e cobre dos seus vereadores eleitos a defesa do patrimônio público, ainda mais em um ano em que está prevista a revisão do Plano Diretor de São Paulo. Se prevalecer a sanha imobiliária predatória que se anuncia, não só a região do Ibirapuera como toda a cidade estará ameaçada.

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